Se querem guerra, terão!

1300 Words
Lunática narrando... O som do grave batia no peito, vibrava na pele, fazia o coração acelerar num ritmo que eu nem sabia se era da música ou da minha própria adrenalina, o baile tava fervendo, daquele jeito que só quem vive sabe, luzes piscando, fumaça no ar, cheiro de perfume caro misturado com aquele cheiro característico do morro… cheiro de perigo, de vida, de quem sabe que pode não ter amanhã e, por isso, vive hoje no volume máximo. Os meus olhos corriam pelo movimento, e, mesmo me esforçando pra parecer inteira, eu sabia que não tava, eu tive que acabar com a vida do cara que eu amei, porque ele brincou com os meus sentimentos, e aqui no Morro é lei, quem trai paga, mas eu não podia dizer que não sentia falta dele, e isso era o que mais me irritava!!! Mas hoje não era dia de luto, hoje era dia de baile, de esquecer as dores, ele não merecia que eu me sentisse m*l por ele, e eu não iria. A pista tava lotada, mulherada descendo até o chão, caras fumando, rindo, ostentando, bebida rolando solta, e o DJ só mandando aquela sequência braba que fazia até quem dizia que não ia dançar perder a linha, Chavoso se aproximou, aquele sorriso largo, jeito de malandro, mas com aquele cuidado comigo que poucos têm. Ele me olhou, abriu os braços, e eu fui, abracei forte. Chavoso: E aí, Lunática… já tá no grau, hein? — ele soltou, rindo. Lunática: Sempre, bebê. — respondi, piscando pra ele. — Aqui a gente cai, chora, mas levanta no salto e com a marra em dia. — ele gargalhou. Chavoso: É isso que eu gosto em tu, mulher. A gente ficou um tempo trocando ideia, rindo, comentando dos corres, da vida, dos papos tortos que sempre rolam, até que o som mudou, veio aquele proibidão brabo, e eu não consegui me segurar, o meu corpo foi sozinho, virei, joguei o cabelo pro lado e desci, daquele jeito que quem olha sabe, é Lunática passando, as mãos no joelho, a raba no chão, rebolando no ritmo, olhando por cima do ombro e rindo, provocando, mostrando que dor nenhuma ia me fazer perder minha essência. E eu dancei, dancei como se não houvesse amanhã, como se a vida não fosse esse caos que é, cada batida da música era um tapa na tristeza, uma afronta pro destino, um lembrete de que eu ainda tô aqui, viva, gostosa, dona de mim, entre uma música e outra, olhei pros cantos, procurando. E, claro, percebi que dois elementos sumiram do mapa... Furacão e Víbora sumiram bonito, nem sinal dos dois, e olha… eu, que não sou b***a nem nada, já saquei. A forma como eles estavam se olhando antes, aquele fogo não era normal não, eu não falei nada, só arquivei na mente. O baile rolou até altas horas, vi muita coisa, muita movimentação estranha, umas caras que eu nunca tinha visto colando no nosso território, mas, como eu já tinha dado aquele check mais cedo com a Víbora, fiquei na minha, só observando, quando o som baixou e o dia começou a clarear, aquele clima de fim de festa foi tomando conta, quem ficou, tava no grau. Quem era do corre, já começava a se posicionar de olho nos movimentos do dia que tava nascendo. Chavoso: Bora lá, maluca, eu te largo em casa. — ele disse me puxando pela mão e eu confirmei, montei na moto dele e ele tacou marcha para a minha goma. — Até mais tarde, vê se descansa. — ele me deu um beijo e eu sorri, então ele arrancou com a moto dali. Eu dei aquela respirada fundo, ajeitei o top, puxei o cabelo pra trás e entrei para dentro de casa, fui direto para o banheiro e tomei um banho, me joguei na cama e deixei o sono vencer... no dia seguinte, a primeira coisa que eu fiz quando acordei foi me olhar no espelho. E, por incrível que pareça, eu tava