Lunática narrando...
Quando os últimos pipocos cessaram e vimos os caras meterem marcha, eu puxei o ar com força, soltando devagar, aquele tipo de respiração que você faz quando sabe que acabou… por enquanto. Furacão olhou pra Víbora, aquele olhar que dizia tudo sem precisar de palavras, aquele cara é linha de frente, fiel no que faz, mas sabe que as tretas que se desenrolam aqui não são mais com ele, são nossas.
Furacão: Qualquer coisa, só chamar, hein. — ele falou, encarando a Víbora.
Víbora: Beleza, tu também aciona qualquer coisa, pode estar como alvo dele.
Furacão: Pode deixar, vou voltar para o meu Morro. — ela confirmou, e fez a linha que não se importa, mas eu conheço ela, e sei que ela se preocupa.
Furacão soltou aquele risinho de canto, aquele sorriso que só quem conhece sabe que é de quem ficou querendo mais, eu apenas sorri.
Lunática: Avisa quando chegar no Morro beleza? — ele confirmou e tacou marcha.
Ficamos na laje, observando o Morro, o nosso Império... eu puxei mais uma tragada do meu cigarro de ma.conha, qma fumaça subia, se misturando com o cheiro de pólvora que ainda pairava no ar, a Víbora ficou quieta por uns minutos, olhando tudo lá embaixo, o movimento voltando aos poucos, a rapaziada rindo e falando alto.
Lunática: Sabe... — falei, quebrando o silêncio — eu tava pensando aqui, tá na hora de colocar o Chavoso como gerente geral. — ela virou o rosto pra mim, arqueando uma sobrancelha.
Víbora: Tu acha? — perguntou, meio séria, meio já esperando isso de mim.
Lunática: Acho não, eu tenho certeza, ele segura a responsa, e tá sempre com a gente, ele tem visão e não abaixa a cabeça pra ninguém, é daqueles que tu olha e sabe que dá pra confiar. — bati a mão no peito, como quem sela um pacto. — E além disso, ele tem amor por esse lugar.
Ela ficou me encarando, pensativa, olhando lá pra baixo, onde ele provavelmente tava no ponto dele, segurando o corre, na mesma disposição de sempre.
Víbora: Ele é diferente, sempre foi, sempre amou esse lugar e eu já tinha pensado nisso também.
Quando o radinho chiou e a voz dele ecoou, o meu peito apertou, ele sempre fala comigo, mas dessa vez queria falar diretamente com a Víbora, e a forma que ele puxou na linha não foi a de quem vai falar de movimento, nem de quem quer trocar ideia de dinheiro. Tinha dor na voz dele, me ajeitei, fiquei de pé, olhando lá pra baixo, esperando ele aparecer, o que não demorou muito.
Chavoso veio subindo, boné pra trás, olhar pesado, semblante carregado, quando ele chegou, foi direto, sem rodeios, mer.da, Dona Marlene é uma mulher incrível, senti o corpo inteiro gelar, a minha respiração falhou, meu coração acelerou na hora. Olhei pra ele e vi aquele moleque que sempre se fez presente na minha vida, brincalhão e um ótimo parceiro... agora com os olhos marejados.
Ele falando, segurando a dor, segurando as lágrimas, e eu, lutando pra não desabar junto, cada palavra dele me cortava. Eu sou linha de frente, às vezes fria demais... mas se tem uma coisa que me desmonta é ver quem eu amo sofrendo, e ele, querendo ou não, sempre foi parte disso aqui, parte da minha vida.
Víbora respirou fundo, cruzou os braços, olhou pra ele com aquele olhar dela, meio de chefe, meio de mãe do morro, e disse que iria ajudar, que ele não precisava dobrar plantão e eu agradeci, mas se ela não o ajudasse, eu iria...
Ele assentiu, aliviado, mas com aquele peso ainda no olhar, era a mãe dele, Dona Marlene, uma pessoa incrível, agora o dinheiro não era mais o problema, e sim a luta para vender esse maldito câncer. Cheguei perto, botei a mão no ombro dele e passei todo o meu apoio para o mesmo, afinal, quando eu matei o Foca, ele não saiu do meu lado, o tempo todo tentava me fazer rir e esquecer o i****a, ele agradeceu e saiu dali meio no automático, tipo quem tá carregando o mundo nas costas. Quando ele desceu a escada, ficou aquele silêncio pesado na laje, só eu e a Víbora, olhando o nada.
