A ira tem nome

1386 Words
Foca narrando... Quando escutei a voz da Alicia, o meu coração tremeu, ali eu sabia que eu estava perdido, mas... eu ia tentar fazer ela não me matar, nem matar a Mariele, quando ela mandou a gente sair, eu meti marcha correndo, a Mariele estava desesperada chorando, ela não conseguia acreditar que a Lunática tinha nos liberado, e eu também não, eu sabia muito bem como a Lunática era, e ela adorava caçar. Foca: Corre na sua casa e arruma uma mochila, agora! Precisamos ir embora. Mariele: como assim? — ela pergunta e eu paro na rua segurando ela. Foca: A Alícia não é do tipo que libera a gente, então anda, precisamos sair do Morro. — ela apenas concordou e saiu correndo, e eu fiz o mesmo, arrumei a minha mochila e depois fui correndo para a casa dela. — Pronto, vamos logo. — eu digo e ela confirma, quando estávamos saindo na rua, batemos de frente com a Lunática, com o sorriso macabro olhando em nossa direção. A dor na perna ainda ardia feito fogo quando o Chavoso nos arrastou morro acima, eu mancava, cada passo doía mais que o anterior, mas não ousei reclamar, a Alícia... não, a Lunática, tinha me olhado como se já tivesse me enterrado dez vezes, e talvez tivesse mesmo. Mariele chorava baixinho ao meu lado, eu nem conseguia encarar ela, não era só a culpa, era o medo, a vergonha, a certeza de que eu tinha cruzado uma linha da qual não dava pra voltar, e o pior? Eu sabia, eu sabia desde o começo que não devia, a Alícia era mais do que só uma mulher braba do morro, era a p***a de uma das almas desse lugar. Ela era respeito, era caos e era amor. Um amor que eu destruí. A salinha era uma casinha abandonada na parte baixa do morro, janelas tapadas, porta reforçada, chão frio e cheiro de mofo, era onde levamos os X9, os traíras e os que davam mole grande. Era onde gente como eu terminava, mas eu achei que nunca ia parar aqui. Chavoso nos jogou lá dentro, trancou a porta e avisou que ia ficar na contenção do lado de fora. Eu me sentei no canto, ofegante, pressionando o ferimento na perna, sangrava mais do que devia, a bala tinha atravessado feio, Mariele tremia no outro canto, sentada no chão, com os braços em volta do próprio corpo. Foca: A gente vai sair dessa — falei, a voz baixa. Ela levantou os olhos pra mim, cheios de desespero. Mariele: Vai? Tu tem certeza disso, Foca? Porque a Lunática ela tava com um olhar que eu nunca vi em ninguém. — Suspirei, encostando a cabeça na parede. Foca: Eu vou tentar falar com ela, convencer... sei lá. Dizer que não foi por m*l, que eu... Mariele: Que tu o quê, Foca? — ela me cortou, se aproximando. — Vai dizer que não sabia que ia destruir ela? Que ela não era o tipo de mina que se entrega de corpo e alma? Tu esquece quem é a Alícia, p***a. Ela é a Lunática, ela tá fora de si, ela vai acabar com a gente. Engoli seco, eu sabia, lá no fundo, eu sabia que a Mariele tinha razão. Mas tinha uma parte de mim que ainda queria acreditar que dava pra consertar, que bastava uma explicação, uma chance, uma última conversa, que talvez, se ela olhasse nos meus olhos, ela lembrasse de tudo que a gente viveu e do quanto ela me amava. Ficamos em silêncio por um tempo, o tempo parecia escoar devagar ali dentro, como se cada minuto fosse uma tortura nova. Eu comecei a sentir o cheiro do próprio sangue, e a dor só aumentava, não sabia quanto tempo se passou, mas o céu lá fora escureceu. A salinha ficou ainda mais sombria, e foi quando eu ouvi, a porta rangindo, passos lentos e firmes, o som do salto batendo no chão, e então, ela apareceu. Alícia, ou melhor, a Lunática. Ela entrou como se estivesse indo a um baile, sorriso nos lábios, os olhos brilhando com uma fúria que parecia quase divertida, o cabelo