CAPÍTULO 21: O Senhor das Marés e o Eco da Solidão

1491 Words
POV – AURORA DUARTE ROSSI Chicago é uma cidade de concreto e aço, mas o que muitos esquecem é que ela é governada pelas águas do Lago Michigan. E ninguém conhece melhor essas águas do que Caleb Sterling. Eu o conheci em um evento beneficente em Mônaco, anos atrás. Caleb não é apenas o herdeiro da Sterling Shipping & Logistics; ele é o homem que controla o fluxo de entrada e saída de mercadorias no Meio-Oeste. Ele tem o charme de um pirata moderno e a frieza de um tubarão branco. Exatamente o que o Conselho precisa para elevar o nível do nosso jogo. Estávamos no píer particular da base, sob o luar prateado. O som das ondas batendo contra o casco do seu iate de fibra de carbono era o único ruído. Caleb estava encostado na balaustrada, usando um terno sob medida sem gravata, observando o horizonte de Chicago com um sorriso predatório. — Você me chamou para um jogo perigoso, Aurora — Caleb disse, sua voz era um barítono suave que parecia vibrar no ar. — Recrutar a mim não é apenas trazer navios. É trazer as chaves de todas as fronteiras que os Vanchini acham que possuem. — O Conselho não quer apenas seus navios, Caleb — aproximei-me, sentindo o magnetismo que sempre existiu entre nós. — Queremos a sua mente. Queremos a sua rede. E, pessoalmente, eu quero alguém que consiga acompanhar o meu ritmo. — Você sabe que eu nunca recuso um desafio seu — ele segurou minha mão, depositando um beijo demorado nos nós dos meus dedos. — Se o Conselho de 20 quer o Senhor das Marés, eles me terão. Mas você sabe o preço, Aurora. Minha lealdade é total, mas minha proteção sobre você será absoluta. POV – LORENZO ROSSI Eu observava a cena das câmeras de segurança da sala de controle. Ver Aurora com Caleb Sterling deveria me trazer uma sensação de alívio estratégico. Caleb era um trunfo inestimável. Mas, em vez disso, senti um peso no peito. Ao meu redor, na base, o cenário era o mesmo. Vinícius e Maya estavam em um canto do sofá na área comum. Ele estava lendo um relatório enquanto ela descansava a cabeça em seu ombro, os dedos dele acariciando o braço dela distraidamente. Havia uma paz ali, uma unidade que os tornava intocáveis. Arthur estava em uma chamada de vídeo com sua analista, e o brilho nos olhos dele não era apenas por causa dos números. Todos estavam se unindo. Todos estavam encontrando seu porto seguro. E eu... eu continuava sentado no meu trono de gelo, olhando para as telas. — Eles formam um belo par, não acha? — a voz de Vittoria soou atrás de mim. Ela estava encostada na porta, usando uma camisola de seda que deixava pouco para a imaginação, mas seus olhos estavam fixos nos meus através do reflexo do monitor. — Caleb é um aliado valioso — respondi, tentando manter a voz neutra. — Não fale de negócios agora, Lorenzo — ela caminhou até mim, colocando as mãos nos meus ombros. Senti o calor dela atravessar o tecido do meu terno. — Olhe para eles. Olhe para a Aurora. Ela encontrou alguém que não tem medo do poder dela. Por que você ainda tem medo do meu? — Eu já te disse, Vittoria — segurei os pulsos dela, afastando-as gentilmente, embora cada fibra do meu corpo quisesse puxá-la para o meu colo. — Eu não posso. Não enquanto os Vanchini estiverem respirando. — Você vai acabar sozinho no topo desse império, Arquiteto — ela sussurrou, e o tom de tristeza na voz dela me atingiu mais do que qualquer grito. — E quando você finalmente decidir que quer descer, talvez não haja mais ninguém esperando por você. POV – MAYA DUARTE LOMBARD O clima na mansão-base estava mudando. Não era mais apenas um quartel-general; estava se tornando um lar, e isso era assustador e maravilhoso ao mesmo tempo. Eu estava no meu quarto — que agora era, na prática, o quarto de Vinícius também. A porta estava trancada. O som da chuva lá fora era abafado pelas cortinas pesadas. Vinícius estava sentado na beira da cama, sem camisa, mostrando a cicatriz no ombro que eu ainda massageava todas as noites com óleos essenciais para ajudar na sensibilidade dos nervos. — Você está sendo muito silenciosa hoje, Doutora — Vinícius murmurou, puxando-me para entre suas pernas. — Estou apenas pensando no Lorenzo — confessei, passando as mãos pelo peito dele, sentindo os músculos firmes. — Ele está se fechando cada vez mais. Ele vê todos nós encontrando alguém e isso o está corroendo. — Lorenzo é um cabeça dura — Vinícius disse, inclinando-se para beijar meu pescoço, o que me fez soltar um suspiro trêmulo. — Ele acha que o poder se sustenta sozinho. Ele não entende que o que temos aqui... — ele parou de falar para me morder levemente a orelha — ...