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1825 Words
O carro de Blake era um monstro, um reluzente Aston Martin que estava estacionado ao lado de um poste. Um daqueles antiquados de ferro forjado, com uma superfície de pregas. Ela fica no meio-fio e passa a mão em torno de seu metal áspero e frio. — Entre — diz ele. — E se eu passar m*l no seu carro? — Minha secretária terá que mandar limpá-lo. Ela acena com a cabeça e se afasta do poste. A vida é realmente tão fácil? Com esse sapato de salto e a bebida que tomei, é impossível entrar e sentar elegantemente no banco baixo do veículo. Os olhos de Blake vão para suas pernas. Ela oscila por último e fecha a porta. O interior do carro é confortável e luxuoso e cheira a caro. Ela nunca esteve em um carro assim. Ele estava ouvindo música clássica. O sistema de som é excelente e a música esnobe enche o carro. — Como esta música se chama? — Messias, de Handel —ele diz, desligando. Ele se vira para ela. À luz da rua ele parecia severo e distante. Na escuridão suavemente iluminada de seu carro ainda não há suavidade em seu rosto. Novamente o pensamento, um homem frio. — Tenho que estar em Nova York amanhã, mas minha secretária vai te ligar e tomar todas as providências necessárias. Ela balança a cabeça com gratidão e olha para longe. É como se estivesse em um sonho. — Onde você mora? — Kilburn. — Tem um endereço? — Ele parece muito americano. Ela lhe dá o endereço e ele coloca a informação no GPS. Eles seguem em silêncio, até que ela não pode suportar mais. — Você não quer saber quanto? — Sim, me diga. Ela diz a ele e seus olhos deixaram a estrada rapidamente para olhá-la. — O que fez você pensar que Rupert era o homem certo para o papel? Ela se encolhe no escuro. Eu não sei. Ouvi um boato de que sua secretária tem, por vezes, a tarefa de encher envelopes com dez mil libras em dinheiro e reserva — Entendo —, diz ele em voz baixa. — Por que eu? Eles pararam no farol vermelho. Seus dedos tocam no volante. Dedos longos e fortes. Ela olha para eles. E pensa na maneira que tocaram em seu corpo. Ele se vira para ela. Seus olhos estão nervosos e perigosos, cheios de promessas. — Você quer a versão poética ou a realidade? Ela morde o lábio. — Realidade. — Eu queria t*****r com você, enlouquecidamente, no momento em que nossos olhos se encontraram no restaurante. — E a versão poética? — Agora que pensei nisso, não existe uma versão poética. É o que é. Ela se vira para olhar para seu perfil. É muito sério e quieto. Será que ela pulou da frigideira para o fogo? — As pessoas ricas são todas secretamente corrompidas em seus desejos sexuais? Será que me f***r enlouquecidamente envolve qualquer material estranho ou bizarro? Ele olha para ela. Mais uma vez, essa expressão está além de sua compreensão. — Não, mas quero ser capaz de usá-la tão frequentemente como me agradar, de qualquer maneira que quiser, durante o tempo que quiser. — Oh! — Que estranho, mas suas palavras insultantes desencadearam uma emoção relâmpago de excitação s****l em seu corpo. — Eu… Quanto tempo você estava pensando? — Vou decidir amanhã. Mas imagino que um mês deve bastar. — Bastar para quê? — Para me deixar entediado. — E você está disposto a pagar cem mil libras para isso? Seus lábios se torceram em um sorriso irônico. — Quando fiz minha oferta, eu não sabia que você tinha se valorizado tanto, mas não estou descontente por ter feito isso. Apesar de todos os protestos, ninguém realmente quer uma pechincha. Ele se contentou com isso, porque não podia te pagar mais. — Ele olha para ela — Quando é barato, normalmente significa que você precisa ter cuidado, pois está sendo oferecido algo indesejável. Lana pensa em sua mãe se arrastando pelos corredores do supermercado à procura de coisas que tem descontos, porque está chegando ao fim de sua validade. Vou exigir o dinheiro antecipadamente. Então, como vamos fazer isso? — Meu advogado vai elaborar um contrato adequado para você assinar. Depois terá o dinheiro na sua conta em poucos minutos. — Que tipo de contrato? — Um acordo de não divulgação. Ela acena com a cabeça. — Acho que as pessoas ricas têm de se proteger. — Sim — ele responde rapidamente. Continua um silêncio constrangedor. Ele parece preocupado com seus próprios pensamentos. Lana vira a cabeça, que começou a latejar, e olha pela janela. Ele é um motorista veloz e eles já estão em Edgware Road. — Vou mandar alguém amanhã por volta do meio-dia para levá-la para o seu local de trabalho para que possa recolher os seus pertences pessoais. — Está tudo bem, posso ir sozinha. — Eu me sentiria mais feliz se estivesse acompanhada. Permita-me. Ela pensa por um momento e não aprecia exatamente a perspectiva de esbarrar acidentalmente em Rupert também. — Bem, eu só tenho um velho par de tênis lá. — Como quiser. Eles chegam ao bloco de apartamentos onde ela mora. Ele olha ao redor, surpreso. É um conjunto habitacional horrível, e que ele considera o baixo nível da