Talita
Faço os exames e volto para o quarto. Preciso de um banho, estou me sentindo derrotada. Tomo o banho com a ajuda do Juliano e ele me leva no colo de volta para a cama. Ainda bem, me sinto melhor, mas o cansaço é imenso.
Depois de me sentir fresca e renovada, peço para ele me contar tudo o que aconteceu...
- Então, depois que você entrou em coma, o Sávio me ajudou a ir atrás da responsável por tudo isso, a Ofélia. – Ele me explica em minuciosos detalhes e eu fico chocada em como aquela mulher teve a audácia de fazer tudo isso. Eu sempre a tratei tão bem. Por ser jovem, sempre soube que ela gostava de cremes e maquiagens, qualquer oportunidade que eu tinha de comprar para mim, comprava para ela. Muitas vezes dei dinheiro a mais para ela sair e se distrair, porque ela dizia que seu marido estava muito doente e tinha medo de o perder.
Ela me enganou direitinho. Confesso que já tinha notado alguns olhares dela para o Juliano, principalmente quando ele estava sem camisa. Mas, pensei que era uma coisa normal, tendo em vista que ele é um homem muito bonito. Nunca pensei que ela tinha um plano e nesse plano envolvia viver a minha vida.
Fora que ela cuidava muito bem dos meus filhos, eles a amavam. Me sinto decepcionada, como se um ente querido tivesse nos traído. Tenho medo de me tornar uma pessoa amargurada e desconfiada, com o peso que a maturidade trás. Preciso aprender a separar as coisas, nem todo mundo é bom como parece.
Nesse mesmo instante me veio as palavras do meu avô sobre o lobo em pele de cordeiro. Sinto um alívio imenso ao saber que Juliano conseguiu lidar com tudo e, além de tudo, sinto orgulho dele ter engolido seu ciúmes em prol do meu bem-estar. Não deve ter sido fácil aceitar o Sávio falando que me ama e passar por cima de tudo para solucionar o meu caso.
- Mas tem mais uma coisa que eu não te contei ainda e quero que você tenha muita calma, sei que isso vai te fazer ficar muito triste, mas não é o fim do mundo e podemos passar por isso juntos. – Ele fala e já sinto meu coração disparar.
- Fala logo, pelo amor de Deus. – Suplico de ansiedade e de medo.
- Você estava grávida de duas semanas. A gravidez não foi adiante por causa do veneno que você ingeriu. - Ele fala e eu não controlo as minhas lágrimas.
Eu perdi um filho. Jamais imaginei que isso ocorreria comigo. Aliás, a gente nunca imagina que isso poderá acontecer um dia. Choro copiosamente e ele me consola.
- Meu amor, isso é muito triste. Eu concordo com você, mas nada é mais importante que a sua vida. Você está bem, você está saudável. A gravidez estava bem no início, então existiam grandes chances de isso acontecer, mesmo não sendo o que nós queremos. Nossos filhos estão bem, estão saudáveis e com muita saudade de você. Se apega nisso para seguir em frente. – Eu ouço suas palavras e encosto meu rosto no seu peito, sentindo o tecido da sua camisa social, seus músculos duros e imponentes e o seu perfume inconfundível.
- Eu sei, mas eu realmente não esperava isso. São muitas informações novas, eu ainda estou confusa.
- Sim, eu imagino. O Sávio tem me ajudado nesse processo enquanto você estava internada. Não confio nele e jamais irei confiar, mas seria muita ingratidão da minha parte não o deixar vir te ver, porém só deixei com a minha supervisão. Ele diz que precisa conversar com você. Ele me confessou que sempre te quis, mas que eu tirei a chance dele de tentar algo. – Ele fala, um pouco contrariado.
- Ele não tem a mínima noção do que está falando. Mesmo se não fosse por você, eu jamais me envolveria com alguém como ele. Ele nunca me atraiu em nada. Tenho asco dele. Até a nossa babá, ele foi capaz de se envolver. Ele não teve escrúpulos e, realmente não acho que isso vai mudar. Mas, também não podemos nos igualar a ele, então se ele quiser conversar, estou disposta. Já aviso que não passará disso, não quero no meu convívio. – Eu falo e vejo o alívio na cara do Juliano, parece que eu falei o que ele sempre quis ouvir.
- Claro, meu amor. Como você quiser, fico tão tristinho com uma notícia dessas... – Ele não perde a chance de fazer uma piada e eu dou risada.
- A nossa situação também é complicada, Juliano. Antes disso tudo nós decidimos que iríamos nos separar. – Eu falo e sua expressão muda.
- Você ainda quer se separar de mim? Eu não quero, mas não posso te obrigar a ficar comigo. – Ele fala um tanto quanto decepcionado.
- Eu sei, mas eu também não posso esquecer tudo o que aconteceu. Nunca tivemos um embate tão grande quanto aquele, só de lembrar eu sinto medo. Não quero viver aquilo novamente.
- E você não vai. Eu sei que eu errei muito com você, mas eu te juro que eu não tinha a intenção. Eu daria a minha vida pela sua, eu jamais vou esquecer daquele momento terrível, da minha falta de jeito de solucionar as coisas e o pior, de não ter sido a pessoa que te protege, mas a pessoa que te fere. Eu te prometo que isso não vai mais acontecer, me dá mais uma chance. Nós temos uma família linda, nos amamos em todos os aspectos. Eu sei que você me ama, se eu achasse que você não me ama mais, eu não insistiria. Podemos tentar de novo. Eu comecei terapia e mesmo com você em coma, eu continuei as sessões. – Ele explica e eu sinto alguma esperança.
- Fico muito feliz com isso, de você estar buscando ajuda. Vamos viver um dia de cada vez e no final decidiremos o que será melhor para nós dois. – Falo e ele faz um carinho no meu rosto e me abraça apertado. Parece que ele precisava desse abraço e eu também.