Chavoso narrando...
Quando eles tacaram marcha dali, eu voltei para o meu ponto, os barulhos dos tiros ainda estavam ecoando na minha mente e eu só conseguia pensar que agora a paz havia acabado, e a guerra estava a caminho, ele deixou isso declarado e a gente também quando colocamos ele para correr a base de tiro, mas é aquilo, se eles querem guerra, eles vão ter, a Víbora sempre foi da paz, mas nunca foi de recuar também, nunca tivemos uma guerra diretamente, ela sempre soube converter ou mostrar que se eles viessem, o bagulho ia ficar doido, mas o Peixe tá afim de testar, então é com ele, mas eu sei que a Víbora não vai recuar e nem a Lunática que está no modo ruim...
Fico pensando, aqui todo mundo só quer viver, tá ligado? Só quer ter paz, comer bem, dormir sem medo, acordar sem o som dos tiros. Mas a vida não deixa, o sistema não deixa. Eles nunca quiseram a nossa paz, nunca, aí é isso... a gente vira o que o mundo fez da gente.
Lá no fundo, eu nunca quis isso, nunca sonhei em ser mais um no corre, mais um com um fuzil na mão, mais um que carrega no peito o peso de saber que, qualquer dia, pode ser o último. Mas quando você nasce na guerra, irmão… escolher a paz é um luxo que poucos têm, e querendo ou não, eu sou cria daqui. O morro é minha casa, minha raiz, minha vida, eu amo essa p.orra aqui, mesmo sabendo que ela pode me matar.
Meus pensamentos foram cortados quando o radinho chiou de novo, mas dessa vez não era Víbora, nem Lunática. Era o Juninho, meu parceiro do bonde.
Radinho on...
Juninho: Chavoso, tua coroa tá atrás de ti irmão, e a cara dela não é das melhores. — na hora, meu coração disparou.
Chavoso: Tô indo irmão, valeu por avisar.
Radinho off...
Guardei o rádio, joguei o baseado pro lado, botei o boné pra trás e fui em direção a minha casa... cada passo que eu dava, parecia que o chão tremia, às mãos começaram a suar, o peito apertou, o medo de que algo r**m estava acontecendo, e quando se trata da Dona Marlene... o coração só falta parar de bater, ela é tudo o que eu tenho.
Cheguei em casa, a porta tava encostada, empurrei devagar e lá estava ela, sentada no sofá, olhando pra parede, com aquele olhar perdido que eu nunca tinha visto nela antes, minha mãe sempre foi forte, sempre foi aquela mulher que, mesmo na pior, sorria, dava bronca, metia a mão na cintura e falava que "Deus tá vendo", mas algo nela está diferente...
Chavoso: Mãe? O que tá pegando? — perguntei, já sentindo a voz falhar. Ela demorou uns segundos pra me olhar, mas quando olhou, o meu coração apertou, o olhar dela tava cheio de medo.
Marlene: Filho... eu fui no posto hoje, peguei o exame... — a voz dela falhava e as mãos tremiam. — O médico falou que eu tô com câncer.
Naquele segundo, parecia que o mundo inteiro parou, o coração apertou ainda mais, parecia que o mundo havia sumido, os meus olhos encheram de lágrimas na mesma hora e senti até o ar faltar...
Chavoso: O quê? — minha voz saiu baixinha, quase sem força. — Não mãe, que isso, não pode ser. — ela respirou fundo, segurou minha mão, e tentou sorrir, mas até o sorriso dela tava quebrado.
Marlene: Eu sei, meu filho... eu sei, também não queria, mas é. O doutor disse que é no pulmão, já tá avançado, eu achei que era só uma tosse, que era coisa boba, mas... — ela não conseguiu terminar, abaixou a cabeça e deixou as lágrimas rolarem.
E eu, que vivo nesse mundo, já vi parceiros de afundarem e morrerem nas drogas, caí de joelhos na frente dela, abracei as pernas dela, e chorei como uma criança.
