Murilo Ferreira
Estou um pouco apreensivo nesse momento, encaro as paredes em branco a minha volta e tento não entrar em pânico. É uma sensação que chega a ser sufocante, estou quase correndo para o mais longe daqui.
Não parece estranho você vir aqui e falar sobre seus assuntos mais íntimos com uma pessoa estranha? Sendo que não tive nem mesmo coragem de falar sobre isso com meu irmão? Dizem que você fala com mais facilidade quando se é com um estranho, mas no momento, não estou me sentindo bem em ver esse psicólogo.
Respiro fundo e observo melhor a minha volta, tem mais umas duas pessoas espalhadas pela sala de espera, cada uma concentrada em seu próprio mundo, elas parecem confortáveis, já eu, minhas pernas estão balançando loucamente, sinal claro de que estou muito ansioso.
Quando já tenho decorado cada canto dessa sala, o meu celular vibra em meu bolso, quando vejo a notificação, vejo ser Max, inconscientemente um sorriso se abre em meus lábios.
“Doido do estacionamento
Você sumiu.” Reviro meus olhos para a sua mensagem.
“Que eu me lembre, você é o único a ter o meu número.” Lhe envio. Fico encarando o celular, esperando a sua próxima resposta, logo meu pé começa a batucar no chão.
Doido do estacionamento
“Estava tentando me fazer de difícil, mas não resistir, tive que falar com você, não aguentava esperar.”
Solto uma risada baixa, esse homem realmente é o mais divertido que já conheci, ele com toda certeza sabe como me tirar um sorriso.
“Você esperou por dois dias, achei que ligaria naquela mesma noite.” Posso até imaginar seu sorriso do outro lado da tela. Não demora nem mesmo um minuto, e logo chega à mensagem dele.
“Doido do estacionamento
E eu iria, mas fiquei imerso no meu trabalho, não pude para nem mesmo por dez minutos, se não tudo iria por água abaixo.” Reviro meus olhos.
“Isso mesmo, inventa mais desculpas.” Dessa vez ele demora mais do que uns três minutos para responder e, logo volto a ficar nervoso novamente.
Doido do estacionamento
“Então isso quer dizer que você ficou esperando ansiosamente pela minha mensagem?” Posso até mesmo ouvir o tom de deboche em sua fala.
“Não estou tão desesperado assim, ao contrário de você, que quase me implorou de joelhos pelo meu número.” Solto uma curta risada.
Doido do estacionamento
“Não chamo isso de desespero, eu apenas sempre vou atrás daquilo que quero, até conseguir.”
Leio e releio essa mensagem, será mesmo que ele irá até o fim, que ele não vai desistir no meio? Quando perceber o quão quebrado eu sou? O quão inseguro me encontro?
Passo que repasso na minha cabeça “Vocês não estão se preparando para se casarem, é apenas um encontro”, mas minhas inseguranças me fazem pensar em todo um futuro em que tudo, absolutamente tudo pode dar errado. Não posso me impedir de imaginar me apaixonando por ele e ele me deixando quando se der conta que eu não sirvo para ele.
Não sei mais o que fazer, não sei como prosseguir, quando achei que tinha encontrado a pessoa certa, aconteceu toda essa m***a. Solto um longo suspiro frustrado. Meus pensamentos estão uma bagunça.
Quando estou pronto para responder a Max, meu nome é chamado e todo o nervosismo com essa primeira consulta volta com tudo, quase me fazendo ficar de joelhos quando me levanto.
Sei que é para o meu bem, mas não posso impedir o medo e o nervosismo de me tomar o corpo todo.
Depois de duas respirações pesadas, sigo até a porta onde me é indicado, dou uma batida e uma voz feminina me permite entrar, como estou nervoso, noto primeiro as paredes em azul claro, uma poltrona em couro preto em frente a uma mesa de madeira escura, e atrás da mesa sentada sobre uma cadeira e com os cotovelos apoiados sobre a mesa se encontra uma mulher de cabelos pretos, olhos azuis e um sorriso que eu diria acolhedor em seu rosto, ela não aparenta ter mais que trinta e cinco anos, sua pele morena faz um lindo contraste com os olhos claros.
- Olá, Murilo certo? – Apenas assinto com a cabeça. – Sou a Kelly, sua psicóloga e amiga caso queira assim. – Então seu sorriso está lá, me sinto menos nervoso, ela se levanta e ainda de trás de sua mesa ela estende sua mão para mim.
- Prazer.
- Sente-se. Hoje vamos apenas nos conhecer, caso queira falar, fique à vontade. – Ela direciona seus olhos ao computador que estar um pouco para o lado, assim não me impede de vê-la e digita algo, mas logo seus olhos azuis estão focados em mim. – Me conte, com o que trabalha. – E aponta para a poltrona a minha frente, com passos lentos me sento sobre a confortável poltrona, começo a estrelar meus dedos da mão em um sinal claro que nervosismo, quando a olho esse meu gesto não parece passar despercebido por ela.
- Sempre faz isso quando está nervoso? – Pergunta calmamente. Respiro fundo, mas não desvio meus olhos dos seus.
- Vim perceber esses dias essa nova mania. – Lhe dou um sorriso vacilante.
- Pode relaxar, Murilo, sei que é difícil, mas vamos tentar ok? – Assinto. Ela fica em silêncio apenas me observando. Quando me sinto um pouco mais confiante lhe dirijo a palavra.
- Eu trabalho em uma loja de roupas, digamos assim, eu desenho a maioria na verdade. – Kelly parece realmente interessada. – Fiquei alguns anos na França estudando moda, voltei recentemente para o Brasil e abri minha loja aqui.
- Porque quis voltar ao Brasil. – Abro minha boca e nada sai. – Tudo bem, não precisa me contar agora. – Assinto.
- Voltei também porque estava com saudades do meu irmão adotivo.
- Oh, você tem um irmão?
- Sim. – Agora um sorriso sincero aparece em meus lábios. – Nossas mães são amigas a muito tempo, fomos criados juntos, nós consideramos irmãos, temos praticamente duas mães. Ele é casado, tem três sobrinhos lindos, dois são gêmeos, e uma princesa muito linda.
Quando vi estava contando tudo sobre minha família, até que acabou meu tempo e tive que me retirar, mas eu realmente gostei de falar com ela, no final eu estava mais nervoso, e quando sai pela porta, não via a hora de voltar lá novamente.
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O táxi para em frente ao shopping, lhe pago pela corrida e sigo até as grandes portas giratórias entrando e sendo recebido pelo ar gelado de dentro do grande shopping, sigo direto até o elevador e aperto o terceiro andar, hoje término de arrumar as últimas coisas da minha loja. Assim que as portas do elevador se abre ando em meio as pessoas e logo chego a frente da minha pequena loja, tiro as chaves do meu bolso e adentro o lugar, tiro o casaco que vesti e fico apenas de calça e camiseta rosa clarinho, coloco alguns manequins na vitrine e vou até as caixas com as roupas em meu escritório, as colocando nos manequins, depois de mais ou menos umas duas horas, tinhas todos os manequins na vitrine com as roupas a posto, com as roupas que sobraram na caixa fui arrumando nos cabides e araras ao longo de toda a loja.
Quando dei por mim, já tinha se passado cinco horas, e todas as roupas estavam no lugar, me encontrava todo suado, apesar do ar-condicionado estar ligado, passo meu braço sobre minha testa e olho em volta, me sinto orgulhoso, minhas peças todas a vista, prontas para serem vendidas. Um sorriso desponta em meus lábios, então olhos me vem à mente, junto com o sorriso sacana. Respiro fundo fechando meus olhos.
- Filho da p**a. – Falo alto. Parece que aquele i****a se impregnou em meus pensamentos, como posso lembrar de cada detalhe do rosto dele, dos olhos? Por Deus, não posso cair nessa, não posso me permitir sentir algo por ele, não daria certo, não vai dar certo.
Tudo bem, talvez eu queira sair com ele, mas não posso me iludir, não vou me iludir, repito isso várias e várias vezes para mim mesmo.
Olho para meu relógio e não passa das duas da tarde, então entro em meu escritório e passo a ver os currículos para a entrevista, preciso de pelo menos mais um funcionário.
Passo mais ou menos uma hora ali entre papéis, separo quatro currículos que me chamaram a atenção dentre outros vinte, deixo uma mensagem no e-mail de cada um marcando o dia para a entrevista que seria depois de amanhã. Tudo pronto desligo o computador e todas as luzes, coloco meu casaco branco de volta, são quase quatro da tarde então fecho tudo e subo para o andar da biblioteca. Achei muita sorte minha ter uma biblioteca perto do trabalho, sempre posso dar uma fugida do trabalho. Com um sorriso vou olhando as vitrines e passo por uma confeitaria, faço uma nota mental de na volta passar por lá e comprar uma rosquinha e café.
Quando vejo estou entre os corredores da biblioteca, diga-se de passagem, aqui é enorme, variados gêneros de livros, um verdadeiro paraíso para leitores assíduos, na parte que tem mesas e cadeira vejo os mais variados tipos de pessoas, homens, mulheres, desde idosos ao mais jovens.
Vejo a plaquinha indicando toda uma sessão de ficção e é para ela que sigo. Vejo os mais diversos autores, mais como sempre, o nome dele me chama a atenção, mesmo tendo lido todos os livros dele e os tendo em meu quarto eu pego o meu preferido e ali mesmo em pé começo a folhear. Não sei quando tempo passa, apenas me assusto com o vibrar do meu celular em meu bolso. Escorrego pela estante de livros e me sento no chão deixando o livro sobre minhas coxas pego meu celular. Reviro os olhos para a mensagem que vejo.
Doido do estacionamento
Ainda sigo esperando sua resposta.
Com um sorriso releio a mensagem anterior.
Eu
Ok, já vi sua mensagem, não espere uma resposta.
Doido do estacionamento
Na verdade, isso foi uma resposta.
Reviro meus olhos, esse maluco, para que fui responder mesmo?
Eu
Não enche. O que quer? Pode me deixar em paz? Estou fazendo algo importante, não tenho tempo.
Doido do estacionamento
Mas eu gosto de te encher [Emojis de diabinho], e você pode parar a sua leitura por alguns minutos para falar comigo.
Levanto minha cabeça tão rápido que penso por uns segundos que ela se desprendeu do pescoço, olho ao redor, mas não vejo nada. Meu coração dispara apenas com a possibilidade de ele estar por perto, coração burro.
Eu
Onde você estar?
Doido do estacionamento
Você fica lindo de camisa rosa, combina com sua pele. Mesmo eu preferindo te ver sem esse pedaço de pano. – Mordo meus lábios para não rir.
Eu
Diga agora mesmo onde você está.
Doido do estacionamento
Mandão, gosto disso.
Eu
Max...
- Bem do seu lado. – Ele assopra em meu ouvido, fazendo que meus pelos todos se arrepiem. Meu corpo pula para o lado, se afastando dele, que me olha com um sorriso sapeca nos lábios. Ele está aqui, sentado no chão bem ao meu lado, como p***a ele se sentou aqui sem que eu o visse? – Você estava com seus olhos vidrados no celular – ele rir baixinho. – Seus olhos ainda estão arregalados. – Respiro fundo. – Então sem que eu espere seu braço passa por minhas costas, me colocando de volta ao lugar que eu estava, sinto meu estomago embrulhar, não de um modo r**m, então seu braço se vai, nossos ombros se tocando, me sinto nervoso, ele guarda o celular em seu bolso e eu olho para o meu em meu colo, desligo a tela e o guardo também, mas continuo encarando agora o livro em minhas coxas, e bem do lado se encontra as coxas grossas desse intrometido, mas elas não me tocam, apenas nossos ombros se tocando bem de leve. – Não pensei que te encontraria aqui, foi realmente o destino.
- Destino não existe. – Falo secamente e finalmente o olho nos olhos, ele sorri de lado.
- Se convença disso apenas para não dar o braço a torcer de que estamos destinados.
- Você está tentando soar como um romântico. – Seu riso divertido faz meus lábios se curvarem um sorriso sem dentes.
- Está funcionando?
- Claramente que não. – Quem eu quero enganar, certamente eu cairia sim nesse papo dele todo galanteador, mas lógico que não vou deixá-lo saber disso.
- O que está lendo? – Ele aponta para o livro em meu colo. Fecho o livro e lhe mostro a capa, suas sobrancelhas se franzem um pouco, talvez ele nunca tenha visto nenhum livro de Valério. – Gosta desse tipo de livro? – Sorrio, estou confortável, falar sobre livros me deixa mais relaxado, mesmo que seja com esse doido gostoso.
- Na verdade eu gosto desse escritor em específico. – Ele acena e pela primeira vez seus olhos se desviam dos meus primeiro, que estranho.
- Por que gosta dele? – Ele parece tímido de repente. Esse homem realmente é meio doido. Mas sorrio e ele me olha, seus olhos me analisando enquanto falo.
- Ele simplesmente é o melhor, parece que o autor usa suas próprias emoções sobre o personagem, é solitário, me identifico um pouco com ele. – Ele morde o lábio e olho diretamente para eles, Max sorri e me encara.
- Parece ser um bom livro.
- Mas que bom, é apenas a sétima maravilha do mundo. – Falo entusiasmado. Ele sorri, sua mão vem até meu cabelo e seus olhos se fixam nos meus, é uma posição estranha já que estamos lado a lado. – Impossível que você nunca tenha ouvido falar. – Falo baixinho, sua mão em meus cabelos me faz sentir estranho.
- Não, nunca ouvi, mas vou ler apenas porque você parece gostar muito. – Um sorriso gigante aparece em meus lábios.
- Não vai se arrepender.
- Espero que não. – Ele diz baixinho, sinto sua mão agora em minha nuca, quando nossos rostos ficaram tão próximos assim, estamos a centímetros um do outro.
- O que está fazendo? – Pergunto feito um i****a.
- Tenho que admitir que você é muito irresistível. – Sinto seu hálito quente, entreabro meus lábios. Eu disse que não cairia, mas p***a, um beijinho não faz m*l a ninguém né?
Pulo no lugar pelo susto quando um celular toca uma música alta, então seu rosto se afasta, assim como sua mão.
- p***a!! – Ele exclama parecendo irritado, eu respiro rápido demais pelo bem da minha saúde.
Porra, digo eu, o que eu estava prestes a fazer meu bom senhor????