Capítulo 6

1138 Words
CAPÍTULO 6 MORTE Eu dormi m*l. De novo. Não que isso fosse novidade. Fazia anos que dormir tinha deixado de ser descanso e virado apenas uma obrigação do corpo. O problema daquela noite não foram tiros. Nem rádio. Nem preocupação com a comunidade. Foi uma frase. Uma única frase. “Violência nenhuma resolveu você.” Abri os olhos antes do amanhecer e fiquei encarando o teto escuro do quarto. A voz da Alana ainda ecoava na minha cabeça. Aquilo me irritava. Porque eu não costumava carregar conversas comigo. As pessoas falavam. Eu esquecia. Sempre foi assim. Mas aquela mulher tinha o dom irritante de falar exatamente onde doía. Levantei da cama antes que minha cabeça começasse a viajar por caminhos que eu não queria percorrer. O céu ainda estava cinza quando saí para a varanda. Lá embaixo, o Morro da Divisa despertava aos poucos. Padaria abrindo. Moto passando. Mãe levando filho para a escola. Gente tentando viver. Observei tudo em silêncio. Às vezes eu me perguntava quantas pessoas olhavam para mim e enxergavam apenas o apelido. Provavelmente todas. Talvez fosse melhor assim. Miguel cometia erros. A Morte não. Desci para a rua pouco depois das sete. Os moradores cumprimentavam de longe. Alguns apenas balançavam a cabeça. Outros atravessavam para o outro lado da rua. Nada novo. Parei perto da praça improvisada da comunidade. Menor Davi estava sentado num banco. Mas, pela primeira vez em muito tempo, não segurava rádio. Nem parecia preocupado. Estava jogando bola com outras crianças. Rindo. Como um garoto da idade dele deveria fazer. Fiquei observando alguns segundos. Aquilo trouxe uma lembrança que eu não queria. Eu também já tive aquela idade. Também já corri atrás de bola. Também já achei que o mundo terminava quando o joelho ralava no asfalto. Até a vida mostrar que existiam dores muito maiores. Balancei a cabeça afastando o pensamento. Memória era uma armadilha. Continuei andando. Por volta das dez da manhã fui visitar Dona Lurdes. Minha avó estava sentada na varanda tomando café. Assim que me viu, sorriu. — Sabia que você vinha. — A senhora fala isso toda vez. — E sempre acerto. Sentei na cadeira ao lado dela. Ficamos alguns minutos em silêncio. Ela observando o movimento da rua. Eu observando ela. — Tá pensativo. Revirei os olhos. — A senhora consegue ler mente agora? — Não preciso. Você tem a mesma cara que fazia quando era menino e aprontava alguma coisa. Ri sem humor. — Faz muito tempo que deixei de ser menino. Ela ficou séria. — É justamente isso que me preocupa. Antes que eu respondesse, uma mulher apareceu correndo pela rua. Desesperada. Chorando. Reconheci imediatamente. Era Márcia. Morava algumas casas abaixo. Ela quase tropeçou ao entrar no quintal. — Miguel! Levantei na hora. — O que aconteceu? Ela m*l conseguia falar. — A Ana Clara… Meu coração apertou sem motivo. — O que tem ela? — Ela não voltou da escola. Silêncio. A expressão da minha avó mudou imediatamente. — Como assim não voltou? Márcia começou a chorar. — A aula acabou faz horas. As amigas chegaram em casa. Ela não. O desespero na voz daquela mulher era real. Cru. Doloroso. Olhei para Dona Lurdes. Ela me encarava. Sabia exatamente o que estava pensando. — Miguel. Suspirei. — Eu já sei. Saí do quintal sem dizer mais nada. Durante os minutos seguintes, a notícia se espalhou pela comunidade inteira. Uma menina de nove anos desaparecida. Ninguém pensava em outra coisa. As ruas começaram a se movimentar. Moradores procurando. Familiares perguntando. Pessoas se oferecendo para ajudar. O medo crescia a cada minuto. Porque toda mãe sabe que quanto mais o tempo passa, pior fica. Passei a tarde inteira andando pela comunidade. Perguntando. Observando. Tentando montar o caminho da menina. Ela tinha saído da escola. Passado pela mercearia. Depois disso ninguém tinha certeza de mais nada. O sol já começava a cair quando decidi passar no posto. Talvez alguém tivesse visto alguma coisa. Quando entrei, encontrei Alana organizando algumas fichas. Ela levantou os olhos. Por um instante pareceu surpresa. — Aconteceu alguma coisa? — A menina desaparecida. Ela largou as fichas imediatamente. — Ana Clara? Assenti. — Você conhece? — Atendi ela mês passado. Meu maxilar travou. Claro que conhecia. Alana parecia conhecer metade da comunidade. — Alguma notícia? — Ainda não. Ela ficou em silêncio por alguns segundos. Preocupada. Realmente preocupada. Não era atuação. Não era curiosidade. Era preocupação genuína. — Eu vou perguntar para algumas mães que passaram aqui hoje. Assenti. Ficamos alguns segundos sem falar. Algo raro. Normalmente nossas conversas terminavam em discussão. — A mãe dela está desesperada — falei. — Eu imagino. Olhei para ela. — Você também parece preocupada. Alana cruzou os braços. — Porque ela é uma criança. Como se isso explicasse tudo. Talvez explicasse mesmo. Ela desviou o olhar. — Espero que encontrem logo. Eu também. Mas não disse isso. Saí do posto pouco depois. A busca continuou. As horas passaram devagar. Escuras. Pesadas. Até que quase nove da noite alguém gritou meu nome na rua. Corri até a entrada de uma viela. Uma multidão já se formava. E no meio dela estava Ana Clara. Assustada. Suja. Mas viva. A mãe caiu de joelhos chorando antes mesmo de alcançar a filha. Abraçou a menina como se nunca mais fosse soltar. As duas choravam. A comunidade inteira parecia respirar novamente. Descobriram que ela tinha seguido um cachorro que encontrou na rua e acabou se perdendo numa área afastada próxima de um terreno abandonado. Nada pior tinha acontecido. Graças a Deus. Observei a cena de longe. Sem me aproximar. Sem interferir. Algumas histórias não precisavam de mim. Foi então que percebi alguém ao meu lado. Alana. Ela também observava mãe e filha. Silenciosa. Por alguns segundos nenhum dos dois falou. Não era necessário. A emoção daquela cena dizia tudo. A mãe beijava o rosto da filha. Os moradores sorriam aliviados. Alguns choravam. Outros agradeciam em voz alta. Vida. Era isso. Vida. Coisa que eu passava tanto tempo vendo se perder que quase esquecia como parecia quando era preservada. Alana suspirou. — Encontraram. — Encontraram. Ela sorriu de leve. Não para mim. Para a cena. Mesmo assim alguma coisa mudou dentro do meu peito. Uma sensação estranha. Difícil de explicar. Talvez fosse porque fazia muito tempo que eu não via alguém comemorar algo tão simples. Ou talvez fosse porque, pela primeira vez, eu e ela estávamos olhando para a mesma coisa e sentindo exatamente o mesmo. Quando nossos olhos finalmente se encontraram, não houve discussão. Nem provocação. Nem julgamento. Só silêncio. E respeito. Uma coisa pequena. Quase invisível. Mas nova. Muito nova. E enquanto a comunidade comemorava o retorno daquela menina, tive a estranha sensação de que alguma coisa estava começando a mudar. Não no morro. Não na vida. Em mim. E isso me assustava mais do que qualquer coisa.
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