POV – LORENZO ROSSI
O silêncio do meu apartamento particular, no 45º andar de uma das torres que eu mesmo projetei, deveria ser o meu santuário. As linhas minimalistas, o mármore cinza e a vista panorâmica de Chicago eram o cenário perfeito para eu reorganizar meus pensamentos e enterrar a frustração de ter visto o controle do Conselho escapar por entre meus dedos com a união de Vinícius e Maya.
Eu precisava de distância. Precisava de lógica. Precisava de um mundo onde dois mais dois fossem sempre quatro, e não um caos emocional que fazia meu coração bater fora do ritmo.
Mas, ao abrir a porta da suíte master após um banho frio, percebi que o silêncio fora violado. O aroma de sândalo e jasmim flutuava no ar, cortando a esterilidade do ambiente.
— Você não deveria estar aqui, Vittoria — eu disse, sem precisar me virar. O reflexo dela no vidro da janela, segurando uma taça de vinho tinto e usando apenas um roupão de seda preta que eu sabia que pertencia a ela, era uma visão que desafiava qualquer sanidade.
— Você achou mesmo que o Arquiteto poderia se esconder da sua própria fundação? — ela perguntou, caminhando até mim com aquela leveza predatória. — O Conselho está operando sob o comando do Arthur e da Isabella por uns dias. Eu decidi que meu lugar era aqui, vigiando o líder que resolveu fugir para as colinas.
— Eu não fugi. Eu me retirei para focar no trabalho — respondi, indo até o closet para me vestir.
— Mentira — ela rebateu, seguindo-me. — Você fugiu porque o Vinícius e a Maya provaram que você não é o dono das emoções de ninguém. E você fugiu porque está com medo de que, se ficar perto de mim sem o Conselho por perto, você acabe fazendo exatamente o que eles fizeram.
Eu parei, com a camisa ainda aberta, e a encarei. — Você não entende, não é? Se eu assumir qualquer coisa com você, Vittoria, você se torna o alvo número um. Os Vanchini, os cartéis, todos eles saberão onde me atingir para que o império desmorone. Eu não sou um CEO comum. Eu sou o alvo. E eu não vou colocar uma mira no seu peito por causa de um desejo.
— Desejo? — ela riu, um som rouco e provocativo. — Lorenzo, nós passamos do desejo há muito tempo. Isso é sobrevivência. E se você acha que pode se esconder, eu vou te mostrar que, para uma Vitale, não existem portas trancadas.
POV – VITTORIA ORTEGA VITALE
Lorenzo Rossi era um homem de hábitos rígidos, mas ele estava prestes a descobrir que eu era a sua sombra persistente. Se ele achava que o apartamento particular seria o seu exílio, ele se enganou.
No dia seguinte, ele tentou ir para a filial da Rossi Enterprises no centro. Eu estava no banco de trás do carro antes mesmo de ele dar a partida.
— O que você está fazendo, Vittoria? — ele rosnou, olhando pelo retrovisor.
— Indo trabalhar — respondi, ajustando meu batom. — Alianças estratégicas exigem acompanhamento de campo, lembra?
Durante as reuniões, eu me sentava ao lado dele, cruzando as pernas e observando o modo como as executivas e secretárias o olhavam. Ele era o sol daquele prédio, e todas queriam um pouco de calor. Mas eu era o eclipse.
Toda vez que uma secretária tentava ser "atenciosa" demais, servindo café com um toque acidental no ombro dele, eu lançava um olhar que prometia o inferno. Lorenzo fingia não ver, mas eu sentia a tensão nos ombros dele. Ele estava se mordendo de ciúmes quando os diretores tentavam puxar conversa comigo, e eu devolvia o sentimento em dobro.
POV – LORENZO ROSSI (Noite em Chicago)
A tensão acumulada de três dias com Vittoria me seguindo como um fantasma sedutor estava me levando ao limite. Eu precisava de uma distração que não fosse ela. Decidi ir para uma das boates mais exclusivas do subsolo de Chicago, um lugar onde o Conselho não costumava frequentar, esperando encontrar o anonimato.
Vittoria, é claro, apareceu dez minutos depois de mim, usando um vestido vermelho que parecia ter sido pintado em seu corpo.
Eu estava no bar, bebendo um uísque puro, quando uma mulher loira, visivelmente uma acompanhante de luxo que frequentava o local, aproximou-se. Ela não sabia quem eu era, apenas via um homem rico e frustrado.
— Você parece precisar de companhia, bonitão — ela disse, passando a mão pelo meu braço e inclinando-se para o meu ouvido. — Que tal irmos para o camarote? Eu posso fazer você esquecer todos os seus problemas.