bem, me senti bonita, viva, desci para a goma da Víbora e quando adentrei, lá estavam eles… como se NADA tivesse acontecido. Furacão encostado no carro, aquele sorriso marrento, cara de quem dormiu bem… ou nem dormiu. Víbora do lado, de óculos, cabelo preso, tomando um energético como quem diz "tô plena, tá?", olhei pros dois, e a vontade de rir bateu forte, porque, meu amor… se tem uma coisa que eu sei, é ler olhar, e eles tavam fingindo bonito. Lunática: E aí… — soltei, cruzando os braços, olhando pros dois. — Dormiram bem, né? — Víbora nem se abalou. Víbora: Ótima noite, né, Furacão? — soltou, olhando pro nada, com aquele sorrisinho cínico no canto da boca. Furacão: Tranquila. — ele respondeu, coçando o queixo, fingindo naturalidade. — Só sossego. — eu arqueei a sobrancelha, segurando o riso. Lunática: Uhum… tô ligada no sossego de vocês. Mas, enfim… — balancei a mão no ar. — Vida que segue. Eles se olharam de canto, mas fizeram questão de manter a pose, como se a noite passada não tivesse sido fogo, faísca e destruição, mas antes que a resenha rendesse mais, o rádio começou a chiar. A voz do Chavoso entrou na frequência, já no modo alerta total. Radinho on... Chavoso: Lunática, Víbora... Olho aberto, tenho informação quente chegando, tão dizendo que tem movimento estranho na entrada do Morro, não reconhecemos ninguém, mas é bom manter o foco, espero que às donzelas estejam acordadas já. Lunática: Fica na paz, princeso, nós já estamos acordadas e prontas para qualquer b.o! — falei e ele deu uma risadinha do outro lado. Radinho off... Automaticamente, o meu corpo entrou no modo guerra, olhei pros dois que, na mesma hora, esqueceram o teatrinho deles. Lunática: Bora subir. — falei, já puxando minha Glock da cintura. — Se é treta, vamo desenrolar. — Víbora confirmou. Víbora: Bora, depois a gente cuida de outros assuntos. — falou, olhando rápido pro Furacão, que respondeu só com aquele sorriso torto de canto. Furacão ajeitou a corrente no pescoço e falou... Furacão: Se tiver que chover bala, hoje vai chover, tô com vocês, princesas. Subimos na laje mais alta, binóculo na mão, rádio ligado, cada um em uma posição, observando o asfalto. Lunática: Cês tão vendo o que eu tô vendo? — perguntei, focando na mira. Dois carros pretos, sem placa e três motos com os mesmos, todos rondando o Morro, sem colocar a cara. Víbora bateu na perna. Víbora: Provavelmente seja o Peixe. — rosnou, rangendo os dentes. — Esse desgraçado tá querendo testar a minha fé. — Furacão apertou o rádio. Radinho on... Furacão: Ae Chavoso, tamo posicionado aqui, mas me diz, acha que vão subir ou vão ficar só rondando? Chavoso: Observem, não agem ainda, vamo entender qual é a deles. Se for invasão, o morro fecha, mas acho que estão tentando conhecer o mesmo, para outro dia atacar. Lunática: Tem razão. — falei na frequência... Radinho off... Eu respirei fundo, apertei a Glock, e meu sangue já ferveu. Se esses caras querem guerra… eles vão ter. O clima mudou na hora, o baile, a resenha, a curtição… ficou tudo pra trás. Agora era vida real, e na vida real, quem vacila, não volta pra contar, Víbora e Furacão, lado a lado, agora sem nenhum teatrinho, sem fingir mais nada, olhar atento, dedo no gatilho, prontos pra tudo. E eu? Ah… eu era Lunática, podia estar com o coração quebrado, mas se tinha uma coisa que eu sabia… era fazer do caos a minha casa. E se hoje ia ter guerra… então que viessem prontos, porque aqui, meu amor… aqui o bagulho é sem massagem, e eu já tô quebrada todinha por dentro, então não me importo de colocar esses arromba.dos para subir.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD