Os dias passaram rápido demais depois da viagem.
Ou talvez tenham passado devagar… de um jeito estranho, cansativo.
Quando o avião pousou no Acre, eu fiquei olhando pela janela tentando sentir alguma coisa diferente.
E senti.
O lugar era bonito.
Muito mais do que eu imaginava.
Ver tanto verde junto parecia quase irreal. A cidade tinha um ritmo diferente do que eu estava acostumada. Menos correria. Menos barulho. O ar parecia mais leve.
Mas, mesmo assim…
eu me sentia deslocada.
Como sempre.
Os primeiros dias foram uma mistura de compromissos, reuniões e jantares formais.
Meu pai praticamente não parava.
Toda hora alguém importante aparecia. Deputados, empresários, governadores… homens de terno falando sobre dinheiro, projetos e política como se o mundo inteiro dependesse daquelas conversas.
Talvez dependesse mesmo.
Mas aquilo me cansava.
Eu passava horas ouvindo assuntos que pareciam todos iguais.
Corrupção escondida em palavras bonitas.
Sorrisos falsos.
Interesses.
Sempre interesses.
Minha mãe tentava me incluir.
— Fique perto das outras meninas — dizia ela nos eventos.
“As outras meninas.”
Filhas de políticos. Empresários. Gente importante.
Todas perfeitamente arrumadas.
Todas educadas demais.
Parecendo treinadas desde pequenas para aquele mundo.
E talvez fossem mesmo.
Algumas eram simpáticas. Outras claramente só se aproximavam por educação. Conversavam sobre faculdade, viagens internacionais, marcas caras, festas em lugares que eu nunca tive vontade de conhecer.
Eu sorria.
Respondia.
Mas me sentia longe dali.
Mesmo estando no meio.
Em um dos dias, minha mãe insistiu para passearmos pela cidade antes de um jantar importante.
E, pela primeira vez desde que chegamos…
eu gostei de alguma coisa.
Andamos pelo centro histórico de Rio Branco, passamos pela passarela iluminada sobre o rio, vimos o movimento das feiras locais e as pessoas caminhando tranquilamente pelas ruas.
Era simples.
Mas real.
Bem diferente dos ambientes fechados onde meus pais viviam.
Minha mãe até parecia mais leve naquele dia.
Menos preocupada.
Menos rígida.
— Bonito aqui, não é? — ela comentou enquanto caminhávamos.
Eu olhei ao redor antes de responder.
— É.
E era mesmo.
As árvores enormes, o céu aberto no fim da tarde, o vento quente… tudo parecia distante da pressão que eu sentia em casa.
Por alguns minutos…
eu consegui respirar.
Mas à noite tudo voltava.
Saltos altos.
Vestidos.
Sorrisos forçados.
Homens importantes apertando minha mão e dizendo:
— Sua filha está cada dia mais bonita.
Como se eu fosse parte de uma vitrine.
Em um dos jantares, sentei perto de uma garota chamada Helena.
Ela também era filha de político.
Linda.
Elegante.
Perfeita.
Mas completamente infeliz.
Dava pra perceber.
— Você também odeia isso tudo? — ela perguntou do nada, enquanto mexia distraída na taça.
Eu olhei surpresa.
— Dá pra perceber?
Ela riu sem humor.
— Em você… dá.
Eu abaixei o olhar, soltando um pequeno sorriso.
— Então você também odeia?
Helena deu um gole na bebida antes de responder:
— A gente cresce aprendendo a representar.
A frase ficou presa na minha cabeça.
Porque era exatamente aquilo.
Representar.
Filha perfeita.
Família perfeita.
Vida perfeita.
Tudo parecia um grande teatro.
Naquela noite, depois do jantar, voltei pro quarto cansada.
Tirei os saltos e fui até a varanda do hotel.
A cidade estava silenciosa lá embaixo.
Muito diferente da bagunça do morro.
Muito diferente do baile.
E, sem querer…
eu pensei nele de novo.
Pablo.
Fazia dias que eu não via aquele mundo.
Dias que eu não ouvia música alta.
Dias sem adrenalina.
Mas a lembrança continuava ali.
Estranha.
Persistente.
Eu apoiei os braços na varanda, olhando a cidade iluminada.
— Ridículo… — murmurei pra mim mesma.
Porque eu nem conhecia ele direito.
Mesmo assim…
meu pensamento voltava.
Talvez porque, perto de tudo aquilo…
o olhar dele parecia mais verdadeiro do que qualquer pessoa daquele jantar inteiro.
