CAPÍTULO 5
ALANA
Dormir foi impossível.
Não porque tinha acontecido alguma coisa extraordinária.
Mas porque minha cabeça simplesmente se recusou a desligar.
Passei boa parte da madrugada olhando para o teto do quarto enquanto a chuva fina batia na janela e o Morro da Divisa fazia o que sempre fazia: continuar vivendo.
Moto passando.
Música distante.
Gente discutindo.
Cachorro latindo.
E em algum momento da noite, tiros.
Sempre tiros.
O problema não era o barulho.
Eu cresci ouvindo aquilo.
O problema era a conversa que tive com Miguel.
Ou com a Morte.
Ainda não sabia qual nome fazia mais sentido.
Fechei os olhos tentando esquecer a cena.
A forma como ele tinha me encarado.
O jeito que ficou em silêncio quando falei que a violência não tinha resolvido ele.
Aquilo tinha acertado alguma coisa.
Eu tinha visto.
E desde então aquilo me incomodava.
Porque monstros não ficam em silêncio quando você acerta uma ferida.
Monstros simplesmente continuam sendo monstros.
Suspirei irritada comigo mesma.
Levantei da cama antes que minha mente começasse a criar perguntas que eu não queria responder.
Às sete da manhã eu já estava no posto.
O cheiro de café recém-passado misturado com álcool e remédio dominava o ambiente.
Camila organizava algumas fichas atrás do balcão.
— Cara de quem não dormiu.
— Você também.
— Pelo menos eu tenho desculpa.
Revirei os olhos.
Ela riu.
A manhã começou corrida.
Como sempre.
Primeiro chegou uma gestante.
Juliana.
Dezenove anos.
Primeira gravidez.
Nervosa.
Sentou na minha frente segurando a barriga enquanto mexia nos dedos sem parar.
— Tá tudo bem?
— Acho que sim.
Acho.
A palavra que mais assusta profissional da saúde.
Passei quase meia hora conversando com ela.
Explicando exames.
Alimentação.
Cuidados.
No final ela saiu mais tranquila.
Ou pelo menos parecia.
Pouco depois chegou uma criança chorando.
Joelho ralado.
Sangue escorrendo pela canela.
Nada grave.
Mesmo assim parecia o fim do mundo na cabeça dele.
— Vai arder?
— Um pouquinho.
— Eu sabia.
Sorri sem querer.
— Corajoso desse tamanho e com medo de um curativo?
— Não tenho medo.
— Claro que não.
Ele ficou emburrado.
Cinco minutos depois já tinha esquecido completamente do machucado.
Crianças têm esse poder.
Seguem em frente.
Coisa que adulto raramente consegue.
O terceiro atendimento foi um senhor hipertenso.
Seu Antônio.
Sessenta e oito anos.
Teimoso igual uma pedra.
— O senhor tá tomando o remédio?
— Tô.
— Todo dia?
Silêncio.
Pronto.
Resposta dada.
Passei os próximos vinte minutos brigando com ele igual fazia toda semana.
Quando finalmente saiu do consultório, prometendo que agora ia se cuidar, eu já estava exausta.
E ainda nem era meio-dia.
Foi então que apareceu uma mulher chorando.
Desesperada.
O rosto inchado.
Olhos vermelhos.
Ela sentou na minha frente sem conseguir falar direito.
— Calma.
Respira.
Demorou alguns minutos.
Até que finalmente conseguiu.
— Meu filho…
A voz falhou.
— O que aconteceu?
— Ele quer largar a escola.
Meu coração apertou.
Porque eu já sabia o resto.
— Quer trabalhar com os meninos.
Silêncio.
Ela começou a chorar de novo.
Eu conhecia aquele olhar.
Já tinha visto dezenas de vezes.
Talvez centenas.
Era o olhar de quem sentia o filho escapando pelos dedos.
E não sabia como impedir.
Passei quase uma hora conversando com ela.
Tentando ajudar.
Tentando oferecer alternativas.
Mas no fundo eu sabia.
Às vezes o morro escolhia antes mesmo da pessoa perceber.
E isso era uma das coisas que eu mais odiava naquele lugar.
Quando finalmente consegui uma pausa, Vanessa apareceu.
Claro que apareceu.
Vanessa parecia ter radar para momentos de descanso.
Entrou já puxando uma cadeira.
— Menina.
— O que foi agora?
— Você sabia que o Miguel já salvou uma família inteira?
