Chavoso narrando...
O som do motor da moto ainda tava ecoando na minha mente quando estacionei no pico do Morro, desliguei e tirei o capacete e acendi um, olhando pro horizonte, o sol já começava a querer dar as caras, tingindo o céu de um laranja meio queimado, aquela visão que, pra quem vive no morro, sempre vem com uma mistura agridoce... Bonito, mas cheio de incerteza, porque aqui, irmão… cada nascer do sol pode ser o último.
Me encostei no muro, puxei a fumaça fundo, e deixei sair devagar, como se isso aliviasse o peso que eu carregava nas costas, a minha vida nunca foi fácil. Cresci aqui, no meio desse caos organizado, onde quem não aprende a andar ligeiro, acaba virando estatística. Sabe... tem hora que a gente olha pra vida e se pergunta como é que chegou até aqui, né? Eu não sou diferente, nascido e criado nesse Morro, onde quem não aprende a viver, aprende a morrer.
Meu nome? Na boca do povo é Chavoso, mas pra minha mãe eu sou só o Vinícius, o filho que ela criou sozinha, na raça, na coragem, no peito e na fé. Minha coroa... ah, minha coroa é guerreira, de fibra, dessas que não abaixa a cabeça pra ninguém, me criou sozinha, porque meu pai… sumiu no mundo quando eu ainda nem tinha aprendido a falar direito, não lembro o nome dele, e nem faço questão, foi a minha mãe que segurou tudo, vendeu quentinha, lavou roupa pra fora, fez de tudo pra botar comida dentro de casa e me dar o pouco que ela podia.
Cresci ouvindo ela falar que o certo era estudar, que o caminho do crime não levava ninguém pra lugar nenhum… E olha que eu tentei, viu? Juro que tentei, só que aqui, meu parceiro… a vida é outra, o asfalto lá embaixo pode até ter regras, pode até ter lei, mas aqui em cima, quem faz a lei é nós. E eu me tornei parte disso. Não porque quis, mas porque foi o que sobrou.
Aqui no corre, me chamam de Chavoso, não é só porque eu ando no estilo, boné, cordão, camisa de time e os kits mais brabos, é porque a minha caminhada até aqui foi f.oda, mostrei o que eu era, enfrentei um inferno, mas sempre me sobressai bem... Ser chavoso aqui não é só sobre estética, é sobre atitude, postura… sobre sobreviver onde muitos não passam do primeiro tombo.
A minha rainha, tá viva graças a Deus, e é por ela que eu respiro, que eu corro, que eu me jogo de cabeça no perigo, se for preciso. Dona Marlene, uma guerreira daquelas que acorda antes do sol, bota a marmita na bolsa e vai enfrentar a vida no peito, trabalhando de faxina nas casas lá do asfalto, lutando pra não deixar faltar nem pão, nem dignidade, cresci ouvindo minha mãe dizer que homem de verdade é quem honra quem ama, quem sustenta, quem protege. E eu tomei isso como lei. Se tem uma coisa que eu aprendi, é que quem não cuida dos seus, não é homem… é só mais um peso morto no mundo, por isso eu peço para ela largar todos os dias o trampo no asfalto, mas ela não me escuta, eu tentei seguir pelo certo, mas o certo nem sempre paga o aluguel, nem sempre enche a barriga, e muito menos garante segurança no lugar onde vivemos...
O Morro é comandado pela Víbora, aquela mulher não é só dona do morro, como é dona de si, da própria história, e de qualquer um que suba aqui achando que vai bater de frente. Ela é fo.da, fria quando tem que ser, justa como poucos, coração blindado, mas quem tem a sorte de estar do lado dela, sabe que ela cuida, protege, dá a vida se for preciso.
Agora, a Lunática, p.orra! A princesa do caos. A mulher que, se tu olha nos olhos, vê que ela já viu coisa demais, viveu dor demais, e mesmo assim tá ali… de pé, rindo, rebolando no baile, metendo marcha na vida e, se precisar, puxando o gatilho sem nem piscar.
