CAPITULO 11

1332 Words
**CAPÍTULO 11** **MORTE** Acordei com o morro gritando. Cinco e quarenta da manhã. Sábado. O despertador nem teve chance. A primeira caixa de som ligou às cinco e quinze, testando grave. Trepidou a parede do meu quarto. Levantei puto. Tomei banho frio. Me vesti. Preto. Sempre preto em dia de baile. Facilita se precisar sumir no escuro. Desci a escada e a rua já era outra. A Divisa não dormiu. A Divisa nunca dorme antes de baile. Pivete passava correndo com rolo de extensão no ombro. Dois caras arrastavam grade de ferro. Cheiro de carne no fogo subindo de algum beco. Moto sem placa cortava a viela estourando escapamento. Tudo antes das seis. Peguei o café na cozinha. Dona Lurdes já tinha coado e saído. Deixou o bilhete de sempre na mesa: *Come alguma coisa, menino. Você não é de ferro.* Amasssei o papel. Tomei o café puro. Queimou a garganta. Bom. Gosto de lembrar que ainda sinto alguma coisa. Botei o pé na rua e o clima mudou. Era automático. O moleque que gritava palavrão calou no meio da frase quando me viu. A mulher que varria a porta abaixou a cabeça. Dois caras de moto desligaram o som. Ninguém me desejou bom dia. Bom dia é coisa pra gente comum. Andei. Primeira parada: entrada do morro. Tinha três novos na segurança. Moleque novo demais, peito estufado, camisa da organizada, boné torto. Braço tatuado com coisa que ele nem sabia o significado. Ele tava parado no meio do beco, bloqueando a passagem de uma senhora com sacola de mercado. Parei a dois passos dele. Não falei nada. Ele demorou três segundos pra sentir. Virou. O rosto perdeu a cor. — Chefe. — Sai da frente. — Eu só tava... — Sai da frente antes que eu resolva que você não serve nem pra olhar rua. Ele saiu. A senhora passou. Não me agradeceu. Melhor assim. Segui andando. Segunda parada: depósito. O portão de ferro tava aberto. Lá dentro, caixa de bebida empilhada até o teto. Vodka, whisky, energético. Dinheiro que vira líquido e volta dobrado. O fornecedor tava lá. Barriga grande, cordão de ouro, camisa suada. Veio de fora da Divisa. Achou que sábado era dia de se aproveitar. — Morte. A gente precisa conversar sobre o preço. Parei na frente dele. Braços cruzados. — Não precisa. — É que subiu pro cê também. A crise, o combustível... — O preço que eu fechei segunda continua valendo hoje. Ou cê tira sua mercadoria daqui agora e nunca mais pisa na Divisa. Ele suou mais. Olhou pro lado. Os homens dele não encostaram a mão em nada. — Tá certo. Foi só um m*l-entendido. — Não gosto de m*l-entendido. Principalmente no meu chão. Ele engoliu seco. Assentiu. Resolvido. Saí do depósito e peguei o caminho da laje principal. O baile ia ser lá. Quatro andares de cimento, visão pra comunidade inteira. Se desse merda, eu via de cima. No meio do caminho, Pitbull me achou. Tava sem camisa. Corrente no pescoço. Sorriso de quem já tinha virado duas. E eram sete da manhã. — Chefe! Tá sentindo o clima? — Tô vendo você bêbado antes do sol. Ele riu. Alto demais. — p***a, é sábado! O morro tá vivo! Hoje a gente faz história. Parei. Olhei no olho dele. — Hoje a gente não faz história. Hoje a gente não deixa ninguém morrer. Entendeu a diferença? O sorriso dele murchou um dedo. — Entendi. — Então vai pro portão. Quero você lá até eu mandar sair. E se encostar num copo antes das dez da noite, eu mesmo te quebro. Ele bateu no peito. — Tá fechado, Morte. Saiu pesado, pisando duro. Pelo menos ia obedecer. Subi a laje. De cima, a Divisa era um formigueiro. Fio emaranhado pra todo lado. Lona azul sendo esticada. Homem soldando ferro pra grade. Mulher passando pano no chão que em duas horas ia tá preto de pisada. Tudo acontecendo porque eu deixei. Tudo podendo parar se