Lunática narrando...
A luz da salinha tremeluzia como se também estivesse com medo do que estava para acontecer, o cheiro de mofo, suor e sangue velho tomava o lugar, não era a primeira vez que aquele cômodo via horrores, mas talvez fosse a primeira vez que veria algo nascido do amor traído.
Eles estavam ali, amarrados, suados, sujos e com medo, Foca ainda sangrava dos tiros que eu dei nos pés dele, Mariele tentava não tremer, mas seus olhos não mentiam, a dor dela não era física, era o pânico do desconhecido, já o dele… ah, esse estava suando medo puro, eu entrei devagar, saboreando cada passo, o barulho dos meus passos batendo no chão criavam um eco que cortava o ar. Na minha mão, uma faca de caça bem afiada, presente do Rato tempos atrás, nunca precisei usar, até agora.
Lunática: Boa noite, casalzinho — falei com um sorriso torto, o tom cantado e debochado. — Dormiram bem? Aposto que a cama da Mariele era mais confortável que essa cadeira, né? — Foca gemeu, tentando se ajeitar, a camisa suada colava no peito dele, e os olhos me seguiam como se estivessem procurando alguma parte de mim que ainda o amava. Coitado.
Foca: Alícia, por favor... — ele começou, levantei a mão e o silêncio caiu como um soco.
Lunática: Já falei que meu nome é Lunática — sibilei. — A Alícia morreu naquela casinha, enquanto ouvia os gemidos de vocês dois.
Aproximei-me dele primeiro e me agachei, ficando cara a cara com o homem que jurou me amar, o homem que eu amei com tudo que eu era, passei a faca levemente pelo rosto dele, não pra cortar, só pra sentir o tremor.
Lunática: Tu sabe o que me destruiu? Não foi te ver com ela, não foi o som dela gemendo teu nome, tu chamando ela de amor... — dei uma risada seca. — Foi perceber que tu sabia que eu te mataria se fizesse isso, e mesmo assim fez.
Ele arregalou os olhos, sem resposta, tentei buscar uma gota de arrependimento real, mas tudo que vi foi desespero, um desespero egoísta, me levantei e virei para Mariele, ela chorava, os lábios tremendo.
Mariele: Eu... — ela não conseguia achar às palavras para o que queria dizer. — não sabia que vocês ainda estavam juntos — ela disse, me fazendo rir.
Lunática: Jura? — Falei me aproximando. — Você me chama de "Lunática" e acha que eu não vou descobrir uma traição no meu próprio morro? — dei um tapa forte no rosto dela. — Tu sabia, sua va.dia, e mesmo assim abriu as pernas. — peguei um pedaço de pano sujo e enrolei nos olhos dela.
Mariele: O que você vai fazer? — ela gritou, desesperada!
Lunática: Vou te dar um presentinho, já que tu gosta de fod.er homem dos outros — falei no ouvido dela. — Agora tu vai ter que aprender a viver no escuro. — peguei uma colher metálica velha, já enferrujada, e sem aviso, enfiei no olho esquerdo dela, o grito foi ensurdecedor.
Foca começou a se debater, gritando por ela, implorando pra eu parar, mas a colher já estava suja de sangue e gelatina ocular. O segundo olho eu deixei intacto, por enquanto, Mariele tremia, vomitou ali mesmo na cadeira. E eu respirei fundo, sentindo o gosto metálico no ar, era isso que ela merecia? Talvez fosse pouco, voltei pra frente do Foca.
Lunática: Tu ainda acha que me ama, Foca?
Foca: Eu... eu juro por Deus, foi um erro! — ele chorava. — Eu tava fraco, confuso, ela se jogou pra cima de mim...
Lunática: “Ela se jogou”, claro — falei, rindo, segurando o queixo dele. — Eu me joguei por ti por meses, p.orra, me entreguei de corpo, alma e pistola. Tu teve tudo de mim e jogou fora, e agora quer bancar o arrependido?
Dei uma cotovelada no nariz dele, que estalou no mesmo instante, ele berrou, sangue escorrendo. Abaixei a cabeça, fiquei de costas, respirei fundo, o meu coração não tava vazio, estava fervendo, era como se algo gritasse dentro de mim, uma dor que queimava mais do que a raiva. E eu entendi, ali, no silêncio entre os gemidos deles: eu ainda amava aquele desgraçado, e era por isso que ele precisava morrer.
