Sorriso na boca, Fuzil na mão

1333 Words
Víbora narrando... A vida no morro nunca para, aqui, a gente não tem luxo de tirar férias, de abaixar a guarda ou de esquecer quem somos. Passou-se um mês desde aquele episódio pesado da Alícia, e, se tem uma coisa que eu aprendi comandando esse corre, é que o mundo não espera você se curar. O dinheiro precisa girar, a segurança precisa ser mantida, e a favela precisa sorrir, nem que seja fingindo, nem que seja dançando no meio do caos, o morro tá calmo... pelo menos, aparentemente, a boca bate, o vapor corre, os aviões sobem e descem. Tem dia que dá até pra pensar que a paz é real, mas eu sei que é só o intervalo entre uma guerra e outra. Os papos de milícia continuam rolando, as tretas estão numa linha tênue, e a cidade tá fervendo de operação da civil, mas a gente se mantém de pé, porque aqui é nosso, e quem manda sou eu... Só que, mesmo no meio desse jogo sujo, tem uma coisa que eu nunca deixei de fazer, cuidar dos meus. E quando eu digo "meus", não é só os soldados, não, é o povo, a comunidade, as cria, as veias que vende empada na porta de casa, as mulher que batalha na faxina e volta com sorriso no rosto. O morro é mais do que fuzil, é mais do que corre, omorro é vida. E é por isso que eu tô aqui, sentada na laje da minha casa, olhando a favela acordando, enquanto trago um cigarro e penso, a fumaça sobe, se mistura com o cheiro do café que alguém acabou de coar na casa vizinha, a cidade grande lá embaixo nem imagina o que rola aqui em cima, ou talvez imagine, mas finge que não vê. Lunática: Tá pensativa, hein? — ouvi uma voz atrás de mim, nem precisei olhar, é ela, a minha irmã, a minha metade. Víbora: Só ajeitando os pensamentos, — respondi, batendo a cinza no chão —. Tá na hora de dar uma movimentada nas coisas. Ela se sentou do meu lado, o olhar dela... tá diferente. Mais fechado, mais frio, desde aquele dia... ela mudou, eu sei, ela sabe, a favela inteira percebeu. Só que ninguém fala, porque ninguém é doido de falar. Ficamos em silêncio por uns segundos, só ouvindo o som da favela acordando, criança correndo, funk baixinho tocando em alguma caixa, mulher brigando com filho pra ir pra escola. Víbora: Sabe o que eu tava pensando? — falei, quebrando o silêncio. Lunática: O quê? — perguntou prestando atenção em mim. Víbora: Tá tudo muito morto, mano, a boca tá fluindo, o dinheiro tá vindo, mas a energia da quebrada... tá pra baixo. Tá todo mundo andando meio cabisbaixo, meio no automático. — Ela puxou uma tragada longa, soltou a fumaça devagar. Lunática: E o que tu quer fazer? — perguntou, olhando o horizonte, sorri de canto. Víbora: Um baile. — ela me olhou de lado, arqueando a sobrancelha. Lunática: Tu tá falando sério? Víbora: Tô, um baile grande. De responsa, com segurança dobrada, com os menor na contenção, bebida rolando, som estourando... Favela precisa lembrar quem é que manda, precisa sorrir, precisa viver. Alícia ficou alguns segundos em silêncio, olhando pra frente, meio séria, como quem calculava riscos, pensava no que poderia dar errado... até que respirou fundo e balançou a cabeça. Lunática: Tá, bora. — respondeu. — A quebrada merece mesmo. Víbora: É isso. — Falei, batendo na perna dela. — Bora fazer acontecer. Quando a gente quer, não tem quem segure. Em dois dias, a favela inteira já sabia, “Vai ter baile no morro, e é dos brabo.”