Levantei os olhos devagar.
— Não.
— Pois salvou.
Bufei.
— Vanessa…
— Tô falando sério.
Cruzei os braços.
Ela adorava uma história.
Mas algo na expressão dela parecia sincero.
— Conta então.
Vanessa apoiou os cotovelos na mesa.
— Uns anos atrás teve um incêndio perto da parte alta da comunidade.
Lembro vagamente.
Continuei ouvindo.
— Uma casa pegou fogo.
A família tava presa dentro.
O bombeiro demorou.
Ninguém conseguia entrar.
— E daí?
— Miguel entrou.
Fiquei quieta.
— Entrou no meio do fogo?
— Dizem que sim.
Saiu carregando uma criança primeiro.
Depois voltou.
E tirou os outros.
Balancei a cabeça.
— Parece exagero.
— Pode até ser.
Mas metade do morro fala a mesma coisa.
Aquilo ficou preso na minha cabeça mais do que eu gostaria.
Porque não combinava com a imagem que eu tinha dele.
Ou talvez combinasse.
E esse era justamente o problema.
No começo da tarde conheci Dona Lurdes melhor.
Ela apareceu no posto com um vestido florido simples e um sorriso que parecia iluminar qualquer lugar.
— Boa tarde, minha filha.
— Boa tarde.
Ela sentou devagar.
— Vim buscar meus remédios.
Enquanto organizava a medicação, começamos a conversar.
E rapidamente entendi de onde vinha a força daquela mulher.
Ela falava de tudo.
Da juventude.
Da comunidade.
Da vida.
Mas principalmente do neto.
Não da Morte.
De Miguel.
— Ele era tão magrinho quando era pequeno.
Sorri sem querer.
Aquilo parecia impossível de imaginar.
— Sério?
— Parecia um graveto.
Ri.
Dona Lurdes riu também.
— Sempre foi teimoso.
— Continua sendo.
— Eu sei.
Os olhos dela ficaram mais suaves.
— Mas tem um coração melhor do que as pessoas pensam.
Não respondi.
Porque não sabia o que dizer.
Ela percebeu.
Claro que percebeu.
— Você não acredita.
— Eu não disse isso.
— Mas pensou.
Suspirei.
— É difícil separar as coisas.
Dona Lurdes ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois falou baixo:
— Às vezes também é difícil pra ele.
Aquilo me pegou desprevenida.
Porque pela primeira vez alguém falava de Miguel como pessoa.
Não como lenda.
Não como dono do morro.
Não como homem perigoso.
Como neto.
Como alguém que também carregava peso.
Quando ela foi embora, continuei pensando naquela conversa.
Mais do que deveria.
O resto da tarde passou rápido.
Quando percebi, o céu já estava escurecendo.
As ruas começavam a ficar vazias.
O movimento diminuía.
E eu finalmente estava fechando o posto.
O corpo inteiro doía.
A cabeça também.
Tranquei uma das portas.
Depois outra.
Foi então que ouvi o som de uma moto.
Levantei os olhos.
E vi.
Miguel.
Parado do outro lado da rua.
Esperando.
Não por mim.
Por Dona Lurdes.
Ela apareceu logo depois sorrindo.
— Meu neto veio me buscar.
Claro que veio.
Por algum motivo aquilo não me surpreendeu.
Miguel ajudou a avó a subir na moto.
Com cuidado.
Um cuidado que eu nunca imaginaria nele.
Dona Lurdes me deu tchau antes de colocar o capacete.
— Até amanhã, minha filha.
— Até amanhã.
Miguel ligou a moto.
Mas antes de sair, olhou para mim.
Só por um instante.
Depois falou:
— Já tá indo pra casa sozinha?
Uma pergunta simples.
Comum.
Mas vinda dele parecia diferente.
Estranha.
Quase uma preocupação.
Cruzei os braços.
— Vou.
Ele assentiu.
Só isso.
Nenhum comentário.
Nenhuma provocação.
Nenhum sorriso.
Então acelerou.
A moto desapareceu pela ladeira junto com Dona Lurdes.
E eu fiquei parada observando.
Pensando.
Tentando entender.
Porque quanto mais eu conhecia Miguel, mais difícil ficava encaixar ele dentro da imagem que eu tinha criado.
E talvez aquele fosse o verdadeiro problema.
Talvez o problema não fosse o homem que todos enxergavam.
Talvez o problema fosse o homem que ninguém enxergava.