A rainha e o furacão

1300 Words
Víbora narrando... Sabe... tem gente que acha que mulher no corre tem que ser fria, dura, blindada, e talvez até seja verdade. Mas o que eles esquecem... é que a gente também sabe sorrir, sabe viver, sabe aproveitar o que é nosso por direito, e hoje, hoje é dia de baile no meu morro, no meu território, no meu reino. O som do grave já tremia o chão, e eu tava ali... de cabeça erguida, postura impecável, com aquele olhar que já disse muito antes da minha boca precisar abrir. Quem é cria, sabe, onde eu piso, o respeito se abre, e não é só por ser mulher, não... é porque eu sou a Víbora. E quem conhece meu veneno, sabe que não tem antídoto. Passei a mão no cabelo, ajeitei a alça do top preto, bem colado no corpo, aquele jeans rasgado que abraça minhas curvas na medida, corrente prateada reluzindo sob as luzes do baile. Eu sabia exatamente o efeito que eu causava quando passava, mas não era sobre provocar, era sobre deixar claro que aqui, quem dá as cartas sou eu. Lunática: E aí, minha rainha... — ela chegou do meu lado, batendo palma comigo e me puxando pra aquele abraço apertado de irmã. — O baile tá daquele jeito, hein! Víbora: É, bebê... tá na nossa mão. — sorri, pegando o copo da mão do vapor, dando aquele gole no whisky. — Hoje a favela tá viva. Ela riu, ajeitando o cropped, cabelo solto, olhar leve... mas só quem conhece sabe que por trás desse sorriso, mora uma mulher que já venceu muita coisa na vida. Víbora: Vem cá... — puxei ela de canto, olhando pra pista. — E aquele papo que eu vi rodando por aí... tu e o Chavoso... é verdade? — arqueei a sobrancelha, aquele sorrisinho no canto, Lunática gargalhou, segurando o copo com as duas mãos. Lunática: Ah não, cê tá de s*******m, né? — balançou a cabeça. — Cês tão malucos, só pode, o Chavoso é meu parça, pô! Amizade e ponto final, e vai ficar assim, tá ligado? — fez uma cara debochada. — Ele sempre me respeitou, e olha tudo o que aconteceu na minha vida em relação ao Foca. — ela diz, e soltei aquele risinho de canto. Víbora: Tá bom, vou fingir que acredito... — provoquei, rindo. — Mas se quiser que eu meta a real nele, tu só fala. Lunática: Relaxa, mana. — ela gargalhou. O grave do 150 estourava, as luzes piscando, a pista cheia, gente dançando, sorrindo, vivendo, era isso, era sobre isso. Favela viva, favela pulsando, e nós... reinando. Mas aí eu senti, senti aquele olhar em mim. Não precisei nem procurar, que já sabia de onde vinha. Virei de canto, olhei... e lá estava ele, Furacão, vulgo pesado, olhar de quem não se abaixa pra ninguém, sorriso torto que mistura malícia com perigo, aquele tipo de homem que você olha e sabe, problema... dos grandes. A corrente grossa no pescoço brilhando mais que a luz do camarote, tatuagem pelo corpo, postura de quem manda, mesmo fora do território dele. E o pior? É que ele sabia disso, e eu também, a gente já tinha trocado uma ideia antes, nada na maldade, mas agora, esse olhar dele em mim, me arrepiou por completo. o baile estava um fervo, e o Furacão estava no camarote, falando com o Chavoso, dando risada, mas me olhando, eu sentia. Cada vez que meu olhar cruzava com o dele, era como se o tempo desse uma travada. Só nós dois no baile, só nós dois no mundo, disfarcei, virei de lado, conversei com uns aliados, dei atenção pra umas minas que chegaram, sorri, mas... meu olhar, de vez em quando, voltava nele. E cada vez que voltava, ele tava no mesmo lugar, do mesmo jeito... me olhando. E se tem uma coisa que eu não fujo... é de olhar, continuei na resenha com