Capítulo 5

850 Words
A tarde foi passando… quente, leve… mas com alguma coisa errada. No começo, parecia só mais um dia bom. Risadas soltas, taças sendo preenchidas sem parar, conversa fácil… mas, aos poucos, eu comecei a perceber. Ou talvez… eu não quisesse perceber antes. Mateus estava diferente com a Sophia. Não era nada escancarado. Era sutil. Mas era constante. A mão dele demorava um pouco mais quando entregava um copo pra ela… o sorriso era mais aberto… mais direcionado. E os comentários… sempre no limite entre a brincadeira e alguma coisa a mais. E o pior? Ela não cortava. Sophia, com o rosto levemente corado pelo vinho, parecia leve demais… solta demais. Talvez não estivesse percebendo. Ou talvez… Estivesse deixando acontecer. Eu fiquei em silêncio. Por fora, eu ainda ria… participava… respondia. Mas por dentro… Alguma coisa já não encaixava mais. Era como um aviso. Um incômodo que eu não conseguia ignorar. Quando o sol começou a cair, decidimos ir embora. No caminho, Sophia estava diferente. Mais leve do que o normal… rindo de coisas pequenas, encostando a cabeça no vidro, como se estivesse distante de tudo. Eu dirigi em silêncio. Pensando. Observando. Sentindo. Quando chegamos em casa, ela nem falou muito. Foi direto pro banho. A água caiu… levou o cheiro do vinho. Mas não levou o que tinha começado dentro de mim. Pouco depois, ela saiu, vestiu uma roupa leve e se jogou na cama. — Tô com muito sono… Em minutos, estava dormindo. Fácil. Tranquila. Como se o dia tivesse sido só mais um dia comum. Eu fiquei ali. Parado. O silêncio da casa parecia mais alto do que qualquer barulho. Tentei deitar. Tentei fechar os olhos. Mas não consegui. A imagem do Mateus… O jeito que ele olhava pra ela… O jeito que ela respondia… Tudo voltava. Meu olhar foi, sem querer… até o celular dela. Ali. Do lado da cama. Meu coração acelerou. Eu já tinha visto algo antes. E aquilo não tinha saído da minha cabeça. Fiquei alguns segundos parado. Sabendo que era errado. Mas a dúvida… Era maior. Com cuidado, peguei o celular. Olhei pra ela. Dormindo. Respiração leve. Sem defesa. Respirei fundo. E desbloqueei. Dessa vez… Eu não ia parar. A luz da tela iluminou meu rosto. Minhas mãos estavam tensas. Fui direto nas mensagens. Conversas normais. Amigas. Família. Nada. Por um segundo… quase me senti aliviado. Quase. Até ver o nome. Mateus. A conversa estava ali. Recente. Muito recente. Engoli seco… e abri. As primeiras mensagens… Simples. Inofensivas… à primeira vista. “Gostou do dia hoje?” “Foi bom demais 😄” “Você tava linda.” Meu peito apertou. Ela respondeu. “Ah para… 🙈” “Você também tava diferente hoje…” Diferente. Aquilo ficou na minha cabeça. Eu continuei. E cada mensagem… parecia puxar mais fundo aquilo que eu já estava sentindo. “Queria ter ficado mais tempo do seu lado.” “Pablo nem percebeu nada kkk” Eu parei. Na hora. Meu corpo travou. O ar ficou pesado. Virei o rosto devagar… olhei pra Sophia. Dormindo. Em paz. Como se nada estivesse acontecendo. Voltei pro celular. A resposta dela estava lá. “Para com isso…” “Você não presta 😅” Mas não era um corte. Não era rejeição. Era… jogo. Proximidade. E aquilo… Foi o suficiente. Não era uma traição clara. Mas também não era inocente. Senti alguma coisa quebrar dentro de mim. Devagar. Mas definitiva. Bloqueei o celular. Coloquei de volta. Mas não consegui sair dali. Fiquei sentado na beira da cama… olhando pro nada. A confiança… Já não era mais a mesma. E o pior… Era saber que, no dia seguinte… Eu teria que olhar pra ela. E fingir. Mas eu não consegui parar. Alguma coisa dentro de mim precisava saber mais. Peguei o celular de novo. Voltei pra conversa. Subi. Mais mensagens começaram a aparecer. Aquilo não era de hoje. Dias antes. “Você some 😒” “Saudade de você” Meu maxilar travou. Ela respondeu. “Também senti… mas é complicado” “Você sabe…” Complicado. Passei a mão no rosto. Tentando processar. Mas só piorava. Continuei. Áudios. Mensagens apagadas. Fotos que não estavam mais ali. E aquilo gritava. Mais do que qualquer palavra. Tinha coisa sendo escondida. Voltei. Mais mensagens. “Queria você aqui agora.” “Para… você vai me deixar doida assim 😅” Meu coração acelerou. Mas agora… Não era só ansiedade. Era raiva. Era decepção. Era um vazio que eu não sabia explicar. Olhei pra ela de novo. Deitada. Tranquila. A mesma mulher. Mas não era mais a mesma pra mim. Não depois daquilo. Bloqueei o celular. Dessa vez, com força. Levantei devagar. Fui até a janela. A noite lá fora… quieta. Mas dentro de mim… Um caos. Eu não tinha visto uma traição. Não claramente. Mas tinha visto o suficiente. Uma linha tinha sido cruzada. E talvez… Já fosse tarde. Fiquei ali, olhando pro escuro. Respirando fundo. Sentindo tudo pesar. E, pela primeira vez… Uma decisão começou a se formar. Lenta. Pesada. Mas inevitável. Porque depois daquilo… Nada mais ia ser como antes.
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