cidade. Ele nunca foi a uma área tão pobre antes. — Você mora aqui? — Ele não pode esconder seu desgosto. — Sim — ela diz, simplesmente. Ele para o carro do lado de fora de um bloco de apartamentos com dois andares. — Qual é o seu? Ela aponta para o último apartamento no primeiro andar, e diz: — É o meu. Ele não desliga o motor, mas se vira para ela. — Dê-me o telefone. Ela entrega a ele. Ele tecla alguns números e quando o telefone toca ele desliga. — Eu tenho o seu número e você tem o meu — diz entregando o telefone de volta para ela. — Obrigada. — Tome umas aspirinas e vá para a cama. Mantenha-se livre amanhã. O dia inteiro. — Está bem. Entro em contato com você amanhã à noite. Ele a vê cambalear e oscilar em seu sapato ridículo até a calçada, depois alcançar o chão de concreto rachado, e subir uma escadaria exterior, enquanto segura as grades de metal. Na entrada de sua casa, ela se vira e levanta rapidamente o seu pulso para indicar que ela está em segurança, e que ele não precisa esperar mais. Ele não responde e simplesmente fica lá observando-a. Ela encolhe os ombros e, sentada no degrau da frente, tira o sapato. Com eles na mão coloca a chave na porta. É só quando Lana fecha a porta da frente e ouve o potente motor decolar, é que percebe que nenhum dos homens quis saber por que precisava do dinheiro. O apartamento está iluminado apenas pelas luzes dos postes. Ela caminha descalça até a cozinha e se atrapalha na escuridão. Encontra uma caixa de paracetamol, retira dois comprimidos e se senta à mesa da cozinha com um copo de água, atordoada em um transe. Que noite. Ela teve uma ideia absurda e… — Consegui — ela sussurra entre as sombras familiares, e sorri. Ela pensa nos bíceps duros e no tanquinho do estômago que suas mãos e corpo tocaram. Em seguida, toca sua boca. Ela ainda consegue sentir seus lábios, suas mãos. Lembra-se de como perdeu o controle e esqueceu completamente de si mesma. E a sensação desconhecida, mas muito boa, que ele causou em seu corpo, entre suas pernas. Foi um sonho? Porque isso não pode estar acontecendo de verdade. Não fique muito feliz. Ele ainda pode mudar de ideia. Engole os comprimidos de paracetamol, evitando todas as áreas que rangem na ponta dos pés e vai para cima. A luz está apagada no quarto de sua mãe, ela calmamente abre a porta para olhar sua forma adormecida. Mas sua mãe está sentada em uma cadeira perto da janela. Ela deve ter visto Lana entrar. — O que você está fazendo? — Lana pergunta. — Ouvi você entrar — sua mãe diz suavemente. — Você não conseguiu dormir? — Não. Começo a minha quimioterapia na segundafeira. Estou apenas apreciando a sensação de bem-estar. Lana atravessa o quarto e se ajoelha ao lado da mãe. Ela não está usando um lenço, e há reflexos na sua cabeça calva na luz do luar. Lana fica triste. — Tenho uma boa notícia para você, mãe. Você se lembra da clínica na América da qual estive falando? Sua mãe fez uma carranca. Ela tem apenas cinquenta, mas a preocupação e a dor a fazem parecer abatida. — Nós não podemos pagar. — Bem, não é cem por cento, mas acho que consegui arranjar o dinheiro. Como? Como você fez isso? — a voz da mãe está cheia de suspeita e medo. — Conheci um cara. Um cara rico que só quer ajudar. — Um homem rico que quer ajudar? — o tom de sua mãe é sinceramente incrédulo. — Mãe, por favor, não seja assim. Não é nada do que você está pensando. — Ah, não? Como é então? — Ele é apenas um cara legal que gosta de mim. — Não nasci ontem, garota. — Os dedos esqueléticos de sua mãe tocam em suas mãos. — Você não fez nada que vai se arrepender depois, não é? — Juro que não fiz nada. Acabei de tomar muito champanhe — ela coloca a ponta do dedo nas têmporas — Minha cabeça está latejando. Prometo que vou te contar tudo amanhã, quando estiver descansada e depois de dormir um pouco. — A última vez que ela se lembra de ter mentido para sua mãe foi quando tinha nove anos e fingiu que escovou os dentes. Culpada e com medo de ser descoberta, correu escada acima para molhar a escova de dentes. As mãos de sua mãe subiram em seu braço com urgência. Ela toca as pontas dos dedos sobre as contusões escuras no braço da sua filha, enquanto olha preocupada — Isso não foi ele — Lana explica nervosamente. — A estrada para o inferno está cheia de boas intenções — sua mãe avisa sombriamente. — Eu prometo, vou te contar tudo amanhã, mas não é o que você pensa. — Realmente, é bem pior, diz uma vozinha. — Tudo vai ficar bem, você só precisa esperar e ver — diz ela brilhante e sorrindo. Sua mãe não retorna o sorriso. Ao invés disso, olha para ela com tristeza. — Boa noite, mãe. Eu realmente amo você. — Eu também te amo. Lana tropeça pelo curto corredor até seu quarto. Ela chega à beira da cama e deixa cair o sapato que sua mão ainda segurava. Em seguida, como uma árvore que foi derrubada, cai em sua cama e entra quase que instantaneamente em um sono profundo e sem sonhos.
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