Lunática: Tu teve a minha versão mais doce, Foca — falei, voltando a encará-lo. — Agora tu vai conhecer a parte de mim que eu dificilmente mostro para os outros. — Ajoelhei e cravei a faca na coxa dele, o mesmo gritou, e eu sorri, e cortei com força, outro grito dele, e Mariele chorava, cega, chamando pelo nome de alguém que já não podia ajudá-la, peguei a minha arma e mirei nos dois. — Sabe o que é engraçado? — falei. — Se eu fosse como a Víbora eu já tinha metido bala logo no início, ou não, às vezes ela prefere torturar, mas enfim, eu quis te olhar nos olhos, Foca, quis ver o medo crescendo... e agora eu já vi.
Sem hesitar, atirei no peito da Mariele, uma, duas, três vezes. A cabeça dela pendeu, o sangue espirrou na parede suja, Foca gritou como um animal ferido.
Foca: AAAAAH! NÃO! NÃO! — ele disse, desesperado.
Lunática: Agora só falta você — disse em tom baixo, fria como nunca. — Te deixei por último pra você sentir tudo, cada segundo. — falei sorrindo. — Pensa positivo, poderia ser pior, poderia ser dias de tortura, mas eu ainda vou ser gentil e acabar logo com isso.
Ele chorava e falava coisas sem nexo, me ajoelhei ao lado dele, com um sorriso nos lábios, passei a mão no seu rosto, fazendo com que ele me olhasse nos olhos.
Lunática: Adeus, Júnior — sussurrei, e atirei no coração.
O silêncio se fez presente, enquanto o sangue escorria devagar, como se até ele tivesse pena de sair dali, eu fiquei parada, encarando os corpos. Não senti alívio, não senti culpa. Apenas senti um buraco fundo e escuro dentro de mim, a dor veio com tudo, e eu caí, sentada ao lado dele, às lágrimas escorreram pelo meu rosto.
Lunática: Escolhas erradas, poderia ter sido tudo diferente. — digo e baixo a cabeça, mas logo escuto a salinha se abrir e vejo a minha irmã, que vem até mim e me abraça.
Víbora: Vai ficar tudo bem, meu amor! — ela fala me abraçando com mais força... Mas eu sei que com ela ao meu lado, eu vou superar tudo!
Um mês depois...
O sol ainda nascia sobre o morro, mas a luz não alcançava mais o mesmo canto dentro de mim. A boca seguia firme, o corre estava limpo, a grana entrando como sempre, mas eu... ah, eu já não era a mesma.
Fiquei mais calada, mais observadora. Os meninos me respeitavam como nunca, até demais, era como se todos soubessem o que aconteceu na salinha, mesmo sem ninguém dizer uma palavra.
A Víbora tentou conversar, algumas vezes, me levou uma garrafa de vinho, falou sobre ir pra praia, respirar. Eu só sorri de canto, agradeci... mas recusei.
Voltei a dormir pouco, as minhas noites eram feitas de silêncio e cigarros. Ouvia os gritos da Mariele nos meus pesadelos, e às vezes, o choro do Foca, mas eu acordava, acendia outro cigarro, e lembrava que eles escolheram o destino deles.
Eu estava na minha, mas eu não ia deixar aqueles dois tirarem a minha essência, eu sempre fui o oposto da minha irmã, os moradores não tinham culpa dos erros dos dois... Estava sentada na laje, observando a favela toda, esse lugar é lindo.
Chavoso: Tá viva, Lunática? — o mesmo perguntou se aproximando.
Lunática: Só por fora — respondi sem olhar.
Ele não insistiu, sentou ao meu lado, ficou em silêncio, aquilo foi mais conforto do que qualquer palavra, percebi que, de alguma forma, a casca que eu criei agora era meu novo escudo. A Lunática virou lenda no morro, e Alícia... bom, ela ficou enterrada naquela salinha junto com os dois.
Mas o coração? O coração ainda batia, talvez, um dia, eu permitisse que ele amasse de novo, mas não hoje... hoje eu sou tempestade. E ninguém sobrevive a mim.