Capítulo 6

808 Words
O dia amanheceu pesado. Eu nem cheguei a dormir direito. Passei a madrugada inteira olhando pro teto, com a cabeça cheia… revivendo cada mensagem, cada palavra, cada detalhe que eu queria esquecer, mas não conseguia. Quando o despertador tocou, eu já estava acordado. Cansado. Mas não era cansaço físico. Era outra coisa. Ao meu lado, Sophia se mexeu devagar. — Bom dia… — disse ela, com aquela voz suave de sempre. Como se nada tivesse acontecido. Como se tudo estivesse normal. Virei o rosto e forcei um sorriso. — Bom dia. E foi aí que eu senti de verdade. Ela era a mesma. Mas, pra mim… não era mais. Durante o café, ela falou coisas simples. Comentou do dia, disse que precisava sair pra resolver umas coisas, comprar algumas coisas no mercado… Eu só ouvia. Ou fingia ouvir. Na verdade, eu estava observando. Cada gesto. Cada olhar. Cada pausa. Tudo parecia… normal demais. E isso me incomodava mais do que qualquer outra coisa. — Vou ali no mercado rapidinho — ela disse, pegando a bolsa. — Tá… vai lá. Tentei parecer natural. Mas, por dentro… Eu já tinha decidido. Assim que a porta se fechou, o silêncio voltou. Só que dessa vez, eu não fiquei parado. Peguei a chave do carro quase sem pensar. — Eu preciso saber… — falei baixo, mais pra mim mesmo. Minutos depois, eu já estava na rua. Seguindo. Mantendo distância. O coração batendo forte. Cada esquina era uma tensão. Cada semáforo… um teste. Minha cabeça não parava. “E se eu estiver exagerando?” “E se for verdade?” “E se eu ver algo que não vou conseguir esquecer?” Mas eu continuei. Sophia seguiu algumas ruas… E não foi pro mercado. Meu estômago virou. Ela entrou numa rua mais tranquila. Parou o carro. Eu passei direto. Estacionei mais à frente. Fiquei observando pelo retrovisor. Ela desceu. Olhou em volta… E sorriu. Mas não era o sorriso que ela dava pra mim. Era diferente. Mais solto. Mais íntimo. Eu senti na hora. Foi aí que outro carro parou atrás do dela. Eu nem precisei ver. Eu já sabia. Mateus. Ele desceu tranquilo. Como se aquilo fosse normal. Como se não tivesse nada errado. Sophia caminhou até ele. Sem hesitar. Sem medo. E então… Eles se abraçaram. Um abraço que demorou. Mais do que deveria. Mais próximo. Mais… íntimo. Eu apertei o volante com força. Senti os dedos doerem. O mundo pareceu parar. A mulher que eu amava. O homem que eu chamava de irmão. Ali. Na minha frente. E eles não sabiam que eu estava ali. E naquele momento… Acabou. A dúvida acabou. Mas a dor… Só começou. Eu não consegui desviar o olhar. Fiquei preso naquela cena. Assistindo. Sem conseguir reagir. Sem conseguir aceitar. Mas também sem conseguir ir embora. Eles ainda estavam próximos. Conversando. Sorrindo. Leves. Como se aquilo fosse normal. Como se não tivesse ninguém sendo destruído ali. Mateus tocou no braço dela. De leve. Mas íntimo demais. Ela não recuou. Eu fechei os olhos por um segundo. Mas quando abri… Foi pior. Ela riu. Abaixou a cabeça… Do mesmo jeito que fazia comigo. Ou fazia. Eles começaram a andar juntos. Próximos demais. Entraram num café. Eu fiquei alguns segundos parado. Minha mente gritava pra ir embora. Mas meu coração… Queria ver. Queria ter certeza. Eu saí do carro. Fui até o outro lado da rua. Sentei num banco, fingindo mexer no celular. Mas meus olhos… Estavam neles. Dentro do café. Eles sentaram de frente um pro outro. Conversavam. Sorrindo. Mas os olhares… Os olhares diziam tudo. E então… Mateus segurou a mão dela. Ali. Na mesa. Sem esconder. Sem medo. Meu peito apertou de um jeito que eu nunca senti. Sophia olhou em volta… E não tirou a mão. Ela entrelaçou os dedos nos dele. Naquele momento… Acabou. Não tinha mais dúvida. Não tinha mais desculpa. Não era coisa da minha cabeça. Era real. Eu levantei devagar. Minhas pernas estavam pesadas. Mas eu não entrei. Não fiz escândalo. Não ainda. Porque o que eu estava sentindo… Não era só raiva. Era mais frio. Mais profundo. Decepção. Eu voltei pro carro. Entrei. Fiquei parado. Olhando pro nada. Os olhos ardiam… mas eu não deixei cair nenhuma lágrima. Respirei fundo. Uma vez. Duas. E liguei o carro. Agora eu sabia. E com a verdade na minha frente… Eu precisava decidir o que fazer. Mas uma coisa era certa. A raiva estava ali. Forte. Pesada. Ela, poucos dias atrás, falando de filho… De futuro… De família. E agora… Aquilo. A sensação de ter sido feito de i****a… De ter sido enganado… Queimava. O ódio começou a crescer. Silencioso. Frio. E, naquele momento… A única coisa que passava pela minha cabeça… Era uma só. Eu queria fazer eles sentirem. Nem que fosse só um pouco… Do que eu estava sentindo agora.
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