Eu continuei na varanda por mais alguns minutos, olhando as luzes da cidade lá embaixo.
O vento estava quente, mas agradável. Pela primeira vez no dia, tudo parecia silencioso.
Sem discursos.
Sem sorrisos forçados.
Sem gente tentando parecer perfeita o tempo inteiro.
Só eu… e meus pensamentos.
E isso às vezes era pior.
Eu ainda estava pensando em tudo que a Helena tinha falado no jantar.
“Aprendendo a representar.”
Aquela frase não saía da minha cabeça.
Porque era exatamente assim que eu me sentia.
Uma personagem.
Uma versão de mim criada pros outros.
Eu suspirei baixo, fechando os olhos por um instante.
Até ouvir batidas na porta.
Meu coração acelerou automaticamente.
— Entra… — falei, me afastando da varanda.
Era meu pai.
Ele entrou devagar, sem aquela postura dura de sempre. Parecia mais cansado naquela noite.
Por um segundo, nós dois ficamos em silêncio.
O que já era estranho.
Meu pai nunca foi um homem de silêncio confortável.
Ele olhou ao redor do quarto antes de falar:
— Sua mãe já dormiu.
Eu apenas assenti.
Sem saber onde aquela conversa ia chegar.
Ele colocou as mãos nos bolsos e me observou por alguns segundos.
— Você se comportou muito bem nessa viagem.
Eu pisquei, surpresa.
Aquilo… eu realmente não esperava.
— O quê?
Ele deu um leve sorriso de canto.
Pequeno. Quase raro.
— Nas reuniões. Nos jantares. Com as pessoas… você foi madura.
Eu fiquei sem reação por um instante.
Porque, durante tanto tempo…
eu só ouvi cobranças.
Nunca elogios.
— Sua mãe ficou satisfeita — continuou ele. — Ela comentou comigo hoje.
Aquilo mexeu comigo mais do que deveria.
Porque, no fundo…
eu queria aquilo.
Queria ouvir que eles tinham orgulho de mim.
Queria sentir que eu era suficiente.
E talvez essa fosse a parte mais confusa de tudo.
Meu peito apertou levemente.
— Entendi… — respondi baixo.
Meu pai me olhou por mais alguns segundos.
— É assim que as coisas deveriam ser entre nós, Dalila.
A frase ficou no ar.
Pesada.
Porque eu entendia o que ele queria dizer.
Sem discussões.
Sem rebeldia.
Sem baile.
Sem o mundo que eu tinha começado a conhecer.
Só… a filha perfeita de sempre.
Ele respirou fundo antes de continuar:
— Você é inteligente. Tem futuro. Não precisa se envolver com coisas… erradas.
Meu olhar desviou automaticamente.
E ele percebeu.
— Eu tô tentando proteger você — disse ele, mais calmo do que de costume.
E talvez fosse verdade.
Talvez, na cabeça dele…
aquilo realmente fosse amor.
Controle misturado com medo.
Eu senti um nó na garganta.
Porque, por um momento…
eu quis ceder.
Quis voltar pro caminho fácil.
Parar de criar problemas.
Fazer meus pais felizes de novo.
Mas então…
eu lembrei da sensação do baile.
Da liberdade.
Do jeito que eu me sentia viva lá.
E percebi que agora existiam duas partes dentro de mim.
Uma queria continuar sendo a filha perfeita.
A outra…
queria descobrir o mundo.
Meu pai se aproximou um pouco mais.
— Eu só quero o melhor pra você.
Eu levantei os olhos lentamente.
E aquilo era o pior.
Porque eu sabia que ele acreditava nisso.
Mesmo sem me enxergar de verdade.
— Eu sei — respondi baixo.
Ele assentiu devagar.
Depois se aproximou e beijou minha testa como fazia quando eu era criança.
Um gesto simples.
Mas que quase desmontou toda a minha raiva.
Quando ele saiu do quarto, eu fiquei parada no mesmo lugar.
Em silêncio.
Sentindo o coração dividido.
Parte de mim feliz por finalmente ter recebido aprovação.
E outra parte…
assustada por perceber o quanto ainda queria agradá-los.
Eu me sentei na cama devagar, olhando minhas malas abertas perto da parede.
As roupas elegantes.
Os vestidos perfeitos.
Tudo aquilo ainda fazia parte de mim.
Mas não era só isso mais.
Eu passei a mão no rosto, cansada.
Porque talvez esse fosse o verdadeiro problema.
Eu não sabia mais onde pertencia.