9-Noite de cerimônia

1902 Words
Lunara Tokatli Acordo com a sensação de que o dia já começou antes de mim. Abro os olhos devagar, ainda ouvindo o som abafado de passos no corredor. O sol invade o quarto pelas cortinas finas, um tipo de luminosidade branca que me lembra: é hoje. O dia da minha posse. O dia em que deixo de ser apenas Lunara, filha de Halit Tokatli, e passo a ser Lunara… apenas. Com meu próprio nome em risco. Respiro fundo. Sento-me na cama. A realidade pesa como sempre, como se alguém tivesse colocado um colar rígido de ferro no meu pescoço durante a noite. Até que dormi bem com esse peso. Não me sinto exausta e acordei apenas duas vezes durante a noite. Me levanto. O banho é rápido, a água quente, como sempre. Perfumes suaves, florais, porque não quero nada forte hoje. Escovo os dentes, limpo bem o rosto e uso um creme específico. Pego uma roupa simples: uma calça preta larga, camisa clara, confortável. Algo que ainda me faz parecer normal por algumas horas. Fico bem coberta como sempre. Mas, quando abro a porta do quarto, tudo muda. O corredor parece um formigueiro gigante. Empregados carregam caixas, vasos enormes, cortinas dobradas. Homens da equipe de segurança passam falando rápido. Mulheres com listas e canetas correm de um lado para outro discutindo cores, prazos, horários. A casa inteira está despertando num desespero organizado. Meu coração acelera. É realmente hoje. Desço as escadas devagar e noto como a mansão muda em minutos. Os tapetes são trocados, cortinas novas descem pelas janelas enormes, toalhas douradas são estendidas nas mesas. Os móveis são polidos com pressa. As janelas… todas abertas. Todas. O ar frio da manhã entra e expulsa aquele luto silencioso que reinou desde a mörte do meu pai. Acabou a escuridão. Hoje, pela primeira vez, a luz entra inteira e isso revigora. Quando chego ao salão de jantar, uma das empregadas me aborda imediatamente, segurando dois arranjos de flores nas mãos. — Senhora! Prefere vinho ou vermelho sangue para as mesas principais? Olho os dois tons. Ambos são belos, intensos… mas o vermelho sangue sempre teve algo de agressivo demais. — Vinho. — Digo. Ela sorri, aliviada, e corre para avisar as outras. Outras mulheres se aproximam perguntando sobre vasos, sobre torres de luz, sobre tochas no pátio. Eu respondo tudo no automático. Minha cabeça ainda está meio distante, tentando se ajustar ao caos. Quando finalmente me sento, olho ao redor e tenho certeza absoluta de que ninguém dormiu esta noite. A mesa está farta, mas silenciosa. Ninguém deve falar enquanto eu como. Essa é a regra da casa. Uma regra que herdei, mesmo sem querer. Então, como sozinha. Frutas, proteínas, água. Muita água. Meu estômago está tenso, mas tento obrigá-lo a funcionar. Harika chega um tempo depois. Senta-se ao meu lado e também come em silêncio. E come com pressa, como se estivesse atrasada desde já. Quando enfim terminamos, ela limpa os lábios com o guardanapo e me olha com aquela expressão típica dela: ansiosa, determinada e, ao mesmo tempo, invejavelmente organizada. — De tarde... — Ela diz. — Você vai precisar reservar tempo para ajustes do vestido. Tem maquiagem, cabelos, joias. E não dá para fazer nada disso às pressas. Vamos precisar de horas, Lunara. Horas! Entende isso, não é? Respiro fundo. — Eu estarei no quarto no horário. — Se não estiver... — Ela diz, apontando um dedo para mim. — Eu arrasto você pelos cabelos. Me cobraram isso e não posso falhar. Não consigo evitar. Eu sorrio. Há meses meu sorriso não aparece tão espontâneo. Nos levantamos e seguimos por caminhos diferentes. Eu vou direto para o escritório. E, quando entro, tranco a porta sem pensar duas vezes. Quero ficar sozinha. Quero, pela