01 Ruby
Tudo de perverso começa com um homem, eles tem a capacidade de destruir a vida de uma mulher. Acabar com a alma dela e destruir cada detalhe até não sobrar mais nada.
O azar da minha vida foi minha mãe ter se apaixonado por esse homem, que a machuca e a humilha. E que consequentemente, faz o mesmo comigo.
Correndo para fora de casa observo as minhas bonecas que guardava desde criança sendo arremessadas para a rua, as minhas roupas e todo o restante.
Meu coração aperta, e o meu sentimento é que não tenho moral sobre mim mesma e que a qualquer momento alguém pode chegar acabando com tudo.
Tudo o que eu vivi, tudo o que eu presenciei das piores coisas até as raras maravilhosas.
Me pergunto várias vezes se a vida das outras pessoas é igual a minha ou foi eu quem nasceu para sofrer.
Detesto ser vista como coitadinha e como todo mundo nos olha, na verdade nos olham com satisfação no olhar. Como se fosse bom, como se estivessem felizes com a desgraça dos outros e esse fosse um grande entretenimento. O quanto a vida dessas pessoas deve ser entediante para gostarem de ver essa cena.
Ainda estou jogada no chão, na mesma posição depois que Alberto me jogou para fora. Minha mãe chora na porta de casa me olhando com súplica, mas seus pedidos a Alberto são inúteis.
— Alberto, ela não tem para onde ir. — Ela diz chorosa.
— Essa v********a já tem idade para ter um lugar para ir, vai embora. Se vira! — Ele pegou um amontoado de roupas minhas e jogou em cima de mim. — Cansei de te sustentar, não tenho obrigação nenhuma com você.
— É só enquanto ela não termina o ensino médio, Alberto. Deixa ela ficar, quando ela terminar e entrar na faculdade…
— Na idade dela eu já trabalhava! — Ele a interrompeu. — Vagabunda, tem que aprender a se virar sozinha mesmo.
— Alberto… — Minha mãe tentava intervir novamente.
— Cala a p***a da boca, Rafaela. Senão boto você para fora de casa também. — Ele gritou.
As pessoas em volta apenas olhavam, ninguém fazia nada e na verdade nunca fizeram. Eu também já estava cansada disso, ele estava cansado de mim e eu estava cansada dele.
Sempre foi assim, era óbvio que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde. Mas como minha mãe disse, eu não tinha para onde ir.
Cansei de ser humilhada e da humilhação que é ter que aturar isso praticamente todo santo dia. Dessa vez eu vou, mas eu não volto mais.
Jogada no chão pelo tropeço que tive no desespero, toco o canto dos meus lábios e quando elevo meus dedos na altura dos olhos vejo gotas de sangue vermelhas, pegajosas e brilhantes escorregarem por eles. Sangue causado pelo tapa que ele me deu minutos antes de me atirar para fora de casa.
— Quem não quer mais ficar aqui sou eu. — Murmurei, mas o 360 graus que Alberto deu em minha direção me fez perceber que foi um murmuro alto demais para ele não ouvir.
— Como é que é!? — Ele berrou.
Naquele momento eu não queria mais saber, eu não tinha mais nada a perder já que roubaram tudo de mim. Também já tinha sido humilhada demais para me importar com mais humilhações.
— Eu disse que sou eu que não quero mais ficar aqui, por que? — Levantei do chão ficando de pé em sua frente.
— Então o que faz aqui ainda? Vai embora, sua p**a. — Alberto gritou chutando uma mochila jogada no chão. — Eu espero que você morra de frio e fome.
Então ele entrou dentro de casa novamente, minha mãe ficou na porta com os olhos cheios de lágrimas enquanto me observava. Fiquei olhando para ver se ela viria até mim para dar conselhos ou falar como estava se sentindo m*l, então ela olhou para dentro de casa e depois veio correndo até mim me agarrando com força em um abraço.
— Ruby… minha filha… — Choramingava. — Fique bem, por favor…
Não retribuí o abraço, apenas fiquei alí imóvel sentindo suas lágrimas molhar meu ombro.
— É a sua casa. — Falei baixo, sentindo raiva ao invés de tristeza.
— Como? — Ela se afastou de mim para me olhar.
— Você não era uma pobre coitada, teve a chance de mudar nossa vida. Tinha a chance de ficar com o meu pai, mas não ficou, e agora ele está do outro lado do mundo mandando apenas dinheiro para mim, dinheiro que não vejo a cor já que quem administra é o Alberto. Podia ter trabalhado e nos dado uma vida boa, mas escolheu ficar com esse homem que expulsa a sua filha da sua própria casa. Você vai simplesmente ficar apenas olhando? — Cerrei os dentes esperando por uma resposta que me agradasse, mas acho difícil. Afinal, era ela.
— Ruby… não tire de contexto, eu… se dependesse de mim…
— Eu não vou perder meu tempo com você, fique com ele, o amor da sua vida. — A interrompi. — Quem sabe a próxima a ser expulsa de casa seja você, ele vai acabar com a sua vida e depois te jogar na rua como se você não valesse nada. E quando isso acontecer… não. me. procure.
— O Alberto tem razão, você ainda precisa apanhar muito — Sua expressão mudou de repente. Era essa, era essa que eu estava esperando que aparecesse. — Não sei porque fiquei com pena de você. Some!
A encarei embaçado pelas lágrimas, mas não as deixei escaparem.
— Apanhar? — Ri irônica puxando as mangas da minha blusa para cima deixando expostas as marcas roxas na minha pele, ouvindo os murmúrios espantados dos vizinho em nossa volta. — Mais do que já apanhei?
Me abaixei e coloquei o máximo de roupas que eu pude dentro da mochila, e quando a olhei ela estava me observando com repulsa.
— Se ele fez isso teve um motivo, Alberto não é un monstro. — Insistiu ela.
— Entendo você, também acreditei que você não era um e agora me decepciono com a verdadeira realidade. — Retruquei fria. — Eu espero que ele um dia te mande para o hospital, aí você vai ver que eu tinha razão. — Falei caminhando em seguida na direção oposta da minha casa.
— E não volte mais! — Ela gritou, quando olhei para trás vi Alberto escorado no encosto da porta, me olhando com o sorriso mais debochado que já vi da parte dele.
Então eu caminhei pela estrada, para nunca mais voltar. Sem rumo e sem direção marcada, sem saber se no outro dia eu teria um teto para dormir ou um pedaço de pão velho para comer. Mas de uma coisa eu sabia, eu agora era livre e não me permitiria mais viver em um inferno novamente.