a Lunática, rindo, curtindo, até que percebi ele descendo do camarote, pegando uma bebida, e depois indo na direção da minha irmã, eles começaram a trocar uma ideia e depois ele voltou e eu fiquei só observando de canto, vendo ele trocar ideia com ela, aquele papo meio mole, meio sério, aquele charme escorrendo em cada palavra, vi eles rindo, conversando, e ele... ele me olhava. De canto, de frente, de todo jeito. E eu? Deixei olhar, quem disse que eu me escondo? Quando ele se afastou, e eu percebi que ele foi mais pro canto, me olhando, e se sentou ao lado do Chavoso... joguei o cabelo pro lado, ajeitei a corrente, dei mais um gole na bebida, respirei fundo e fui na direção dele. Fui andando, segura, lenta, pisando como quem sabe que cada passo que dá faz o chão estremecer, cheguei perto, bem perto, tão perto que dava pra sentir o perfume dele. E que perfume... amadeirado, forte, mais um cheiro de perigo do que de homem, o Chavoso meteu o pé dali, deixando só eu e ele. Parei bem na frente dele, levantei o queixo, olhei nos olhos e falei, voz firme, reta, sem vacilar: Todas às farpas que trocamos ali, me deixou meio sem reação, era automático, ele falava, eu rebatia, eu falava e ele rebatia... o meu olhar travou no dele, por uns segundos, o mundo parou. Só nós dois, só aquele fogo queimando no meio da pista. Víbora: Aproveita o baile, Furacão! — falei saindo dali, e o mesmo sorriu confirmando, com uma cara maliciosa. Às horas foram passando, o Chavoso estava na maior resenha com a Lunática, e talvez ela não percebesse, mas eu percebi, e nada me tira da cabeça que ele é caidinho por ela, mas respeita o limite que ela impõe. Continuei me divertindo, dançando e aproveitando o baile, às horas iam correndo e a DJ me chamou até o palco, eu fui em direção do mesmo, e assim que subi, todos os olhares vieram na minha direção. Víbora: Vocês sabem como funcionam às coisas aqui no Santa Marta, então curtam bastante, esse baile é para a comunidade. — falo e os gritos ecoam. Fui de volta para o camarote e a vontade de ir no banheiro veio com tudo, então eu fui caminhando em direção ao mesmo, fiz às minhas higienes e lavei às mãos, sai voltando para o camarote e avistei o Furacão, o mesmo largou o copo e veio na minha direção, quando ele se aproximou, ele segurou na minha cintura, puxou de um jeito firme, me prensando contra a parede do camarote. A mão dele encaixou na minha nuca, e eu nem pensei, só deixei, o meu corpo colou no dele, peito com peito, respiração acelerada, e a boca dele... tão perto da minha que eu só precisei inclinar um pouquinho pra beijar, o olhar dele desceu pros meus lábios, subiu pros meus olhos, e eu fiz igual. A mão dele apertou mais minha cintura, e ele chegou mais... mais... até que... Lala: Aí, aí, aí, Víbora! — uma voz gritou. — cola aqui, tem b.o pra tu resolver. — o meu vapor gritou. Eu travei e ele também travou, eu fechei os olhos, bufando, segurando a risada e o fogo que tava queimando no corpo, ele olhou pro lado, apertou a boca, segurou no meu queixo e disse baixinho... Furacão: Isso não acabou. — soltou, me olhando fundo. Dei aquele sorrisinho de canto, ajeitei o top, passei a mão na boca, como se quisesse apagar o desejo, mas só aumentou. Víbora: E nem vai, Furacão, nem vai. — Virei de costas, saí andando, ouvindo ele rir baixinho. Eu não sou o tipo que curte relacionamento certo, mas também dou às minhas escapadas e agora, Furacão entrou na minha lista, eu o quero, nem que seja por uma única noite!
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