preso num coque desleixado, o batom borrado só aumentava a sensação de loucura, ela segurava a arma como quem segura uma flor, com leveza, mas deixando bem claro que sabia o poder que tinha nas mãos. Lunática: Olha só, os meus pombinhos. — A voz dela cortou o ar como uma lâmina. Mariele choramingou mais alto e eu tentei me levantar, apoiando no que restava da minha força, mesmo com a perna gritando de dor. Foca: Alícia... — comecei, a voz falha. — Me escuta, por favor, eu sei que eu errei, eu sei que nada do que eu disser vai apagar o que você viu, mas... — Ela ergueu a mão, mandando eu calar a boca, e eu calei. Lunática: Você sabe, Foca... eu pensei muito no que faria se um dia alguém me traísse. — Ela começou a andar em círculos na sala, encarando ora a mim, ora a Mariele. — Porque, veja bem, eu sou o tipo de pessoa que quando ama, ama de verdade, e quando odeia... — ela deu uma risada baixa. — Quando odeia, não sobra nem pó. Foca: Eu nunca quis te machucar — arrisquei dizer, a voz trêmula. Ela se virou na minha direção, devagar, como uma serpente prestes a dar o bote. Lunática: Você me traiu, Foca, e o pior? Me traiu com a marmita da quebrada. Você realmente achou que ninguém ia ver? Que ninguém ia contar? Que você ia sair daqui andando de mão dada com ela e eu ia aceitar? — Mariele tentou falar algo, mas Alícia apontou a arma direto pra ela. — Se você abrir essa boca mais uma vez, eu juro que não vai ser só o pé do Foca que vai virar peneira. — O olhar dela era puro veneno. Eu travei, o meu coração parecia um tambor na minha cabeça, ela voltou os olhos pra mim, e antes que eu conseguisse dizer qualquer outra coisa, ela mirou pra baixo. Lunático: Sabe qual é o problema do homem que pensa com a cabeça errada? — ela disse, e logo o tiro ecoou na salinha como um trovão, a bala acertou meu outro pé, a dor foi tão absurda que eu gritei, caí no chão, me debatendo, sentindo o calor do sangue escorrer por dentro do tênis, a visão embaçou. Foca: AH, CAR.ALHO! — gritei, a dor era surreal. Ela se aproximou, agachou ao meu lado, me olhando nos olhos com aquele sorriso que não combinava com a cena, parecia feliz, satisfeita. Lunática: Agora sim, tá mais equilibrado — ela sussurrou. — Um pé pra cada mentira. Mariele chorava descontroladamente, eu só conseguia tremer, a dor era demais, eu tentei dizer algo, qualquer coisa, mas a Alícia colocou um dedo sobre os meus lábios. Lunática: Shhh... agora não é hora de falar, agora é hora de escutar, escutar o som da consequência. — Ela se levantou, limpou as mãos como se tivesse acabado de terminar um trabalho qualquer. Mariele: Alícia, pelo amor de Deus — a mesma implorava. — Não mata a gente... Ela se virou pra ela e sorriu de novo. Lunática: Primeiro, é Lunática, não me façam repetir... Segundo, eu ainda não decidi, talvez eu só corte a língua de vocês dois e mande viverem juntos sem poder mentir nunca mais, ou talvez eu jogue vocês da pedreira. É... ia ser poético. — Ela girou a arma no dedo, como se estivesse brincando. — Mas por enquanto, vocês vão ficar aqui pensando... pensando em como eu era doce, em como eu confiava, em como eu amava. — Ela foi até a porta, mas antes de sair, parou. — A dor no pé é só o começo. A dor na alma... essa vai durar mais. E saiu dali, a porta bateu com tudo, ficamos em silêncio por longos segundos, eu estava no chão, arfando, suando frio, tentando entender onde, como e por que tudo tinha desandado tão rápido, Mariele estava imóvel, com os olhos perdidos, as mãos sujas do meu sangue, eu achava que conhecia a Alícia. Mas eu tinha esquecido de um detalhe importante, ela era a Lunática, e eu tinha feito ela perder o juízo.
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