Juliano
Os dias passam e a melhora do quadro clínico da Talita não é animadora. Os médicos vieram conversar comigo dizendo que é uma incerteza muito grande, pois o seu corpo reagiu bem aos medicamentos, mas por algum motivo ela não acorda do coma.
Quando falaram sobre desligarem os aparelhos, eu tive um surto naquele hospital e disse que mat4ria quem ousasse TENTAR fazer isso. Eu tenho esperanças de que ela irá acordar em breve e sem sequelas.
Três semanas se passam e eu me desdobro para resolver tudo, contrato duas seguranças femininas para ficarem dentro do quarto quando eu não estou presente, mesmo sabendo que tem um segurança homem de confiança na porta, eu não quero arriscar a sua integridade física e moral. Ver a Talita naquele estado de vulnerabilidade tão grande me causa insônia e pensamentos terríveis. Meus filhos questionam sobre a mãe em todo o tempo e eu bato na tecla de que ela está viajando a trabalho, mas voltará com grandes surpresas para eles.
Estou ficando sem ter o que falar e o Bruno, que já é maior, está mais desconfiado do que nunca. Outro dia ele perguntou por que ela não ligava, nem mandava mensagens. Tive que inventar que o país que ela foi à trabalho não pegava o celular dela. Na hora não consegui pensar em outra coisa, só que o moleque é esperto e me perguntou como eu sabia que ela estava bem se ela não conseguia se comunicar comigo também. Esse aí é casca grossa mesmo, falei que ela me mandava emails do computador do trabalho. Ele fingiu que acreditou, mas o conheço e sei que ficou mais desconfiado ainda.
Chego no hospital depois de passar em casa e treinar, voltei para a academia depois de alguns dias, porque estava ficando louco. Precisava dessa dose de endorfina, mesmo que seja de uma maneira mais rápida do que estou acostumado. Tomei banho por lá e vou direto para o hospital.
Quando chego na porta do hospital, o Sávio está lá. Penso que não tem um dia que esse cara dá folga. Todos os dias ele pede para vir ver a Talita, mas confesso que não são todos os dias que eu permito. Isso está tirando a minha paciência, eu só tolero a sua presença porque ele tem me ajudado no desenrolar do processo de tentativa de homicídio e eu não peguei mais nenhuma falcatrua dele. Às vezes sinto até dó dele, parece que não tem ninguém e tenta se aproximar de mim a todo custo, mas sempre me lembro de todo o m*l que já nos causou e me repreendo mentalmente.
Permito que ele entre comigo e ele fica sentado em uma cadeira no canto do quarto, olhando para a Talita como quem torce para ela acordar. Toda energia positiva é bem-vinda, pelo menos nesse momento. Eu realmente espero que seja genuíno da parte dele.
Beijo a testa da minha mulher e percebo que tem algo de diferente nela, parece que está mais corada. Como sempre, abro o notebook ao lado da sua cama e começo a trabalhar, segurando a mão dela, até que percebo que ela se mexe. Isso não jamais tinha acontecido antes. Até que o inesperado acontece e ela começa a acordar.
Os primeiros momentos foram difíceis, eu não consigo controlar as minhas lágrimas e sinto meu coração bater cada vez mais forte. Ela fica meio desorientada e questiona bravamente a presença do Sávio naquele local. Peço de uma maneira pouco convencional que ele se retire e ele sai, chorando. Coisa que eu jamais imaginaria.
Explico brevemente as coisas para a Talita, até que ela precisa sair do quarto para fazer exames. Depois de algumas horas ela volta, e o médico me dá a notícia que eu mais precisava ouvir.
- Bom, Talita. Estamos felizes e surpresos que você acordou. Tivemos algumas preocupações nesse período, por conta da quantidade de veneno, os seus rins paralisaram, mas continuamos o tratamento, mesmo com você em coma. Você passou por várias sessões de hemodiálise e os seus rins voltaram, perfeitos como eram antes. Suas funções cognitivas estão ótimas, mas você precisará fazer fisioterapia por algum tempo. Como ficou muito tempo deitada, você perdeu muita massa muscular, mas tenho certeza de que logo irá recuperar. – Sinto um tom muito receptivo desse médico e já começo a ficar nervoso.
O olho com uma cara diferente, para ver se ele entende que não é para falar sobre o ab0rto, eu quero conversar disso com ela, com calma.
- No mais, o restante o seu marido irá te atualizar. Qualquer coisa estou a disposição. – Ele fala e coloca a mão no seu ombro.
- Obrigada, Dr... – A Talita responde e ele rapidamente sai da sala.
Vejo que ela se mexe na cama e não posso acreditar que ela vai tentar levantar sozinha, mesmo depois de todas as orientações do médico.
- O que você está fazendo? – Pergunto segurando o seu braço, que está mais fino do que o normal.
- Vou tomar um banho. – Ela responde com aquele jeitinho dona de si que só ela tem.
- Você não vai, não pode ainda.
- Ah, mas eu vou sim. Se você quiser me ajudar, tudo bem. Mas, eu vou. – Ela fala e eu vejo que essa batalha eu já perdi.
A personalidade não mudou em nada, pelo visto.
A ajudo a levantar e ela consegue andar sozinha, sem dificuldades. A teimosia dela é tão grande que dá até forças. Ela tira a roupa e senta na cadeira debaixo do chuveiro, eu a ajudo a lavar seu cabelos e em pouco tempo terminamos.
- Está se sentindo bem? Sua pressão já é baixa, nessas circunstâncias pode piorar. – Falo e ela enrola os cabelos na toalha e coloca o roupão.
- Sim, uma tontura leve só. – Quando ela fala da tontura, não perco tempo e a pego no colo. Levando de volta pra a cama que a moça da limpeza trocou enquanto ela tomava banho.
- Não precisa disso, eu consigo sozinha. – Ela diz segurando no meu pescoço e vejo que ela realmente ia passar m*l. Mulher teimosa do cac3te.
- Claro que conseguia, mas eu vou te ajudar. – Falo e ela penteia os cabelos sentada na cama e passa seus cosméticos.
- Bom, agora sim podemos conversar e eu quero saber tudo. – Ela fala e eu já começo a falar...