é o que nos dá forças para matar por este Conselho. O beijo que se seguiu foi quente e faminto. Vinícius me puxou para cima dele com a mão boa, e a urgência entre nós era uma chama que nunca parecia apagar. Cada toque, cada carícia, era uma celebração de que ele estava vivo. Em cima daquela cama, no meio do caos de Chicago, éramos apenas dois jovens apaixonados, explorando os limites do desejo e da entrega. O clima estava picante, carregado de uma i********e que apenas quem quase perdeu tudo consegue cultivar. POV – VINÍCIUS ORTEGA VITALE (Missão de Teste) Lorenzo exigiu uma prova de valor para Caleb Sterling. Ele não entraria no Conselho apenas por ser "amigo" da Aurora. Naquela mesma noite, recebemos a informação de que um carregamento de armas químicas dos Vanchini estava chegando pelo porto sul. — Caleb, mostre-nos do que você é capaz — Lorenzo ordenou pelo rádio. Eu estava no apoio tático com Lucas, mas quem liderava a operação era Caleb, com Aurora ao seu lado. O que vimos foi uma aula de logística e combate. Caleb não usou apenas força bruta. Ele hackeou os guindastes do porto, criando um labirinto de contêineres que isolou os mercenários dos Vanchini. Ele se movia pelas sombras com uma faca de mergulhador, silencioso e letal. Quando os homens tentaram fugir por mar, as lanchas rápidas de Caleb já estavam lá, cercando-os como lobos marinhos. Em menos de vinte minutos, o carregamento foi interceptado e os inimigos neutralizados. Sem um único disparo desnecessário. — Eficiente — Lorenzo comentou pelo rádio, sua voz tingida de uma admiração relutante. Caleb olhou para a câmera de segurança e piscou, enquanto Aurora sorria ao lado dele, limpando uma mancha de pólvora do rosto. POV – LORENZO ROSSI Quando eles voltaram para a base, a atmosfera era de vitória. Caleb Sterling foi oficialmente aceito. O Conselho agora tinha 13 membros oficiais, e os outros sete pares já estavam sendo sondados. A noite de gala estava chegando, o evento que marcaria a apresentação da "Nova Chicago". Todos estavam empolgados. Todos tinham alguém com quem ir, alguém para compartilhar o triunfo. Eu estava no meu escritório, revisando os convites, quando Vittoria entrou. Ela não disse nada. Apenas colocou um envelope preto na minha mesa. — O que é isso? — perguntei. — Meu convite para a gala — ela disse. — Recebi convites de três outros herdeiros que adorariam ter uma Vitale ao lado deles no tapete vermelho. Se você não vai me assumir, Lorenzo, eu não vou ficar sentada em um canto esperando. Senti uma fúria cega. A ideia de Vittoria entrando naquela gala no braço de outro homem era insuportável. — Você não vai com mais ninguém — eu disse, levantando-me com tanta rapidez que a cadeira caiu. — Ah, não? — ela arqueou uma sobrancelha. — E com quem eu vou? Com o Arquiteto que tem vergonha de me olhar nos olhos na frente do Conselho? — Vittoria... — tentei me aproximar, mas ela recuou. — Decida-se, Lorenzo. A gala é em três dias. O Conselho de 20 está nascendo, e todo mundo está encontrando seu par. Se você quer ser o líder que governa sozinho, prepare-se para me ver brilhar com outra pessoa. Ela saiu, e eu fiquei ali, cercado pelo luxo da minha base, sentindo-me mais pobre do que nunca. A presença de Caleb Sterling e Aurora apenas ressaltava o meu vazio. Eu era o homem que construía o futuro, mas meu presente era uma prisão de medo. Ao fundo, ouvi a risada de Maya e Vinícius vindo do corredor. A felicidade deles era um lembrete constante do que eu estava jogando fora. Eu olhei para o mapa de Chicago. Os Vanchini estavam caindo. O império estava crescendo. Mas, pela primeira vez na vida, a vitória parecia ter um gosto amargo. Eu precisava agir. Mas a pergunta que me assombrava era: eu teria coragem de quebrar o meu próprio vidro antes que fosse tarde demais?
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