Me sentia desconfortável em entrar em um carro desconhecido e segui para um lugar ainda mais desconhecido, mas a sorte de ser filha de militar e viver sobre uma família militar e que você vive de códigos. Antes mesmo de sair do prédio enviei uma mensagem para Lê avisando onde iria, o detalhamento da vaga e o meu suposto “protetor” em sua resposta foi: “Boa sorte prima, te vejo” sempre quando dizemos “te vejo” e um sinal de que se em 2 horas não der notícias ela iria notificar meus pais, bom torceria para dar tudo certo.
Sai pela recepção passando pelo porteiro lhe entreguei o cartão de visitante, ele apontou para a porta e um homem de terno preto esperava ao lado de um Mercedes. Ele parecia um daqueles mafiosos estilo clássicos, a única coisa que mudava eram os cabelos branco. Assim que passei da porta giratória, senti um tremendo friozinho na barriga, pude ouvir o som dos meus saltos quando pelo concreto do chão e o sol que começava a aparecer naquela manhã, algo naquele dia prometia surpresas ou um diferencial que afetaria minha vida por inteiro. Estava entrando em um território desconhecido onde se caso caísse não teria ninguém para segurar minha mão e me levantar, teria que aprender sozinha a me erguer e seguir em frente. Bom, era para isso que saí de casa e fui para bem longe dos meus pais não é? Para me arriscar e aprender a fazer as coisas sozinha.
Assim que me aproximei o homem esboçou um sorriso e abriu a porta.
— Bom dia Srta. Albuquerque, sou o Jack motorista do senhor Ryan.
— Oh, prazer — estendi a mão para o homem, que olhou franzindo o cenho.
Recolhi a mão envergonhada entrando no carro, ele fechou a porta e correu até o assento do motorista, segundos depois o carro estava em movimento. Olhei o envelope na minha mão o nome Protetor Ryan estava digitado e em baixo vinha o meu Ivy Mia Albuquerque, quem quer que fosse esse Ryan tinha muito dinheiro e poder para ter seu próprio motorista, até onde vi em filmes quem tinha meu próprio motorista ou eram mafioso criminosos ou podre de rico. Me inclinei um pouco.
— O senhor trabalha muito tempo para o senhor Ryan?
— Me chame de Jack — disse— tempo suficiente.
— É como ele é? — perguntei tentando arrancar qualquer que fosse uma informação sobre o tipo.
— A senhorita verá com seus próprios olhos — respondeu seco, e sabia que dele não arrancaria nada.
O caminho que se seguiu foi silencioso, segurei firme o envelope com um desejo que abri-lo e saber o que estava escrito, não conseguia pensar em nada que pudesse está escrito, olhei para o lado e a vista da cidade a todo vapor começava a correr o que era emocionante pois sempre que andava pelas ruas de Manhattan me sentia como em um daqueles filmes onde tudo poderia acontecer; como em vingadores onde alienígenas atacam a terra ou em O dia depois do amanhã, que a cidade é tomada por uma tsunami e logo uma longa nevada.
Minutos depois o carro parava em um edifício ainda maior que o da Sweet Company com vitral negros e o enorme logo Ryan’s tomava a fachada, a porta se abriu e assim sai do carro arrumando a saia lápis que usava e a camisa social de seda que estava por dentro da blusa com uma fita preta.
— Boa sorte.
Ouvi Jack dizendo com um aceno de cabeça, morri e inspirei fundo e tomei toda a coragem que meu pai me ensinou a ter e caminhei com determinação e segui e as portas de vidros abriram de forma automática e segui até a recepção uma moça me entregou um cartão sem nem ao menos perguntar meu nome, sorri em agradecimento e olhei no cartão que indicava o trigésimo andar. Fui em direção ao elevador que já estava aberto e apertei o andar. Tudo naquele prédio parecia pronto, a minha espera o que ficou ainda mais esquisito e assustador. Como Lê sempre dizia, às vezes o universo era uma c****a suja e outra uma dama da sociedade, talvez hoje ele estivesse agindo como uma dama da sociedade.
Os andares foram sendo indicados até que o último apitou e a porta se abriu, uma mulher estava na porta com um sorriso. Seu uniforme preto de calça social e uma blusa branca e um blazer que estavam o logo das Indústrias Ryan e seu nome, Megan em baixo
— Olá, srta. Albuquerque.
— Olá.
— O senhor Ryan está em uma reunião, mas a senhorita pode esperá-lo em sua sala .
Caminhei pela recepção que era toda em branco e cinza, com uma planta para quebrar a frieza do lugar. Uma segunda porta de vidro esfumaçado se abriu e logo uma segunda de vidro com uma maçaneta na qual a mulher empurrou e se abriu revelando uma enorme sala com uma janela que ia do chão ao teto com vista para toda a cidade uma mesa de vidro n***a apoiada em barras de ferro, bem organizada com um computador papéis e todas os apetrechos de escritório, ao lado um sofá de dois lugares duas poltronas logo a frente e uma mesa de centro um bar com várias bebidas e um frigobar e um cabedeiro que supostamente seria para pendurar seu paletó.
— Pode aguardar sentada bem ali senhorita, deseja algo? — perguntou Megan me tirando do choque.
— Água, por favor.
— Perfeitamente — ela foi até o frigobar abrindo a pequena geladeira puxando uma garrafa de água e um copo de vidro despejando o líquido nela e seguiu até a pequena sala social depositando em cima de um porta copos — em breve o senhor Ryan se encontrará com a senhorita. Boa sorte.
