Aquela noite no morro tava diferente… e eu senti isso assim que cheguei.
Depois de tudo que rolou, o clima não era mais de desconfiança — era de festa. E não qualquer festa. Era o tipo que o Timóteo gostava: alto, exagerado… sem limite nenhum.
Assim que eu entrei na casa, o som do funk bateu forte no peito. Grave pesado, luz piscando, gente pra todo lado. Risada, bebida, corpo colado… parecia outro mundo.
Nem precisei pedir nada. Um dos caras já veio com um copo na mão e me entregou.
— Hoje é por tua causa.
Eu só dei um meio sorriso… e virei de uma vez. Nem pensei.
No meio da sala, várias mulheres dançavam. E eu senti na hora quando os olhares vieram na minha direção. A notícia já tinha corrido.
Eu tinha subido.
E naquele lugar… isso mudava tudo.
Lá no fundo, o Timóteo tava cercado, como sempre. Mas quando ele me viu, levantou o copo, de leve. Sem falar nada.
Respeito.
Eu respondi do mesmo jeito.
Com o tempo passando, a festa só foi ficando mais intensa. A música mais alta, o álcool batendo, a galera mais solta.
Quando percebi, já tava no meio da pista. Cercado.
Uma chegou mais perto, colando o corpo no meu, puxando pela camisa.
— Vem cá…
Eu ri.
Nem deu tempo de responder direito, outra já veio por trás, não querendo perder espaço.
— Calma aí…
Mas eu não me afastei.
Fiquei ali, deixando acontecer. O jogo de olhar, toque, provocação… tudo ao mesmo tempo.
Beijava uma… logo outra puxava de volta. Mão passando, corpo encostando, disputa começando a aparecer.
— Ele tava comigo!
— Tava nada!
Eu só observava, meio divertido… meio já acostumando com aquilo.
— Ei… sem briga — falei, segurando o braço de uma antes que virasse problema de verdade.
Mas dava pra ver: não era só diversão.
Era interesse.
E eu tava no meio disso tudo.
Em outro canto, eu senti o olhar do Timóteo.
Ele tava quieto, copo na mão… mas vendo tudo.
— O moleque tá aproveitando — ouvi um dos caras comentar.
E o Timóteo só respondeu, tranquilo:
— Deixa. Ele merece.
Mas eu conhecia aquele olhar.
Ele não tirava o olho de mim.
A festa continuou subindo… até que alguém gritou:
— Bora pra piscina!
E foi rápido.
Em poucos minutos, a galera começou a sair da casa, indo pra área externa. A música continuava, só que agora misturada com grito, risada, gente animada.
A piscina tava iluminada, água refletindo as luzes, várias meninas já ali, sentadas na borda, rindo, chamando atenção.
Eu cheguei logo atrás, ainda com o copo na mão.
Olhei tudo e soltei:
— Agora sim…
Uma delas não perdeu tempo. Me puxou direto.
— Vem!
Nem pensei. Larguei o copo e entrei na água, arrancando risada de todo mundo. Gelada… mas nem senti direito.
O clima tava leve. Solto.
Diferente de tudo que eu vinha vivendo.
Logo depois, o Timóteo apareceu também. Mais calmo, como sempre. Observando antes de entrar.
Mas quando entrou… o espaço abriu pra ele.
Sempre abria.
Dentro da água, a vibe era outra. Música ao fundo, gente brincando, respingo, conversa.
Eu já tava totalmente no clima. Rindo, jogando água, sendo puxado de um lado pro outro.
— Você não para quieto, né? — uma falou, rindo.
— Hoje não.
Outra encostou mais perto, falou no meu ouvido… eu ri. Nem sei mais o que ela disse.
Ali, parecia fácil.
Simples.
Leve.
Mas só por fora.
Porque em um momento… eu parei.
Encostei na borda da piscina, respirei fundo… e olhei em volta.
Dinheiro.
Poder.
Gente.
Respeito.
Tudo ali.
Tudo que eu não tinha antes.
Mas no fundo… eu sabia.
Nada daquilo vinha de graça.
E aquela mesma noite que tava comemorando minha subida…
Também era um aviso.
Porque agora… não era mais só sobre sobreviver.
Eu já tava começando a fazer parte do jogo.
E nesse jogo…
Ou você cresce… ou você cai.