. Os aliados foram avisados, a contenção foi reforçada, dobrei o número de olheiros nas vielas, botei mais segurança na entrada principal, drone sobrevoando o tempo todo, minguém ia entrar aqui sem minha permissão. Ninguém. O palco foi montado no centro do campo, com iluminação, fumaça, DJ de responsa e som batendo tão forte que dava pra sentir no peito, as caixas de cerveja, whisky e energético chegaram antes do meio-dia, as barraquinhas de churrasco, pastel, cachorro-quente... tudo funcionando no gás. A favela respirava outro clima, era como se, por uma noite, todo mundo esquecesse dos boletos, das sirenes da polícia, dos barulhos de tiro. Quando a noite caiu... esquece. O morro tava diferente, às luzes piscando refletiam nas paredes, no sorriso das pessoas, no brilho do ouro dos pescoços, as minas desfilando com vestido colado, salto, cabelo na régua, os cria de Nike, Lacoste, cordão pesado e copo na mão, no meio da pista, o som batia... "Ela senta, ela quica, ela joga a raba, ela é braba..." Eu e Alícia chegamos juntas, entramos pela lateral, subindo pro camarote. As pessoas abriam caminho, cumprimentavam, olhavam com respeito, o povo sabia quem éramos, e sabiam que, se aquele baile tava acontecendo, era porque a gente mandava aqui, subimos pro camarote, que ficava bem no canto, com visão total da pista, encostamos na grade, olhando tudo. Víbora: Fala tu, irmã... — sorri, brindando com ela —. Isso aqui é nosso. — ela brindou comigo, sorrindo de canto. Lunática: Nosso, e de mais ninguém. Enquanto trocávamos ideia, vi chegando um dos nossos aliados, Furacão, dono do morro vizinho, parceiro de anos, cara de visão, sangue frio, mas correto. Subiu pro camarote escoltado pelos dele, olhou pra mim e abriu um sorrisão. Furacão: Eita, se não é a patroa da favela! — disse, me abraçando forte. — Tá bonita, hein! Víbora: Tu que não fica feio, né, safado — brinquei, batendo nas costas dele. Ele cumprimentou a Alícia, que sorriu de canto, mais séria, mas apertou a mão dele. Furacão: Cês tão voando, hein, morro tá bonito, baile tá lindo... — ele comentou, olhando a pista —. E eu que pensei que depois daquele corre do mês passado vocês iam dar uma segurada... — Alícia olhou pra ele, séria, mas ela sabe que às notícias correm, ainda mais essas. Lunática: Aqui a gente não abaixa a cabeça nunca, Furacão. Pode cair o mundo, a gente levanta, limpa o sangue e segue. Furacão: É isso, p***a — ele concordou, batendo palma. — É disso que eu tô falando. Nos sentamos no sofá do camarote, os copos enchendo, o som estourando no fundo, Furacão se inclinou pra frente, com aquele olhar de quem ia soltar papo reto. Víbora: Fala, irmão. — perguntei, cruzando as pernas. Furacão: Então... vim aqui pra curtir, claro. Mas também pra trocar uma ideia séria — ele começou. — Tô sabendo que o Peixe tá se mexendo, recebi informação de que ele tá tentando fechar com uns polícia lá da Zona Oeste. Tá querendo arrumar problema... talvez não diretamente com vocês agora, mas tá montando coisa grande. Meu olhar ficou frio, Alícia apertou o copo com força. Lunática: Peixe é verme — ela falou, seca. — E verme a gente pisa. Furacão: Concordo — ele respondeu —. Mas se ele fecha com milícia... o jogo muda, Víbora, aí não é só entre nós, aí vira guerra civil. Suspirei fundo, olhando pra pista, pro povo dançando, sorrindo, bebendo... sem saber que, por trás da música, da luz e da alegria, o jogo nunca para. Víbora: E tu? — perguntei — Tá dentro, se der merda? — Furacão sorriu, bebendo. Furacão: Tô contigo até o final, patroa. Cês são minha família. — apertei a mão dele. Víbora: Então é isso, hoje a gente dança... amanhã a gente derruba quem tiver que derrubar. — Alícia sorriu de canto, olhando pra pista. Lunática: A vida é isso aí, sorriso na boca, fuzil na mão. Víbora: E sangue no caminho, se for preciso — completei. O som aumentou, as luzes piscaram mais forte. E, por aquela noite, a favela viveu, sorriu, dançou... Sem saber que, logo, o sangue ia voltar a pintar o chão. Porque aqui... aqui é nosso mundo, nosso corre, é a nossa lei, e quem tentar derrubar... vai cair primeiro.
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