POV – LORENZO ROSSI
O isolamento no meu apartamento particular não trouxe a paz que eu esperava. Pelo contrário, a presença constante e implacável de Vittoria apenas provou que minhas defesas eram porosas. Voltamos para a base no final da tarde de domingo, sob um céu de Chicago que parecia carregar o peso de uma tempestade iminente. O mármore frio e as luzes tecnológicas da mansão-base me acolheram, mas a atmosfera entre os doze membros já não era a mesma.
A união de Vinícius e Maya tinha plantado uma semente. Uma semente de necessidade. Eles não eram apenas um casal; eram uma unidade tática que operava com uma confiança que o resto de nós, em nossa individualidade solitária, começava a invejar.
Convoquei a reunião na sala circular de carvalho. Olhei para cada um dos onze rostos à minha frente.
— O isolamento acabou — comecei, minha voz ecoando com a autoridade recuperada, embora meus olhos evitassem os de Vittoria por um segundo a mais. — Mas nossa estratégia precisa mudar. Os Vanchini e seus aliados estão se ramificando. Se quisermos ser os donos desta cidade, precisamos de mais do que apenas nós doze. Precisamos expandir.
— Lorenzo tem razão — Arthur interveio, ajustando seus óculos e projetando um novo holograma no centro da mesa. — Nossas frentes financeira e jurídica estão sobrecarregadas. Precisamos de braços direitos, pessoas de poder que não sejam apenas funcionários, mas que tenham a pele no jogo tanto quanto nós.
Foi Isabella quem soltou a bomba que mudaria tudo.
— Não queremos apenas "recrutas", Lorenzo — ela disse, cruzando os braços com firmeza. — Vimos o que o Vinícius e a Maya se tornaram. Eles garantem a vida um do outro. Eles são uma muralha. Queremos o mesmo. O Conselho de 12 precisa se tornar o Conselho dos 20. Cada um de nós precisa de um par de poder. Alguém em quem possamos confiar nossa retaguarda nas lutas e nos negócios.
POV – VITTORIA ORTEGA VITALE
Eu observei a expressão de Lorenzo. Ele travou a mandíbula, os nós dos dedos ficando brancos sobre a mesa. Eu sabia o que ele estava pensando: mais pessoas significavam mais variáveis incontroláveis. Mais emoções. Mas ele também era um estrategista brilhante. Ele sabia que Isabella tinha razão.
— Um Conselho de 20? — Lorenzo murmurou, a voz carregada de ceticismo. — Vocês querem transformar uma unidade de elite em um... o quê? Um clã matrimonial?
— Não se trata de romance, Lorenzo, embora possa haver — Lucas rebateu, com um olhar sério. — Trata-se de sobrevivência. Eu e o Davi cuidamos da segurança, mas se um de nós cair, o outro fica vulnerável. Precisamos de pares que sejam tão letais quanto nós. Pessoas com influência política, militar ou tecnológica que se unam a nós por escolha e por pacto.
— Eu já tenho alguns nomes em mente — Aurora disse, seus olhos brilhando com a possibilidade de novas alianças sociais e estratégicas. — Pessoas de famílias influentes que estão cansadas da velha política e querem o novo mundo que estamos construindo.
Lorenzo suspirou, um som de derrota parcial. Ele olhou para mim. Ele sabia que, se aceitasse isso, o caminho para ele finalmente me assumir ficaria mais curto. E era exatamente por isso que ele estava lutando contra. O medo dele de me tornar seu ponto fraco era a única coisa que o impedia de dar o veredito.
— Tudo bem — Lorenzo disse finalmente, para a surpresa de todos. — Se vocês acreditam que a expansão para 20 membros é a chave para a aniquilação total dos nossos inimigos, eu aceito. Mas os critérios de recrutamento serão os mais rigorosos da história. Não aceitaremos ninguém que não tenha algo valioso a oferecer ao Conselho.
POV – MAYA DUARTE LOMBARD
Segurei a mão de Vinícius por baixo da mesa, sentindo um alívio imenso. Nossa união tinha aberto a porta para que os outros também buscassem sua felicidade e segurança. Olhei ao redor e percebi que a maioria já tinha "pares perfeitos" em vista — pessoas importantes que conhecemos em nossas viagens, em Curitiba, no Rio ou nas elites de Chicago.
Arthur já trocava mensagens criptografadas com uma analista de riscos do governo federal que odiava a corrupção.
Isabella tinha um promotor de justiça em sua mira, um homem que poderia legalizar cada movimento sombrio nosso.
Lucas e Davi já falavam sobre duas ex-operativos de forças especiais que conheciam cada bueiro de Chicago.
Benjamin falava sobre uma violoncelista russa que, na verdade, era uma das maiores hackers do leste europeu.
A Máquina estava crescendo. O Conselho de 12 estava prestes a se tornar uma dinastia de 20.
POV – VINÍCIUS ORTEGA VITALE
A reunião continuou pela noite adentro. Definimos os oito novos perfis. Seriam quatro homens e quatro mulheres de alto escalão.
— Vinícius e Maya já são o primeiro par — Lorenzo disse, marcando os nomes deles no painel digital. — Vittoria e eu... — ele hesitou, o ar na sala ficou tão tenso que era difícil respirar. — Nós continuaremos como a liderança estratégica, coordenando os novos pares.
— "Coordenando", Lorenzo? — Vittoria provocou, levantando-se e caminhando até ele. — Admita logo. O segundo par deste novo Conselho somos nós. Você e eu. A liderança não é feita de uma pessoa e uma sombra. É feita de um Rei e uma Rainha.
Lorenzo a encarou, e por um momento achei que ele fosse explodir ou, finalmente, beijá-la na frente de todos. Mas ele apenas desviou o olhar para o mapa de Chicago.
— O recrutamento começa amanhã — ele cortou, a voz fria como gelo. — Aurora, você cuida das abordagens sociais. Arthur, quero as fichas financeiras completas de cada candidato. Isabella, os contratos de lealdade precisam estar prontos. Se alguém trair este Conselho, o contrato deve garantir que eles percam tudo, inclusive a vida.
POV – LORENZO ROSSI
Eu os vi sair da sala em pares ou grupos, discutindo o futuro. Eu estava sozinho com Vittoria novamente. O silêncio da base era preenchido apenas pelo zumbido dos computadores.
Eu sabia que cada um ali já tinha seu par perfeito escondido na manga. Eles estavam apenas esperando a minha permissão para trazer essas pessoas para o nosso círculo íntimo. Eu via a felicidade de Vinícius e Maya, e isso me assustava. Se eles crescessem, se tornariam uma força que até eu teria dificuldade em controlar.
— Por que você ainda luta contra o óbvio, Lorenzo? — Vittoria perguntou, parando ao meu lado diante do grande mapa digital. — O Conselho de 20 é a sua maior obra. E você sabe que ele só estará completo quando você parar de me tratar como uma aliada temporária e me assumir como sua parceira de vida.
— Se eu te assumir, Vittoria, eu não posso mais ser imparcial — confessei, minha voz saindo rouca. — Eu não posso sacrificar ninguém se o sacrifício envolver você. E um líder precisa estar pronto para sacrificar tudo.
— Então não seja um líder solitário — ela tocou meu rosto, forçando-me a olhar para ela. — Seja o líder que governa ao lado de quem ama. O Vinícius se tornou um monstro em combate porque quer voltar para a Maya. Imagine o que você seria se lutasse por nós, e não apenas por um conceito de ordem.
Eu fechei os olhos, sentindo o calor da mão dela. Eu queria dizer sim. Queria anunciar para o mundo que Vittoria Ortega Vitale era a dona da minha alma. Mas o medo... o medo de vê-la sofrer por minha causa era uma prisão de vidro que eu mesmo construí.
— Vamos focar no recrutamento — eu disse, afastando-me suavemente. — Precisamos dos oito novos membros. O Conselho dos 20 precisa ser perfeito. Sem falhas. Sem fraquezas.
— Você é a sua própria falha, Lorenzo — ela disse, saindo da sala, o som de seus saltos ecoando como uma contagem regressiva. — Mas eu vou estar aqui quando o seu vidro finalmente quebrar.
POV – AURORA DUARTE ROSSI
Saí da base sentindo que uma nova era estava começando. O Conselho de 20 não era apenas uma expansão; era uma declaração de guerra ao mundo. Estávamos recrutando poder, beleza e inteligência. Estávamos criando uma elite que não respondia a nenhum governo.
Olhei para o meu celular e vi a mensagem do homem que eu pretendia trazer para o meu lado. Um herdeiro de uma frota de navios cargueiros, alguém que poderia mover qualquer coisa por qualquer fronteira.
"Estou em Chicago. Quando nos vemos?", dizia a mensagem.
"Amanhã. Noite de gala. Prepare-se, o mundo está prestes a mudar", respondi.
O Conselho estava crescendo. E em breve, Chicago não seria o limite. Seríamos globais. Mas no centro de tudo, eu sabia que a maior batalha ainda seria travada dentro do coração de Lorenzo Rossi. A expansão tinha começado, e nada — nem mesmo o Arquiteto — poderia parar a evolução do que éramos destinados a ser.