Ela sempre foi meu ponto fraco, minha perdição e minha admiração. Desde que eu entrei pro movimento, ela já me chamava atenção. Jeito marrento, risada debochada, aquela voz fina, meio manhosa, meio perigosa, que fazia qualquer um tremer na base, só que eu sempre respeitei. Porque ela nunca foi mulher de qualquer um, e eu nunca fui qualquer um também, a gente sempre teve aquela resenha, aquele flerte no olhar, aquela provocação boba, mas sempre na linha, no limite do respeito, ela nunca demonstrou mais que amizade por mim, tanto que ela se envolveu com o Foca. E eu? Fiquei na minha, nunca fui homem de atrapalhar relacionamento, mesmo que, cá pra nós… eu nunca enxerguei verdade nele. Sabe aquele cara que fala muito, mas entrega pouco? Que se faz de malandro, mas não segura a responsa? Sempre senti isso, sempre soube que tinha alguma coisa nele que não batia…
E adivinha? Eu tava certo, quando ela puxou o gatilho e apagou ele… mano… não vou mentir, parte de mim ficou triste, porque, querendo ou não, ela amava ele e ele era cria daqui... Mas outra parte? Entendeu tudo, ela não é mulher de ser feita de otária. Quem brinca com fogo, com Lunática… morre queimado, e se ela fez, é porque o bagulho era muito mais sério do que qualquer um sabia.
Depois disso… mano… a admiração só triplicou, porque ela é braba, ela é sinistra, ela é tudo aquilo que qualquer homem teme e deseja ao mesmo tempo. E, por Deus, eu nunca vi uma mulher fazer o que ela faz, e não é porque é irmã da Víbora, não. É porque ela se garante, ela sustenta o nome, sustenta a marra, sustenta o posto. Ela é a sub, mas aqui no morro… ela manda. E se ela falar, eu acato. Sem discutir, sem questionar, porque respeito é lei.
Mas nem tudo são flores, né? O meu radinho apitou e logo o aviso da movimentação estranha, então meti marcha para a minha posição e já passei o recado adiante... o clima tá pesando, o meu peito não sossega. Peixe… esse desgraçado tá rondando o Morro, Peixe é bicho solto, malicioso, dissimulado, aquele tipo de cara que te cumprimenta com um sorriso, mas, se tu der as costas, ele já tá planejando qual calibre vai usar pra te apagar. E, se tem uma coisa que eu aprendi no morro, é que sorriso demais… é faca nas costas depois.
Tô encostado aqui na laje, olho colado no binóculo, vendo os carros pretos circulando como quem não quer nada. Sem placa, sem cara conhecida, só vulto, só malícia no movimento, as motos passam devagar, olhando pros becos, pras vielas, pras entradas. E, irmão, eu conheço esse jogo. Isso é mapeamento, isso é pré-invasão.
Chavoso: Se esses filhos da p.utas, acham que vão subir aqui fácil assim… tão muito enganados — falei, ajeitando o rádio na mão.
Víbora e Lunática já estão prontas para qualquer merda que der... quem olha essas duas, nem imagina o tamanho do poder que elas carregam. Duas mulheres que comandam, que fazem, que acontecem. E eu? Sou cria delas, com orgulho, com honra. Porque eu sei que aqui, se não fosse elas, esse morro já tinha virado história faz tempo.
radinho on...
Víbora: Esses caras estão medindo tudo, p.orra! — do outro lado, a voz da Víbora fria como sempre.
Lunática: Fica esperto Chavoso. Hoje é dia de deixar claro que aqui, quem manda… somos nós.
Chavoso: É isso... se derem o aval, metemos bala para cima, sem problema algum.
Víbora: Acho que eles já olharam mais do que deveriam, mete bala nesses arromba.dos.
Radinho off...
Eu fiz o que ela pediu, chamei alguns vapores e começamos a atirar contra eles, que meteram marcha dali na hora! Por elas, pela minha mãe, pela minha quebrada… eu viro tempestade, se necessário.