Me sentei no sofá colocando a bolsa e o envelope de lado, me curvei um pouco para pegar o copo de água e bebi um pouco enquanto o líquido descendo pela minha garganta acalmando minha ansiedade olhei ao redor, tudo tão masculino tão escuro e tão sofisticado, que agradeci aos céus e a minha mãe por termos feitos compras antes da viagem ou não teria nada a altura. Olhei o relógio de correia de couro que tinha no pulso e me lembrei de mandar uma mensagem para Lê, se não o exército estaria a minha procura em minutos;
Ivy: Estou bem.
Lê: Perfeito. Como está indo?
Ivy: Estou na segunda entrevista, logo conversamos.
Lê: ;p Boa sorte.
Soltei uma risadinha então a porta se abriu e passos ecoaram pela sala, senti meu corpo congelar no lugar, aquele friozinho na barriga se tornou um iceberg e logo uma nevasca tomando conta do meu corpo, meu peito se apertou e o coração se sentiu tão espremido entre os pulmões. Levantei a cabeça para o homem que caminhava como se fosse um modelo, os sapatos mais ilustrados quanto os coturnos dos soldados do quartel, seus cabelos negros estavam penteados para trás mas podiam ver o topetinho formando, ele foi até o cabideiro tirando o paletó cinza que usava mas por baixo vinha um colete da mesma cor que combinava com a camisa branca, no segundo que ele se virou me levantei; sua pele bronzeada de um tom dourado os olhos de um azul profundo, uma barba cobria seu maxilar que fazia um excelente conjunto com o cavanhaque.
Deus, aqueles olhos se concentraram em mim como se eu fosse a mais bela das pinturas das vistas, o homem se parecia tanto com David Gandy tinha visto o modelo uma vez na televisão e se apaixonado com ele.
— Bom dia. — saudou, sua voz tão profunda e grave me causou arrepios.
— Bom dia — respirei fundo e endireitei o corpo estendo a mão para ele — Sou Ivy Albuquerque.
— Sei quem é — ele não pareceu surpreso, por fim apertou minha mão e indicou o sofá — sente-se.
— Oh. Sim, claro — me sentei cruzando os tornozelos.
— Trouxe o envelope? — perguntou se sentando em uma poltrona na minha frente cruzando as pernas.
— Sim. — respondi pegando o envelope entregando a ele.
Ele pegou o envelope e abriu puxando os papéis que estavam dentro, com dois dedos em sua têmpora e a cabeça levemente inclinada ele começou a ler o que quer que tivesse escrito ali, foi os longos dois minutos da minha vida sem levantar o olhar ele comentou.
— Brasileira, formada na universidade federal — então, mais silêncio — fluente em inglês, francês e alemão.
— Arrisco um pouco do espanhol — comentei rindo baixinho.
— Preciso de alguém que fale grego e italiano.
— Eu...eu até pensei em começar o italiano, mas disseram que o inglês seria de mais útil.
— Está certa — por fim ele descartou meu currículo colocando de lado e assim virou os documentos para mim colocando na frente — Este é o contrato, assinado começará hoje. Pode ler se estiver em dúvida.
Porra! estava com o contrato o tempo inteiro poderia ter bisbilhotado antes de entrar naquele carro, mas como já estava aqui não me custava nada. Puxei o contrato e comecei a ler, o salário dito era um absurdo e as cláusulas ditas; 1.3 A secretária terá que dormir na casa do seu protetor caso seja solicitada, 3.1 A secretaria deverá sempre dar satisfação ao seu protetor caso ele exija, 4.6 A secretaria deverá se apresentar ao seu protetor de forma correta e sem questionamento.
— Aqui não fala de férias — comentei levantando o olhar — quando poderei ver meus pais ?
— cláusula 5.4
Cláusula 5.4 A secretaria terá 15 dias de férias remuneradas, caso queira viajar terá que ser de acordo com os termos do seu protetor. De fato estava colocando toda a minha vida nas mãos de um homem que m*l conhecia, suspirando voltei a olhá-lo.
— Posso levar uma cópia ?
— Terá a sua.
Abaixei o contrato puxando uma canela posta ao lado e por fim assinei, tudo poderia dar muito errado ou muito certo naquele momento e do fundo do meu coração torcia para tudo dar certo. O protetor virou os contratos e ao lado da minha assinatura ele colocou a dele em duas vias e me entregou a minha, por fim se levantou e caminhou em direção a sua mesa.
— É agora?
— Fique aí até que eu termine meu trabalho. Já está contratada Ivy, fará o que eu mandar.
Franzindo a testa olhei para o homem sentado na enorme cadeira à minha frente. Era sério aquilo mesmo, eu ganharia um salário exorbitante para fazer cara de paisagem enquanto ele trabalhava. Não entendia onde ele iria chegar, mas a minha vontade era de sair correndo diferente da minha vontade, minhas pernas não obedeciam. Eu ficaria ali igual uma planta servindo de decoração.
— Me desculpe, mas eu sou formada em administração, sei falar 3 línguas e sou ótima com computadores — Me ouvir dizendo — Além de pensar rápido é ser muito boa trabalhando em equipe!
Os olhos do senhor Ryan seguiram até mim e algo parecia brilhar entre as íris azuis. Me levantei seguindo até o meio do escritório olhando para ele.
— Então eu acho que sirvo melhor fazendo alguma coisa do que sentada aqui como uma peça de decoração.
— Acha mesmo que é capaz? De trabalhar aqui? De trabalhar para mim? — Ele se levantou dando a volta à mesa parando em frente a ela — Me dê um motivo para isso?
Ergui o queixo mantendo as mãos unidas na frente e o olhar firme no dele, ele me intimidava? Com certeza? Seu cheiro me causava sensações que eu não conseguia descrever? Sem dúvidas, mas eu precisava desse trabalho.
— Eu sou a melhor.