CAPITULO 12

1286 Words
**CAPÍTULO 12** **ALANA** Acordei com a p***a do grave. Cinco e vinte da manhã. Sábado. O som veio de longe, mas bateu na janela do meu quarto como se tivesse dentro. Pum. Pum. Pum. Enterrei a cara no travesseiro. Não adiantou. A Divisa já tinha decidido que hoje ninguém ia dormir. Levantei arrastando os pés. O chão do quarto tava gelado. Passei a mão no cabelo, prendi de qualquer jeito. Olho inchado de plantão de ontem, olheira de quem vive de café e dipirona. Banho rápido. Água fria porque o chuveiro queimou de novo e eu não tive tempo de chamar alguém. Vesti a calça jeans de sempre, camiseta branca, jaleco na bolsa. Tênis gasto. Cabelo num coque frouxo que ia desmanchar antes das nove. Saí de casa às seis e quinze. A rua já não era minha. Pivete correndo com fio na mão. Homem pendurando luz pisca-pisca em beco. Cheiro de carvão acendendo. Moto sem descarga cortando a viela e deixando fumaça pra trás. Baile. Só de pensar já me dava cansaço. Desci o morro ouvindo o mesmo funk em três caixas diferentes, cada uma atrasada da outra. Uma bagunça. A Divisa em modo festa e eu em modo sobrevivência. Cheguei no posto às seis e quarenta. A porta de ferro tava aberta. Camila já tava lá, prendendo o cabelo em frente ao espelho rachado do banheiro. — Bom dia pra quem tem. Ela virou. Batom vermelho sete da manhã. — Bom dia, morta-viva. Dormiu? — Por cima. — Posto já tá cheio. Teve briga na madruga. Dois pontos num, curativo no outro. E adivinha? Acabou a anestesia. Suspirei. Larguei a bolsa no gancho. — A enfermagem vive de gambiarra. — Você vive de gambiarra. Eu vivo de fé. Vesti o jaleco. O tecido já era fino de tanto lavar. Botão faltando no meio. Mesmo assim, quando eu vestia, eu virava outra coisa. Não era a Alana cansada. Era a enfermeira. E enfermeira não tem direito de ter sono. A manhã voou. Curativo. Pressão alta. Criança com febre. Homem com corte feio na mão porque foi ajudar a montar o palco do baile e a madeira lascou. Lavei. Cortei. Suturai. Sorri quando não tinha vontade. Expliquei pela décima vez que dipirona não cura tudo. Onze horas, sentei um segundo pra tomar água. Camila puxou a cadeira pra perto. — Cê vai, né? Nem olhei pra ela. — Vou pra onde? — Não se faz de sonsa. Pro baile hoje. A Divisa inteira vai tá lá. Tomei a água. Gelada. Desceu raspando. — Eu vou tá aqui. Depois vou pra casa. Dormir. Que é o que gente normal faz. Camila bateu a caneta na mesa. — Gente normal também vive, Alana. Quando foi a última vez que você fez alguma coisa que não fosse trabalho? — Ontem. Trabalhei. — Engraçadinha. Ela levantou. Foi atender alguém. Me deu uma trégua de vinte minutos. Almoço foi marmita fria. Arroz, ovo, um pedaço de frango que eu não sabia se era de hoje ou de ontem. Comi na mesa da recepção, ouvindo o rádio da vizinha vazar pela janela. Só funk. O tema do dia. Duas da tarde, entrou um rapaz com o braço roxo. Inchado. — O que houve? — Nada não, dona. Só bati sem querer. Mentira. Marca de dedo. Mas eu não sou polícia. Limpei, fiz a tipóia, liberei. Quando ele saiu, Camila voltou pro ataque. — Ele ia pro baile. Todo mundo vai pro baile. Só falta você. — Camila, eu não tenho saco. — Tem não. Cê tem é medo. Parei de escrever no prontuário. — Medo de quê? — De gostar. De sair da rotina de casa-posto, posto-casa. De lembrar que você é mulher, não só enfermeira 24 horas. A palavra bateu. Casa-posto. Posto-casa. Era isso mesmo. Minha vida cabia numa linha reta. Sem curva. Sem desvio. Fiquei quieta. Ela achou que ganhou. — Pensa