Luísa narrando...
O sol estava forte naquela tarde, e o movimento na boca não dava trégua, era mais um dia puxado, como todos os outros. Eu estava organizando as entregas, contando as remessas que chegaram, e garantindo que nada saísse do controle. O Jura estava parado na entrada, atento, enquanto os vapores se movimentavam de um lado para o outro.
Eu costumava gostar dessa rotina, o controle sobre tudo me dava uma sensação de poder, de segurança. Ninguém mexia com o que era meu, e eu fazia questão de deixar isso bem claro, mesmo assim, havia dias em que a tensão parecia dobrada, e hoje foi um desses dias.
Alicia estava encostada no balcão improvisado, os olhos brilhando enquanto fazia graça com um dos meninos, ela sempre parecia estar em um mundo à parte, onde tudo era leve e divertido, às vezes eu me perguntava como ela conseguia manter aquele sorriso.
Luísa: Jura, avisa pro Digo que se ele vacilar com o carregamento de novo, eu mesma vou atrás dele. — falei, e o menino assentiu rapidamente, ciente de que eu não estava brincando.
Suspirei e voltei minha atenção para Alicia, que ainda ria de alguma piada boba que o Moleque tinha feito. Eu dei um meio sorriso ao vê-la tão descontraída, ela sempre foi assim, o lado leve do caos que vivíamos. Talvez fosse isso que fazia a gente funcionar tão bem juntas, onde eu era pedra, ela era flor, onde eu intimidava, ela acolhia.
Alícia: Você acha que a gente devia trocar o fornecedor da maconha? — ela perguntou do nada, entrando na sala comigo, revirei os olhos.
Luísa: Os caras tão atrasando demais, Li. Já falei com o Digo, se der outro vacilo, vamos testar os moleques que iniciaram recentemente. — respondi, tentando não transparecer o cansaço.
Alícia: Digo é bom de serviço, só tá enrolado com aquele irmão dele doente. Mas tá certo, a gente precisa manter a qualidade. — ela comentou, dando de ombros.
O celular dela vibrou, e eu nem dei muita atenção, até perceber que o rosto da Alicia ficou pálido de repente, ela ficou estática, como se estivesse processando alguma coisa.
Luísa: Que foi? — perguntei, já desconfiada.
Ela virou a tela para mim, e a mensagem estava lá "Rua da Biquinha, casa 12. O Foca tá lá com a Mariele."
Franzi o cenho, tentando digerir a informação. A primeira reação foi de descrença, Foca? Traindo a Alicia? Não fazia sentido.
Alícia: Isso não faz sentido... — ela sussurrou, mais para si mesma do que para mim.
Eu sabia que ela estava tentando encontrar uma desculpa, um motivo para aquilo ser mentira, mas Alicia não era boba, e eu também não. O sangue dela ferveu rapidamente, mas ela estava tentando manter o controle.
Luísa: Tem certeza que essa mensagem é pra você? — perguntei, querendo testar todas as possibilidades.
Alícia: É meu número... É o Foca, meu namorado, se não é para mim, seria para quem? — ela respondeu, e eu percebi que a dor já estava começando a se transformar em raiva.
Luísa: Só tem um jeito de descobrir, vamos até lá. — falei, tentando manter a calma.
Alicia hesitou por um segundo, mas logo ajeitou o cabelo, tentando disfarçar o nervosismo, fomos até a moto, e eu conduzi o trajeto com o coração pesado. Era difícil imaginar minha irmã passando por algo assim. ela sempre deu tanto de si... Sempre se jogou de cabeça nas coisas.
Chegamos à rua da Biquinha e deixamos a moto afastada, o silêncio da rua contrastava com o barulho que eu sabia que estava dentro da cabeça dela, quando nos aproximamos, os gemidos ficaram audíveis, e Alicia parou de repente, como se tivesse sido atingida por uma bala.
Toquei seu ombro, tentando passar alguma segurança.
Luísa: Estou aqui. — falei baixinho.
Alicia respirou fundo e empurrou a porta. A cena foi um soco no estômago, Foca e Mariele estavam ali, tão alheios que nem notaram nossa presença de imediato. Quando perceberam, pularam da cama feito dois idiotas pegos no flagra.
Minha vontade imediata era pegar a glock e meter bala nos dois, aquele desgraçado... Eu sabia que ele não era confiável, mas me mantive ao lado da Alicia, esperando para ver o que ela faria.
Quando ela explodiu, eu não tentei contê-la. Se ela quisesse esfolar os dois ali mesmo, eu ajudaria a limpar a bagunça depois. Só fiquei observando, vendo como ela os mandou embora com aquela calma fingida, como se estivesse apenas aguardando o momento certo para atacar. Quando eles saíram correndo, dei uma risada baixa, mas desacreditada.
Luísa: Não deixa ele te quebrar, Alicia... — digo em forma de conforto. — Você é mais forte que isso.
Quando ela deu aquele sorriso doido dela, eu já entendi tudo, ela meteu o pé dali, indo atrás deles e eu só dei risada indo para a boca... Depois de um tempo, ela apareceu, como se nada tivesse acontecido, a mesma me olhou e deu um leve sorriso.
Alícia: Não sou tão burra assim, Lu. — ela respondeu. — Não precisa sentir pena de mim.
Luísa: Ah, eu esqueço que você é maluca... você só queria caçar. — conclui, e ela confirmou com um aceno.
Alícia: Não é atoa que eu sou conhecida como Lunática, amor... — ela disse, os olhos brilhando com aquele misto de dor e raiva.
Luísa: Você realmente é louca, Li. — comentei, balançando a cabeça e rindo com a mesma. Alicia deu de ombros e, com um sorriso frio, completou...
Alícia: Eles pensam que eu sou só a boazinha... Mas agora vão conhecer a verdadeira Lunática, eu avisei para o Foca não brincar comigo, mas ele quis pagar pra ver. Agora, não tem mais Alicia sorridente. Acabou a boazinha.
Olhei para minha irmã e senti um arrepio, era como se a dor tivesse feito ela mudar num piscar de olhos. Sempre soube que, por trás daquele sorriso doce, existia uma fera adormecida. E hoje, o Foca acordou o pior lado dela.
Deixei que ela tomasse as rédeas da situação, essa era a Alicia em sua forma mais pura, um furacão que, quando se desprende, não deixa nada intacto. Ela não ia descansar até fazer os dois entenderem que ninguém brinca com o coração da Lunática.
Enquanto ela se afastava, não pude evitar um sorriso. Minha irmã tinha sido forte o suficiente para segurar a explosão inicial, mas agora, quem estava na mira, que se preparasse. Quando Alicia decidia cobrar, ela cobrava com juros e correção.