última vez antes da cerimônia, ser apenas eu. Ligo o laptop e abro os arquivos que comecei ontem. E, inevitavelmente, lá está outra vez: Kan Ruslan. Olho o nome na tela e sinto uma fisgada estranha. Não sei explicar, mas há algo nele que me empurra para a borda de uma memória que não alcanço. Ele lidera a região do Centro, uma área seca, majoritariamente religiosa e extremamente tradicional. Ele e o irmão, Hamit, cinco anos mais novo, comandam tudo desde a mörte dos pais. Eles são inseparáveis. Ruslan tem trinta e cinco anos. Hamit tem trinta. São os últimos da linhagem Nacar do Centro. Tudo neles parece sólido, disciplinado, quase militar. E eles têm um papel essencial: são os responsáveis pela principal passagem de munições que abastece o Norte. Eles são… valiosos. E perigosos. E os dois nunca se casaram. O que é estranho para a idade deles. Passo o dedo pela tela, lendo mais. Mas nada parece suficiente. Sinto que falta algo. Uma ficha incompleta. Um detalhe perdido no tempo. Como se eu tivesse conhecido algo dele antes, mas não lembrasse. Ou talvez eu esteja ficando maluca. Possivelmente estou. A manhã inteira passa. Eu trabalho como se estivesse presa aqui, autorizando compras essenciais, rejeitando pedidos absurdos, alguns até engraçados, se eu não estivesse tão tensa. — Haja paciência... — Resmungo sozinha. Mas minha cabeça volta, repetidamente, para a cerimônia. Para a noite. Para o olhar de centenas de homens esperando ver a minha postura, minha voz, meu controle. E para o risco de falhar. No meio da tarde, alguém bate na porta. Eu congelo. Vejo pela câmera. É Osman. Fico completamente quieta. Nem respiro. Ele bate de novo. Depois, mais uma vez. E então… para. — Só vai embora... — Eu sussurro aqui. — Só vai! Finalmente ouço seus passos se afastando. Só então o meu corpo relaxa. — Obrigada! Volto a trabalhar, falando sozinha, resmungando sobre listas intermináveis, documentos atrasados e regras impossíveis. Mesmo isso aqui sendo bem complicado, tem outra coisa que será mais complicado: a parte externa. Terei que resolver assuntos pessoalmente em breve. O meu pai sempre sai, passava nos galpões, nos centros de treinamentos, nas regiões. E eu terei esse dever também! O tempo voa. E quando percebo, a hora chegou! Eu saio do escritório de forma silenciosa e disfarçada e por sorte, não vejo muita gente e claro, tranco a porta. Eu vou subindo e já me preparando para o que virá. Harika está no quarto antes de mim, examinando tecidos, lenços, acessórios, com expressão de general pronto para enviar tropas à guerra. — Lunara! — Ela diz, quase sem ar. — Tudo precisa estar impecável. Me aproximo. Os vestidos estão pendurados, longos, luxuosos. O vinho profundo me chama atenção imediatamente. O mesmo que falei. — Está tudo lindo. — Digo. — Está perfeito! — Ela responde, animada como sempre. — E ainda nem começamos. Ela fala dos tecidos, das joias que vieram da sala de cofres, do penteado que sugerem: um coque tradicional, cheio de grampos decorativos. Mas balanço a cabeça. — Meu cabelo fica solto. Alinhado. Nada preso! Ela arregala os olhos, chocada. — Lunara… isso é quase… heresia estética. Dou risada. Mas, antes que continue julgando minhas escolhas capilares, ela fecha a porta e respira fundo. O clima muda. Ela respira fundo, encara o chão e depois, me olha com um certo medo. — Eu tive um sonho com você. Um sonho rüim. Meu corpo trava e eu fico ouvindo. — Você estava sozinha… arrependida… dizendo que deveria ter tido um filho. E eu… eu não entendo, Lunara. Por que você não quer se casar? Sentindo o peso daquele momento, eu me sento. — Harika, o que eu vou te dizer não pode sair daqui. Nunca. Nem para Osman! Ela assente sem hesitar. — Eu prometo. Pode confiar em mim! Ela chega mais perto e tento falar na maior cautela. — Se eu me casar... — Digo — A minha liderança acaba. Ela franze a testa. — Na nossa tradição, o marido tem precedência sobre a esposa em tudo. Sobre qualquer mulher. Se eu me casar, mesmo sendo líder, eu passo a ser apenas… esposa. Meu marido assume o posto. O nome. O poder. Ele poderia decidir tudo e eu nada. — Falo com seriedade. — Ele poderia até me matär e ficar com tudo. É assim. Sempre foi. Harika fica pálida. — Então, se você se casar… — Eu me torno inferior. Uma peça decorativa. Um objeto político. E se eu morrer, ele fica com tudo. — Digo claramente. — Quantos casos você ouviu de homens que mataräm as suas esposas ou que elas sumiram do nada? — Muitos! — Exato! Não é só risco. É suicídiö. Ela leva a mão ao peitö, chocada. — Nunca pensei nisso desse jeito... achei que sendo líder, se tornaria intocável! — Pois é. Mas eu garanto, muitos deles já começaram a pensar nisso. O silêncio se torna pesado. Doloroso. Real. E então, vem batidas na porta e entram as mulheres. Três delas. Todas experientes, sérias, preparadas para transformar alguém em símbolo. Vou para o banho primeiro. Apenas o corpo. Nada de molhar o cabelo. Depois começam os preparos: Óleos perfumados à base de açafrão e rosa. Creme de mirra nas mãos e braços. Köhl nos olhos. Uma linha fina, puxada, destacando meu olhar. Uma base leve misturada com pó de seda. Um leve brilho dourado nas têmporas, típico das cerimônias antigas. Unhas curtas, limpas, com óleo de oliva aquecido. Depois, o vestido. Um kaftan cerimonial vinho escuro, longo, de mangas amplas, tecido firme, bordado com fios dourados no peitö e nos punhos. Um modelo usado apenas em cerimônias de liderança. A cintura marcada por uma faixa de seda trançada, representando continuidade da linhagem. E as joias: O Colar da Lua, peça hereditária, pedra central de ônix n***o. Os Braceletes de Narim, ouro antigo com detalhes da família. E um anel de liderança, com a marca gravada em prata escura. Quando termino, mäl me reconheço. Harika surge ao meu lado em um vestido verde esmeralda, delicado, clássico, os cabelos presos com pequenas pérolas. Ela parece saída de um conto antigo. — Você está… radiante! — Digo. Ela sorri, tímida como sempre. E claro, ela exala delicadeza e inocência. Descemos juntas. Os passos ecoam. Os corredores parecem mais largos hoje. Encontramos Osman na sala principal. Ele nos olha por um segundo… e realmente perde o fôlego. — Vocês… estão belíssimas. — Olha nós duas. Agradecemos. — Lunara... o salão está cheio. Chegaram no horário e estão esperando para começar. — Então vamos! O meu coração bate cada vez mais rápido quanto mais nos aproximamos do salão preparado atrás da mansão. Escuto vozes. Muitas. Homens. Conselheiros. Chefes de família. Todos esperando por mim. Eu. Quando entro no pátio, vejo um mar de pessoas. Luzes acesas. Cores intensas. Tochas refletidas nas paredes de pedra. Mas meu olhar vai direto para uma figura, uma só. Alguém alto, postura imponente, roupas escuras, expressão indecifrável. E o olhar dele… preso em mim desde o primeiro segundo. — Eu não reconheço aquele... — Falo discretamente. Eu conheço homens da casa, das regiões e tudo mais. Posso não saber os nomes de decorados, mas sei reconhecer. Osman se inclina discretamente para mim. — Kan Ruslan. Da região central. E ele está com o irmão. Engulo seco. Sim. Claro que seria ele. O homem que carrega um nome forte para todos. O homem que guarda um território inteiro. O homem que, agora, me observa como se já soubesse quem eu sou… ou o que eu serei. E o pior? Ele não desvia o olhar. Nem por um instante.
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