O gosto do perigo

1281 Words
Víbora narrando... A voz no rádio não parava, insistente, respirei fundo, ajeitei o cabelo, limpei o canto da boca com o dedo como quem apaga um desejo, mas a verdade é que não tinha mais volta. Aquele cheiro dele, aquele toque, aquele olhar tava impregnado em mim, e eu sabia… sabia que se não fosse a maldita interrupção, hoje alguém ia sair dali marcado pra sempre, acelerei o passo, saindo do camarote, Lunática já me encontrando no caminho, com aquela cara de quem viu tudo, percebeu tudo e, claro, não ia deixar passar batido. Lunática: Eita... cês tão brincando de fogo mesmo, hein? — ela soltou, segurando o riso, andando do meu lado. Víbora: Fogo, vento... aqui é elemento puro, bebê. — respondi, dando aquele sorriso de canto. — Mas depois a gente fala disso, vamo ver que fita é essa. — desci, já acionando meu rádio. Radinho on... Víbora: Fala... que p***a tá acontecendo? — perguntei, a voz reta, sem espaço pra gracinha. Bolacha: Tem movimento estranho lá no beco da 9, chefe. Dois carros que não são daqui, vidro lacrado, não desceram, não cumprimentaram ninguém... e tão na contenção. — franzi a testa, já mudando a expressão. O corpo automaticamente entrou no modo blindado, o sorriso, o olhar de desejo, tudo ficou pra depois, agora, era sobre proteger o que é meu. Víbora: Tô chegando aí, fica no visual, se descer... já sabe. — respondi, firme. Lunática me olhou, o sorriso no rosto diminuindo. Radinho off... Lunática: Quer que eu vá contigo? — perguntou a mesma. Víbora: Claro, vamo lá. — respondi, olhando ela. — Aqui a gente é parceira no corre e na vida. Andamos ligeiras, desviando da pista, cortando por trás dos camarotes, descendo as escadas até pegar o caminho que dava no beco da 9. No percurso, avistei de canto Furacão… e ele, claro, tava me olhando. Aquele olhar de quem ainda tava sentindo meu cheiro, minha pele, meu gosto que ele nem chegou a provar… mas que já tava tatuado na memória dele, fingi que não vi, ou melhor... fiz questão de mostrar que vi, e que o jogo continua. Chegando no beco, meus olheiros já estavam na contenção, me aproximei, sinalizando pra baixar as armas, mas não largar o foco. Víbora: Quem são? — perguntei, olhando pros dois carros. Bolacha: Placa não bate com ninguém daqui, nem da nossa favela, nem da quebrada vizinha. — respondeu um dos meninos. — E tão desde que o baile começou, chefe, inclusive, acharam que eles estavam indo para lá, mas aí pararam aí e não saíram mais. Cruzei os braços, passei a língua no canto da boca, olhando firme, é, dia de baile a entrada fica liberada, mas a gente sempre fica na visão. Víbora: E tão achando que vão ficar plantado aí na moral, no MEU morro, no MEU baile? — falei, meio pra mim, meio pra eles. — Então vamo ver se eles são tão firmes assim. Lunática: Quer que feche a rua? — a mesma perguntou, já no pique. Víbora: Fecha, sem neurose, mas se descer... — olhei pros meninos, o olhar afiado, cortante. — ...bota no chão primeiro, pergunta depois. Ela assentiu, puxou o rádio e já começou a organizar os vapores da contenção, o meu olhar não desgrudava dos carros, e aí... o vidro abaixou, primeiro um, depois o outro. E o que eu vi, me fez sorrir, não de felicidade. Mas daquele sorriso que só quem conhece o veneno sabe o que significa. Víbora: Ah... olha só, quem diria... — falei, ajeitando a corrente no pescoço. — Cês tão achando que tão lidando com quem, hein? Do carro da direita, um dos caras da milícia, bastante conhecido, Garcia, e do outro... um X9 que eu já tinha ouvido falar, metido a ligeiro, achando que ninguém sabia que ele rodava informação, Lunática percebeu na hora. Lunática: Quer que bota na parede agora? — perguntou, com aquele olhar que quem conhece sabe... se eu só mexesse o queixo, ela dava a ordem. Parei, respirei fundo, o sangue fervendo não era só pelo corre, era tudo. A tensão, o desejo que ficou pendurado, a raiva de gente achando que pisa no meu território sem consequência. Víbora: Não, ainda não. — respondi, cruzando os braços. — Vamo ver até onde eles acham que podem ir. — andei devagar, cheguei perto, encostei no capô do carro, olhei bem no fundo dos olhos dos dois e falei... Víbora: Aqui não é lugar pra turista. Então... ou cês desenrolam logo o papo... ou vaza daqui na moral. Porque se eu precisar fazer vocês saírem... — inclinei o corpo pra frente, olhando sério. — ...não vai ser inteiro. — O Garcia arregalou um sorriso amarelo, tentando se fazer de malandro. Garcia: Calma, rainha... a gente só tava na contenção, só... observando. Víbora: Observando o c*****o. — cuspi, firme. — Aqui não tem essa, observação no meu morro é sentença de morte. — O outro tentou se explicar, mas eu já levantei a mão, cortando. — Não fala mais nada. — apontei o dedo, firme. — Hoje eu tô de alma boa, dia de baile, dia de alegria. Então eu vou fingir que nem vi vocês aqui. Mas... — me aproximei mais, tão perto que quase encostei a boca no ouvido do Garcia. — Se eu ver vocês de novo... nem precisa descer do carro. A bala vai até vocês. — Bati a mão no capô, dei dois tapinhas. — Agora... vaza. Antes que eu mude de ideia. Eles se olharam, nem tentaram questionar. Ligaram o carro e saíram acelerando, Lunática respirou fundo, segurando a risada. Lunática: Tu é braba, na moral. — ela diz sorrindo. Víbora: Eles acham que é brincadeira, pô. — ajeitei o cabelo, sorrindo de canto. — Aqui... quem manda sou eu, a sorte deles é que hoje eles saíram com vida daqui, ela apenas confirmou. Voltamos andando, e no meio do caminho... adivinha quem tava me esperando, encostado no carro, com aquele sorriso torto e olhar que desmonta qualquer uma, e me tira do eixo? Furacão. Ele cruzou os braços, abaixou o queixo, me olhou de cima a baixo e falou, com aquela voz que parece mais pecado do que palavra... Furacão: Resolveu, rainha? — Cruzei os braços também, parei de frente, mordi o lábio e sorri. Víbora: Resolvi. E tô pensando aqui... — dei dois passos, ficando tão perto que só um suspiro separava nós dois. — ...se não tá na hora de resolver outra parada também. O olhar dele desceu pra minha boca, subiu pros meus olhos... E eu vi, vi que se ninguém interrompesse agora... o fogo que tava aceso desde lá do camarote... ia virar incêndio. Furacão: Então fala... — ele disse, segurando no meu queixo, voz baixa, rouca. — Fala o que tu quer, rainha. — Inclinei o rosto, olhando ele no fundo, deixando o veneno escorrer no tom... Víbora: Quero saber... se tu é homem pra segurar essa corrente... e tudo que vem com ela. — Ele sorriu, aquele sorriso que arrepia, que promete, que ameaça e que entrega tudo. Furacão: Se tu for mulher pra aguentar... — ele respondeu, roçando a boca na minha. — ...eu sou homem pra segurar até o teu veneno. O resto, ahhh, o resto nem precisa dizer, porque a tensão já tinha falado tudo, e esse jogo? Esse jogo, só tá começando. Víbora: Então bora meter o pé daqui. — falei montando na minha moto e ele entrou no carro, acelerei saindo dali e ele veio logo atrás, assim que chegamos na minha casa, ele nem deixou eu falar, já me pegou no colo, me pressionando contra a parede e foi me beijando!
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