Víbora: Sabe... no fundo, eu acho que tu gosta dele, mais do que amigo... mas ainda não consegue ver isso claramente. — soltou, baixo e ainda olhando para o nada, virei de lado, olhei pra ela, soltei uma risada meio fraca, meio nervosa.
Lunática: Tá viajando, Luísa. — balancei a cabeça — Ele é meu amigo, só isso. E sempre vai ser. — falei, mas até eu senti que minha voz falhou um pouco.
Víbora: Daqui um tempo nós conversa sobre isso de novo. — ela disse me olhando com um sorriso no rosto.
A noite foi caindo, o vento ficando mais frio, e aquela cena não saía da minha cabeça, o jeito que ele falou da Dona Marlene... aquilo me rasgou. Então, sem pensar muito, desci da laje fui até a minha casa, tomei um banho, coloquei uma calça molenton, uma camiseta normal e segui pro caminho da casa dele.
Bati na porta duas vezes, ela abriu devagar, Dona Marlene, forte como sempre tentou ser, mas dava pra ver no olhar dela que o peso da vida tava machucando.
Lunática: Boa noite, tia... vim aqui ver vocês. — sorri, meio tímida, ela abriu um sorriso, aquele sorriso de mãe que, mesmo na dor, ainda arruma espaço pra carinho.
Marlene: Entra, minha filha... vem, senta... — ela disse, já puxando uma cadeira.
O jantar foi simples, arroz, feijão, uma carne moída bem temperada, batata e salada. Mas foi o melhor jantar que eu tive nos últimos meses, a gente riu, falou da infância, lembramos das travessuras do Chavoso, das broncas que Dona Marlene dava nele e até em mim, algumas vezes.
Marlene: Esse menino aqui era danado, ele vivia subindo no telhado pra pegar pipa e dizia que tava treinando pra ser super-herói. — ela falou dando risada e ele negou rindo também.
Ficamos ali, por horas, jogando conversa fora, esquecendo, por um instante, da vida c***l que a gente leva lá fora, parecia que o tempo parou, só pra gente lembrar que, no meio do caos, ainda existe amor, existe cuidado, existe vida, quando levantei pra ir embora, Chavoso se prontificou na hora, como sempre.
Chavoso: Eu te acompanho, bora. — confirmei e sorri.
Marlene: Aparece mais vezes, minha filha, sabe que gosto muito da sua companhia e a da sua irmã também.
Lunática: Pode deixar, vamos marcar de vir tomar um café, ok? — ela sorriu e confirmou.
Descemos juntos até a rua, ele parou na esquina comigo e me olhou sério.
Chavoso: Obrigado pelo que tu fez hoje, tu é f**a, de verdade. — falou, meio cabisbaixo, meio sem jeito, toquei no braço dele
Lunática: Eu sempre vou estar aqui, Chavoso. Tu sabes, né? Qualquer coisa é só me chamar. — ele sorriu, aquele sorriso meio triste.
Chavoso: Valeu, de verdade, surtada. — não sei explicar o que rolou, mas quando ele veio me dar um abraço, meio que virou o rosto, eu também, e... nossos lábios se encostaram. Um selinho rápido, meio sem querer, meio querendo, mas que fez meu coração disparar na mesma hora, nos separamos na hora, olhamos um pro outro, meio sem saber se falava, se fingia que não aconteceu... e aí ele riu, meio envergonhado, eu engoli seco na hora... os seus olhos focados no meu.
Chavoso: Tá, então até amanhã, Lunática, e novamente, obrigado por hoje, avisa quando chegar.
Lunática: Pode deixar, até, Chavoso... — falei, segurando um sorriso, sentindo meu rosto queimar.
Virei as costas andando, e só pensava que p.rra foi essa? O peito apertou, a cabeça rodou, eu não sabia o que sentir e o que pensar, ele é meu amigo, sempre foi, nunca foi mais que isso, ele nunca demonstrou nada e eu nunca sequer pensei sobre isso também.