nisso. Quatro e meia, o movimento caiu. Sábado o povo prefere passar m*l depois que o baile começa. De dia, aguenta. Comecei a tirar o jaleco. Costas doendo. Pés latejando. Cabelo desmanchado, mecha grudada na testa de suor. Camila veio de novo. Batom retocado. Brinco de argola. Já pronta. — Última chance. Vamos, amiga. Por favor. Olhei pra ela. Pro espelho rachado. Pra minha cara de acabada. — Camila... — Sem desculpa. Você não tem plantão amanhã. Sua mãe tá bem. Você não deve nada pra ninguém hoje. Revirei os olhos. Soltei o ar pelo nariz. — Tá. Ela parou. — Tá? — Tá. Mas vai ciente que eu tô indo por insistência sua. Se eu bocejar na sua cara às nove, a culpa é tua. Camila sorriu. De orelha a orelha. — Melhor que nada. Melhor que nada, Alana. — Me espera na praça às oito. E se chover, eu volto. — Não vai chover. Deus tá do meu lado hoje. Desci o morro às cinco e dez. O sol ainda batia, mas fraco. O céu tava laranja. O cheiro de churrasco já dominava tudo. E o grave. Sempre o grave. Agora não era mais teste. Era convocação. Cheguei em casa, a chave nem rodou direito e eu já ouvi a TV. Minha mãe tava no sofá. Coberta até a cintura, novela ligada, xícara de chá na mesa. — Oi, mãe. Ela virou o rosto. Óculos no meio do nariz. — Chegou, filha. Tava te esperando pra esquentar a janta. Larguei a bolsa no chão. Fui até ela. Ajoelhei na frente do sofá. Abracei. Ela cheirava a creme e a casa. — Mãe... acho que eu vou no baile hoje. Ela se afastou um pouco pra me olhar. Procurou mentira no meu olho. Não achou. Aí sorriu. Devagar. Um sorriso que desarmava qualquer guerra. — Vai, minha filha. Vai divertir. Você merece. Nem lembra mais como é ser jovem. A garganta fechou. Engoli. — Cê não acha errado? — Errado é você enterrada viva nessa casa. Vai. Põe uma roupa bonita. Volta antes do dia clarear, só pra eu não ficar preocupada. Beijei a testa dela. — Prometo. Levantei. Fui pro quarto. Tranquei a porta. Encostei nela e fiquei ali uns segundos. Só respirando. Depois liguei o chuveiro. A água demorou pra esquentar. Quando veio, veio pelando. Deixei bater na nuca, nos ombros, nas costas. Fechei o olho. A água levou o cheiro de hospital. Levou o sangue. Levou a semana. Lavei o cabelo com calma. Passei a mão nos fios, desembaracei com os dedos. Xampu. Condicionador. Nada de pressa. Hoje eu tinha tempo. Hoje eu não era de ninguém. Demorei. De propósito. Saí do banheiro enrolada na toalha branca. O espelho tava embaçado. Desenhei um risco com o dedo e me olhei. Tava cansada. Mas tava viva. Pisei no quarto. O vapor veio junto. Abri a janela pra entrar ar. O som do baile subiu na hora. Já tinha voz no microfone, testando. Riso. Garrafa estourando longe. Andei até o guarda-roupa. Porta de correr, espelho trincado no canto. Parei na frente. Mão na toalha, segurando no peito. Abri o guarda-roupa. De um lado, calça jeans. Camiseta larga. O uniforme da Alana que não quer ser notada. Segura. Invisível. Do outro, um vestido preto. Simples. De alcinha. Comprei ano passado e nunca usei. Etiqueta ainda tava lá, escondida na costura. Eu passava a mão nele toda vez que escolhia roupa e nunca tinha coragem. Hoje o vestido me olhou de volta. Mordi o lábio. Lá fora, o grave bateu mais forte. A Divisa inteira pulsando. Chamando. E eu ali. Toalha no corpo. Cabelo pingando no chão. Gota por gota. Mão pairando no ar, entre a segurança e o risco. Entre a enfermeira e a mulher. Fechei o olho um segundo. Quando abrisse, eu ia ter que escolher.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD