Alícia narrando...
A tarde estava tranquila na boca, e o movimento, mesmo constante, parecia mais leve hoje, eu estava encostada no balcão improvisado, observando a galera circular, os vapores passando os pinos e as notas trocando de mão. A luz do sol batia direto no rosto da Luísa, e ela estava séria como sempre, discutindo com um dos meninos sobre as novas ordens que ela havia dado.
Dei um sorriso de lado, admirando a postura dela. Minha irmã era uma fortaleza, sempre firme, sempre imponente, eu, por outro lado, nunca consegui ser assim. Onde ela era gelo, eu era calor, onde ela intimidava, eu fazia piada. Mas talvez fosse isso que fazia a gente funcionar tão bem juntas, ela era o muro e eu era a janela.
Alícia: Você acha que a gente devia trocar o fornecedor da maconha? — perguntei, quebrando o silêncio entre nós, logo após entrarmos na sala dela. Luísa bufou e me olhou de canto, com aquele olhar que dizia “não começa”.
Luísa: Os caras tão atrasando demais, Li. Já falei com o Digo, se der outro vacilo, vamos testar os moleques que iniciaram recentemente. — A voz dela era firme, mas eu percebia que ela também estava cansada.
Alícia: Digo é bom de serviço, só tá enrolado com aquele irmão dele doente. Mas tá certo, a gente precisa manter a qualidade. — Respondi, dando de ombros.
O celular vibrou no bolso da minha calça, e eu, distraída, peguei o aparelho. Um número desconhecido, franzi o cenho e destravei a tela.
"Rua da Biquinha, casa 12. O Foca tá lá com a Mariele."
Senti o sangue gelar, li e reli a mensagem umas três vezes, como se fosse algum tipo de pegadinha de mau gosto. Luísa percebeu que eu fiquei quieta e arqueou a sobrancelha.
Luísa: Que foi? — perguntou, já desconfiada... Respirei fundo e mostrei a mensagem para ela, a mesma leu rapidamente e apertou os lábios numa linha fina.
Alícia: Isso não faz sentido... — falei baixo, sentindo meu coração acelerar. — Ele tava aqui mais cedo, falou que ia resolver um negócio lá no Campo Grande.
Luísa analisou meu rosto, procurando alguma reação que ela conhecia. Só que eu não sabia o que sentir, Foca sempre foi um cara tranquilo, direto, não era capaz de fazer besteira, ele sabia que eu não perdoaria uma traição.
Luísa: Tem certeza que essa mensagem é pra você? — a mesma perguntou, mais por hábito de questionar tudo do que por dúvida real.
Alícia: É meu número... — falei, ainda sem acreditar. — É o Foca, meu namorado, se não é para mim, seria para quem? — ela deu de ombros e guardou o celular.
Luísa: Só tem um jeito de descobrir, vamos até lá.
Eu hesitei por um segundo, a minha mente rodava, tentando encontrar uma desculpa, uma justificativa. Talvez fosse um m*l-entendido, talvez ele estivesse ajudando a Mariele com alguma coisa, mas lá no fundo, uma pontada de raiva começou a se formar.
Alícia: Eu confio nele, Lu... — minha voz saiu baixa.
Luísa: Eu sei — ela respondeu, mas sua expressão estava impassível. — Mas se a gente não for, você vai ficar com essa dúvida na cabeça.
Concordei com um aceno rápido e ajeitei o cabelo, tentando manter a calma. Caminhamos em silêncio até a moto, e eu subi na garupa enquanto Luísa pilotava. O vento frio cortava meu rosto, mas eu não conseguia sentir nada além do nó que se formava no meu estômago.
O trajeto foi curto, mas pareceu uma eternidade, cada segundo aumentava meu nervosismo, Luísa não disse nada o caminho inteiro, talvez porque soubesse que nada que ela falasse mudaria o que eu estava sentindo.
Chegamos à rua da Biquinha e deixamos a moto mais afastada, para não chamar atenção. A casa 12 era uma das casinhas que os vapores usavam para se encontrar com as marmitas, lugar discreto... Me aproximei devagar, sem saber ao certo o que faria se visse alguma coisa.
Antes mesmo de chegar à porta, eu ouvi, os gemidos baixos, abafados pelas paredes finas, mas inconfundíveis. Eu parei na hora, as pernas pesadas, o peito queimando.
Alícia: Não pode ser... — sussurrei, a voz embargada. Luísa se aproximou e tocou meu ombro com delicadeza.
Luísa: Estou aqui. — disse baixinho.
Eu queria me convencer de que estava imaginando coisas, que talvez não fosse ele. Mas quando empurrei a porta, vi os dois. Foca e Mariele, entrelaçados na cama improvisada, tão alheios a tudo que nem perceberam quando eu entrei
Mariele: Ahh, isso Junior, não para, me f.ode com força, amor! — O meu coração acelerou ainda mais, Junior, ela sabia o nome dele, ela o chamou de amor...
Foca: Oh, minha gostosa! — ele falou, apertando o corpo dela, aquela cena, eu não sabia se rasgava o meu peito ou me dava ânsia.
A dor bateu primeiro, como um soco no estômago. E depois veio a fúria, uma fúria que começou na ponta dos pés e explodiu no meu peito.
Alícia: FILHO DA PUT.A! — gritei, e os dois se separaram num pulo, com os olhos arregalados. Foca tentou se cobrir, os olhos desesperados.
Foca: Alicia... não é o que parece... — ele disse.
Mariele: Nós podemos explicar, Lunática.
Mariele puxava as roupas, gaguejando alguma desculpa, mas eu nem ouvia mais. Dei dois passos para dentro e joguei o primeiro objeto que encontrei contra ele, um copo que estourou na parede ao lado.
Alícia: VOCÊ TÁ ME TRAINDO, SEU MERDA? — eu cuspi as palavras, sentindo as lágrimas quentes descerem pelo rosto. Ele tentou se levantar, mas Luísa entrou na frente, segurando meu braço antes que eu avançasse nele. — Eu te amava, seu desgraçado! — gritei de novo, sentindo meu corpo tremer.
Ele começou a falar, tentando se explicar, mas eu não queria ouvir, não queria que ele dissesse nada, porque nada ia mudar o fato de que ele tinha me traído. A Mariele já estava de pé, recolhendo as roupas, enquanto Luísa mantinha uma mão firme no meu ombro.
Luísa: Acho que vocês esqueceram o que acontece aqui no Morro com talaricagem e traição, né? — a mesma fala se aproximando e eles arregalam os olhos.
Foca: Alícia, por favor, vamos conversar. — ele fala se aproximando e eu dou uma risada, ele hesitou, parando e me olhando.
Alícia: Vocês tem dois minutos para sumirem da minha frente! Agora p.orra! — falo e os dois saiem correndo, Luísa me olha sem entender... Quando a porta se fechou, eu finalmente desabei. O choro saiu forte, incontrolável. Luísa me puxou para um abraço apertado, me segurando enquanto eu soltava toda a dor que estava presa.
Luísa: Não deixa ele te quebrar, Alicia... — ela falou. — Você é mais forte que isso.
Eu queria acreditar, mas naquele momento, parecia que uma parte de mim tinha sido arrancada. O pior não era a traição, era a sensação de que eu tinha sido boba o suficiente para acreditar que ele também me amava, naquele abraço, entre lágrimas e soluços, eu suspirei e decidi me levantar, a mesma me olhou sem entender, mas quando viu o sorriso no meu rosto, apenas negou com a cabeça.
Alícia: Hora da caçada! — falei e ela deu risada, peguei o radinho falando que não era para deixarem o Foca e a Mariele saírem do Morro.
Luísa: Você é louca, Alícia. — ela fala e eu dou de ombros.
Alícia: Não é atoa que eu sou conhecida como Lunática, agora preciso ir.
Saí da casinha e meti marcha primeiro para a casa dele, como eu imaginei, ele já não estava lá, fui direto para a casa da Mariele, e assim que cheguei em frente a casa, ambos estavam com uma mochila nas costas saindo, mas travaram assim que me viram.
Alícia: Estão indo para algum lugar? — pergunto puxando a minha arma e atirando na perna dele que começa a gritar de dor.
Foca: Alícia, por favor.
Alícia: Alícia é o cara.lho, Lunática, filho da pu.ta! Aí Chavoso, leva os dois para a salinha e amarra eles lá, mais tarde eu apareço por lá, vigia os dois, se eles fugirem, o bagulho vai feder para o teu lado. — ele apenas confirmou e saiu arrastando os dois.