Chavoso: Não, mãe, você não vai me deixar, a gente vai dar um jeito, entendeu? você não vai me deixar, não vai... — eu repetia, apertando ela com força, como se isso fosse impedir que a vida levasse ela de mim, ela passou a mão no meu cabelo, como fazia quando eu era pequeno, e deu um sorriso.
Marlene: Você é meu orgulho, Vinícius, por mais que tenha escolhido esse caminho, ainda sim, é o meu orgulho...
Essas palavras... aqueceram o meu coração, ela sabe que na favela, não temos muitas opções, e mesmo sabendo que eu estava na vida errada, ela nunca me julgou, nunca me virou as costas, nunca me desamparou, ela sempre foi a minha base, respirei fundo, levantei, enxuguei o rosto
Chavoso: Nós vamos pra luta, mãe. Eu vou arrumar o dinheiro que for... vou te levar nos melhores médicos, aqui, ninguém vai te enterrar, não, aqui é Dona Marlene, p.orra! A mulher mais braba que esse morro já viu. — sorri, tentando segurar a dor, tentando ser forte por ela. — Se for pra eu meter marcha, correr, vender a alma se for preciso, eu faço. Mas você vai viver, você vai vencer essa p.orra, ouviu?
Ela sorriu, meio chorando, meio aliviada, e balançou a cabeça.
Marlene: Meu filho... você é tudo pra mim. — ela me abraçou forte, como se aquele abraço pudesse proteger nós dois do mundo.
Mas, por dentro eu sabia que não ia ser fácil. E que, pra conseguir esse dinheiro, eu ia ter que me afundar mais ainda nesse mundo, e sabe eu não ligo... Porque se for pela minha mãe... eu viro o próprio demônio, saí de casa, peguei o rádio, chamei a Víbora.
Radinho on...
Chavoso: Patroa, preciso trocar uma ideia contigo, coisa séria e pessoal. — a minha voz tremia, mas eu segurava.
Víbora: Tô aqui na laje te esperando...
Radinho off...
Subi no pique, no caminho, a cabeça a mil... pensando em tudo, na minha infância, nos dias que minha mãe vendia quentinha na porta da escola, lembrei das vezes que ela chorou escondido, pensando que eu não via. Lembrei dos natais que não tinha condições de ter presente, mas tinham amor, cheguei na laje, Víbora tava lá, sentada, olhando a movimentação Lunática do lado, encostada na parede com o cigarro de ma.conha na boca.
Víbora: O que tá pegando Chavoso? — a mesma perguntou e eu respirei fundo.
Chavoso: É a minha coroa, ela tá doente, está com câncer. E eu preciso de dinheiro para o tratamento, pra exame, pra tudo. E se tiver que pegar qualquer missão, qualquer bagulho, eu pego. Eu viro noite, viro dia, viro o que for, mas ela não vai morrer, não. — falei firme, segurando a lágrima na garganta.
Lunática olhou pra mim de lado, aquele olhar dela não era só de quem entende, era de quem sente. Porque ela sabe o quanto eu sou apegado na minha coroa, Víbora cruzou os braços, respirando fundo...
Víbora: Tu não precisa virar noites em plantão, não precisa dobrar nem nada, tu é cria, é amigo, a gente vai te ajudar, vamos te dar o dinheiro do tratamento, do início ao fim, pode ir atrás já, que estamos contigo, assim como tu sempre está com a gente. — ela diz e eu confirmo, mas então ela se aproxima. — Só que tu sabe, tá vindo coisa grande pela frente, e tu vai estar ao nosso lado, lutando pelo Morro. — Sorri, aquele sorriso amargo, cheio de dor, cheio de sangue, cheio de amor.
Chavoso: Sempre irei lutar pelo Morro, e por vocês, obrigado, de verdade, patroa.
Lunática se aproximou e colocou a mão no meu ombro.
Lunática: A gente tá contigo, Dona Marlene vai vender essa. — ela fala e eu sorrio.
Agora não é sobre dinheiro, sobre poder, agora é sobre salvar a vida da única pessoa que, desde o primeiro dia, nunca me abandonou, e saber que tenho o apoio das duas, me deixa mais tranquilo, a minha coroa vai sair dessa!