02 Ruby

1364 Words
Sozinha pelas ruas, sem saber para onde ir me vejo pela primeira vez como motivo de pena. Por incrível que pareça, até esse momento eu não me via assim. Dentro da casa da minha mãe era r**m, eu sentia medo. Mas nada se compara com a sensação que sinto agora, com o medo triplicado e com nenhuma solução. Talvez se eu tivesse alguma família, mas minha mãe fugiu com meu pai e não fala com os familiares dela há anos. Provavelmente eles não sabem da minha existência, e tudo por causa das malditas drogas. Diferente dela, meu pai se curou. Se eu ao menos tivesse contato com ele. Vejo as fotos dele no Google e imagino como seria a minha vida se ela tivesse seguido o mesmo caminho. Com os ossos dormentes de frio, continuo caminhando sem prazo. Até que sinto o toque gélido de uma minúscula gota de água pousar em meu braço, ergo o queixo para cima e sinto mais centenas dela acertarem meu rosto. Corro o quanto posso, a procura de um teto para ficar. Um estacionamento, uma tenda de loja… não sei. Qualquer coisa. Se a chuva encharcar minhas roupas e pelo frio que já sentia segundos antes, eu poderia ficar doente se não encontrasse um lugar para ficar. Corro em desespero sentindo as gotas de chuva umedecerem minhas roupas, ouço relâmpagos e trovões. Já é praticamente tarde demais, estou completamente ensopada. Corro para um abrigo mas quando olho para dentro pela vidraça vejo apenas homens que me olham como se eu fosse um pedaço de carne, caminho para trás e então volto a correr. Corro muito, mas do que meu coração aguenta. A temperatura permanece boa, já que estou em movimento. Corro por um gramado em direção há um campo de árvores, não sei o que é. Mas sei que lá é mais seguro que um abrigo onde só se hospedam homens. Caio algumas vezes por conta da grama lisa, mas levanto e continuo correndo. Torço meu pé algumas vezes mas continuo, nem percebo bem o que estou fazendo apenas aceito. Raios caem do céu e de repente começo a me sentir como uma protagonista de filme, então lembro que naquele campo eu não poderia ser o elemento mais alto senão poderia ser atingida pelo raio. Então apresso ainda mais o passo, nem percebi mas já estava chorando a um tempo, acho que por causa da chuva que se misturaram com as lágrimas. Eu tropeço, é tudo o que eu lembro. Tropecei e caí, devo ter dormido ou desmaiado pela fome que sentia misturada com a fraqueza, honestamente eu não sei. Mas lembro de como era a sensação das gotas de chuva forte que batiam contra o meu corpo enquanto eu estava deitada de bruços na grama, quase desacordada ou apagando. Naquela noite eu desejava a morte daquele homem, mas também desejava a minha. Não queria continuar assim, mesmo que fosse apenas a primeira noite pois eu sabia que muito mais sofrimento torturante ainda me esperava. