Entre a zoeira e o desejo

1524 Words
Lunática narrando... O som do 150 batia no peito, mais forte que qualquer emoção que eu tentava esconder, o grave vibrava no chão, nas paredes, no coração. Luzes piscando, cheiro de cerveja misturado com perfume doce, com fumaça, com vida, o baile tava fervendo, lotado, geral sorrindo, dançando, vivendo. E eu… eu ali, tentando fingir que tava igual. Segurava meu copo na mão, uma long neck gelada, e fingia que tava tranquila, que tava suave, que tava bem, mas não tava, nem de longe... faz um mês, um mês que minha vida virou um turbilhão que nem eu, que sou furacão de natureza, consegui segurar. A dor da perda do Foca ainda tava entalada aqui, no meio do peito, queimando mais que qualquer dose que eu tivesse tomado até agora, mas foi uma escolha dele, e ele teve que arcar com a consequência... "Respira, Lunática. Mostra quem tu é”, eu repetia pra mim mesma, enquanto olhava aquele mar de gente se divertindo. Chavoso: Eita... Olha ela aí, toda pensativa, parecendo aquelas tiazinha que fica no baile só olhando os outros dançar! — Ouço aquela voz debochada, e já reviro os olhos antes mesmo de virar pro lado, Chavoso! Ele surge do nada, segurando um copo na mão, sorrindo como quem sabe que já tá enchendo meu saco. Lunática: Vai tomar no c.u, Chavoso — respondi, forçando um sorriso, mas sem muita convicção. Chavoso: Ihhh... Tá bravinha, bebê? — Ele se encosta na grade, cruzando os braços, me olhando de cima a baixo. — Qual foi? Tá com saudade do amor bandido, é? — ele sabia exatamente onde apertar, sempre soube. E fazia questão de apertar. Lunática: Tá de gracinha, né? — Cruzei os braços, segurando o riso, mas meu olhar era mais de “fala mais que tu vai ver” do que de diversão. Chavoso: Óbvio, porque se eu deixar tu aí, com essa cara de enterro no meio do baile, vai parecer que morreu alguém... — Ele para por um segundo. — Opa, peraí, morreu!. — Bateu a mão na boca, rindo. — Foi m*l, Lunática... Foi mais forte que eu. Não consegui segurar, por mais filha da p.uta que tenha sido a piada, foi tão na lata, tão absurda, que eu ri. Gargalhei, na real, gargalhei de um jeito que até uns caras que tavam perto olharam meio assustados, tipo “a doida surtou de vez”. Lunática: Tu é muito i****a, Chavoso, na moral — falei, dando um tapa no braço dele, ele riu mais ainda, se ajeitando. Chavoso: Mas tu me ama, ca.ralho, e sabe por quê? Porque eu sou o único nesse morro que tem coragem de falar a verdade na tua cara sem medo de tomar um tiro — piscou, debochado, mas ele tinha razão, ele era o único, e a Víbora, mas ela era mais neutra, e bom, era família. Lunática: Isso porque eu tô de bom humor hoje — respondi, tomando um gole da cerveja, sentindo ela descer queimando mais que o normal. — Se não, tu já tava no chão. — ele chegou mais perto, baixou um pouco o tom, mas sem perder o sorriso. Chavoso: Na moral, Lunática... Tu é braba, tu é linha de frente. Mas tu também é coração, tá ligado? E é isso que te faz ser tu, não deixa essa dor te quebrar, não. Se tem uma coisa que tu não pode esquecer... — Ele me olhou firme. — É que tu é a tempestade, p***a, tu não corre da chuva, tu faz ela cair. — Dei um sorriso de canto, balançando a cabeça. Lunática: Tu às vezes até parece que tem neurônio, acredita? — brinquei. Ele riu, me puxou pela nuca, deu aquele abraço apertado, meio bruto, meio carinhoso, do jeito que só quem é cria entende. Chavoso: Bora beber, p.orra. — Ele me soltou. — Esse baile tá no nome, e a gente tem que fazer valer. O som está estalando no último, luz piscando, geral pulando, copo pra cima, clima pesado de baile, de repente, sinto aquele cheiro de perfume amadeirado se aproximando, daquele que não tem como passar batido. Nem precisei olhar, para saber quem era... Furacão. Lunática: E então... jurei que você não iria aparecer, sabia... — falei antes mesmo dele abrir a boca, puxando um trago do meu cigarro e me virando para ele, o mesmo riu, aquele sorriso de canto que parecia proibido, e é real, eu achei que ele não ia marcar presença, mas eu estava enganada. Furacão: Cê tá ligada que eu sempre apareço... — respondeu, se escorando na grade ao meu lado. Cruzei os braços, dando risada. Lunática: É, verdade, tu sempre aparece mesmo. — ele gargalhou, segurando o copo. Furacão: Aí é resenha. — bateu o copo no meu. — Mas fala tu... Tá melhorzinha, ou ainda tá com cara de quem comeu e não gostou? — revirei os olhos. Lunática: Vai se ferrar, Furacão. — Dei um tapa no braço dele. — Tu é chato pra car.alho, na moral. Furacão: Mas tu gosta, né? — Jogou, rindo. Balancei a cabeça, rindo também, não dava pra negar que ele sabia tirar risada de mim mesmo quando eu não queria, ele era o único aliado, que tinha essa intimidade... Deu aquele gole demorado na cerveja, olhando pro movimento, depois virou pra mim com aquele olhar meio de malandro, meio de quem tava prestes a soltar gracinha. Furacão: Agora, papo reto... — Ele puxou, passando a mão na corrente grossa que brilhava no peito dele. — Se tu quiser, eu boto a Víbora no porte comigo fácil, viu? Arqueei a sobrancelha, segurando o riso. Lunática: Tá de caô, né? — Cruzei os braços, encarando ele. — Tá achando que ela precisa de porte? Ela é dona do morro, doido... — ele riu, negando com a cabeça. Furacão: Eu sei, pô, ela não precisa de nada nem de ninguém. Ela é braba, linha de frente, visão mil grau. — Levantou as mãos, como quem se rendia, e deu aquele sorriso de canto, mordendo o lábio. — Mas, assim... não é nem pela responsa não, é mais porque... né... — Me olhou, levantando a sobrancelha, malicioso. — Aquela mulher me tira do eixo, cê tá ligado. Lunática: Ahhh, pronto! — Joguei a cabeça pra trás, gargalhando. — Tu tá todo bobão, né? Apaixonado, é? Furacão: Que apaixonado! — Ele levantou as mãos, rindo. — Só acho ela... — Fez uma pausa, olhando pro baile, depois voltou pra mim. — Diferente, tá ligado? É daquele tipo que tu olha e fala: “Se eu vacilar, ela me dá um tiro. Mas se eu andar na linha, quem sabe eu ganho um sorriso”. Lunática: Tu é muito sem vergonha, Furacão, na moral. — Bati no peito dele, rindo. — Mas eu vou te falar, tu tem coragem, viu. Porque a Víbora... Ela é linha de frente, ca.ralho, e tu sabe, não acredita no amor. Ele deu aquele sorriso largo, passando a língua nos dentes. Furacão: E é isso que me deixa mais doido. — Se ajeitou, olhando de novo pro baile, depois voltou pra mim. — Eu olho pra ela e fico pensando... “Se essa mulher quisesse, botava qualquer homem no bolso”. E eu? — Deu de ombros. — Se for pra ser mais um no bolso dela, que seja, cara.lho! Lunática: Tá, tá... — Bati palminha, rindo. — Que papinho, hein. Tu quer tomar um chá de humildade. — ele gargalhou. Furacão: Ou um chá na casa dela, né... quem sabe. — Me piscou, jogando a linha da malandragem. Lunática: Se ela não te der um tiro antes... — falei, segurando o riso, ele me olhou, rindo. Furacão: Aí já valeu a pena só por ter tentado. Lunática: Cê é uma figura, Furacão. Na moral — falei, balançando a cabeça, puxando outro gole da minha cerveja. Furacão: E tu, Lunática... — Ele me olhou mais sério, mas ainda no clima da resenha. — Na moral... É bom te ver rindo, sabia? Tu tava com uma cara de quem ia matar uns três. — Suspirei, abaixando um pouco o olhar, e depois sorri. Lunática: É, a vida segue, né? — Falei, meio sem jeito. — Nem sempre como a gente quer, mas segue. — Ele me bateu no ombro, de leve. Furacão: E cê sabe, né... Se precisar, tô por aqui. No baile, no morro, no corre, na vida. — Me olhou firme. — E outra... — Abriu aquele sorriso maroto. — Se quiser, eu te empresto a corrente... Dizem que dá sorte, ou pelo menos dá uns olhares a mais. — caí na risada de novo. Lunática: Some daqui, Furacão, vai caçar tua Víbora, que tu tá muito soltinho pro meu gosto. — Dei aquele tapa no braço dele. Ele riu, jogou aquele sorrisão de lado e se afastou, andando no meio da pista, onde geral já olhava ele como se fosse estrela de cinema, fiquei ali, sorrindo sozinha, balançando a cabeça, pensando que... Talvez a vida ainda reserve umas surpresas boas, no meio desse caos todo, e o baile? Ah, o baile seguia estourado.
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