eu quisesse. Coruja já tava lá. Caderno na mão. Caneta atrás da orelha. Cara de quem dormiu três horas e sonhou com problema. — Demorou. — Tô adiantado. Ele bufou. Apontou pro caderno. — Entrada: dois portões. Revista nos dois. Mulher revista mulher. Homem revista homem. Sem exceção. Nem pra polícia. Assenti. — Armamento? — Guardado. Só gente de confiança sabe onde. Se alguém puxar, é porque eu deixei. — Rota de fuga? — Beco da escola. Casa da Dona Zica. Telhado do mercadinho. Tudo limpo. Testei ontem. — Dinheiro? — Caixa fica com o n**o. Dois fazendo a volta cada hora. Se faltar um real, eu arranco o couro. Fechei os olhos um segundo. Respirei. O barulho lá embaixo tava me irritando. Funk estourado, grito, martelo, moto. Tudo ao mesmo tempo. Tudo alto demais. Senti a veia do pescoço pulsar. Coruja percebeu. Fechou o caderno. Me encarou. — Cê tá precisando relaxar, Miguel. Abri o olho na hora. — Não me chama assim aqui em cima. Ele não baixou a cabeça. — Tá todo mundo vendo. Cê tá um pavio curto desde segunda. Qualquer merda cê resolve no ódio. Cheguei mais perto. Um passo. — Eu nunca relaxo. — Todo mundo precisa. — Morte não tira folga, Coruja. Se eu relaxo, alguém morre. Se eu respiro fundo, alguém acha que pode me testar. E quando me testam, o morro sangra. Cê quer isso? Ele segurou meu olhar. Por três segundos. Depois desviou. Pegou o caderno de novo. — Não. — Então faz seu trabalho. E deixa eu fazer o meu. O silêncio ficou entre nós. Pesa mais que grito. Desci da laje. Rodei o morro inteiro nas duas horas seguintes. Olhei cara por cara. Conferi saco de gelo. Testei a luz. Mandei trocar o cara do portão dois porque tava mascando chiclete em serviço. Não existe detalhe pequeno. Detalhe pequeno vira corpo no chão. Meio-dia o sol já batia forte. Camisa grudando nas costas. Garganta seca. Paciência acabando. Parei na esquina da rua de baixo. De lá eu via três coisas: a fila do gelo, a boca funcionando normal e o posto de saúde. O posto tava aberto. Vi a porta bater. Alguém saiu de branco. Não deu pra ver quem. Não quis ver. Desviei o rosto. Olhei pro outro lado. O peito fechou sozinho. Raiva. Não dela. De mim. Por ter olhado. Voltei a andar. Quatro da tarde eu tava de novo na laje. O baile começava em cinco horas. O morro agora era outro. Luz sendo testada. Pisca pisca vermelho no beco. Gente tomando banho de mangueira na rua. Criança correndo com chinelo na mão. E eu no meio de tudo. Sem fazer parte de nada. Coruja subiu de novo. Me entregou um rádio. — Tá tudo pronto. Peguei. Botei na cintura. — Quantidade? — Segurança: trinta. Na entrada, na laje, no beco. Droga: contada. Bebida: contada. Dinheiro: contado. — Se entrar polícia? — A gente some. Rota limpa. Sem tiro se eu puder evitar. — E se não puder? Ele me olhou. — Aí cê decide. Sempre eu. A cidade inteira acha que manda em alguma coisa. Prefeito. Vereador. Capitão. Mentira. Aqui em cima, só tem uma lei. E a lei tem meu apelido. Olhei lá pra baixo. O morro todo se arrumando. Se pintando. Se preparando pra esquecer da vida por uma noite. Uma noite que eu não esqueço nunca. Porque se der errado, o erro é meu. Se morrer alguém, o sangue vem me cobrar. Uma luz piscou no beco da esquerda. Duas vezes. Curto. Apagou. Conheço esse sinal. Urubu. Alguém de fora. Cheirando. Testando. Encostei na mureta da laje. O vento bateu quente no rosto. Lá de cima eu via tudo. As vielas. As casas. As vidas. Tudo dependendo de eu não falhar. Sábado sempre traz urubu. E eu sou o coveiro. Apertei o rádio na mão. — Começa a revista agora. Ninguém entra sem eu ver a cara. Desci o último degrau. O baile ia começar. E a Morte tava trabalhando.
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