Eu não afastei. Parte de mim queria ver a reação de Vittoria. Eu queria provar que eu ainda tinha o controle, que eu podia ter qualquer uma. Mas o tiro saiu pela culatra.
O ar ao redor do bar pareceu esfriar vinte graus. Antes que eu pudesse responder à mulher, senti um vulto passar por mim. Vittoria não hesitou. Ela agarrou a mulher pelos cabelos loiros com uma força que fez a garota soltar um grito de surpresa.
— Escute aqui, sua i*****l — a voz de Vittoria era um sussurro letal que cortava a música alta. — Este homem não está no seu cardápio. Ele não está disponível para o seu nível, e se você encostar um dedo sequer no terno dele novamente, eu vou garantir que você nunca mais consiga trabalhar nesta cidade. Ou em qualquer outra.
— Quem você pensa que é? — a mulher balbuciou, tremendo.
— Eu sou o seu pior pesadelo — Vittoria soltou os cabelos dela com desprezo, empurrando-a para longe. — Agora suma antes que eu decida que você não precisa mais desses fios loiros.
A mulher saiu correndo, e o silêncio se instalou no bar entre nós dois. Vittoria virou-se para mim, os olhos faiscando de uma fúria possessiva que eu nunca tinha visto.
— Lorenzo Rossi, você pode tentar fugir, pode tentar se esconder atrás dessas mulheres baratas, mas deixe uma coisa bem clara na sua cabeça de arquiteto: você é meu. Por contrato, por sangue e por destino. Se eu tiver que arrancar os cabelos de cada mulher em Chicago para provar isso, eu farei.
— Você é louca — eu disse, embora meu coração estivesse martelando contra as costelas.
— Sou louca por você — ela rebateu, batendo a taça de champanhe no balcão. — E você está morrendo de medo porque sabe que eu sou a única que pode destruir as suas paredes. Você diz que tem medo que me usem para te derrubar? Lorenzo, eu sou a única coisa que está te mantendo de pé. Sem mim, você é apenas um robô em um terno caro.
POV – LORENZO ROSSI
Voltamos para o apartamento em um silêncio cortante. Eu entrei e fui direto para a varanda, olhando para as luzes da cidade. A adrenalina da cena na boate ainda corria nas minhas veias. A possessividade de Vittoria me assustava porque espelhava a minha própria.
Ela parou atrás de mim, mas não me tocou.
— Por que você não assume, Lorenzo? — a voz dela estava mais calma agora, quase triste. — Por que prefere viver nessa solidão de vidro?
— Porque eu vi o que acontece com quem ama no nosso mundo, Vittoria — respondi, sem me virar. — Meu tio Sebastián, sua mãe Valentina... todos eles pagaram preços altíssimos. O Conselho é a minha prioridade. Se eu me permitir sentir o que sinto por você, eu deixo de ser o Arquiteto. Eu me torno um homem vulnerável. E um homem vulnerável em Chicago é um homem morto.
— E o que é a vida sem isso? — ela perguntou, aproximando-se e, desta vez, encostando a testa nas minhas costas. — Você prefere ser um líder perfeito e vazio, ou um homem real que tem alguém para lutar ao seu lado? O Vinícius e a Maya escolheram. Por que você não pode escolher?
Eu fechei os olhos. A dor da resistência era física. Eu a amava. Eu a desejava a cada segundo de cada dia. Mas o medo de vê-la sofrer por minha causa, de vê-la ser usada como uma peça de troca pelos Vanchini, era a minha maior tortura.
— Eu não posso — sussurrei. — Não ainda.
Vittoria se afastou, e eu senti o frio do lugar onde o calor dela estava.
— Tudo bem, Lorenzo. Continue construindo seus muros. Mas lembre-se: eu sou uma Vitale. Nós não derrubamos muros apenas. Nós os atravessamos. Eu vou estar em cada reunião, em cada boate, em cada sombra sua. Até que você perceba que o seu maior erro não é me amar, mas achar que pode viver sem mim.
Ela saiu da sala, deixando-me sozinho com a vista de Chicago. Eu olhei para minhas mãos e vi que elas tremiam. Eu era o homem que planejava cidades inteiras, o líder do Conselho de 12, a máquina de Chicago. Mas ali, no alto daquela torre de vidro, eu percebi que Vittoria Ortega Vitale era a única estrutura que eu nunca seria capaz de controlar. E o medo de perdê-la era a única coisa mais forte do que a minha vontade de tê-la.
O Conselho poderia ser a minha criação, mas ela... ela era o meu destino. E o tempo da negação estava se esgotando.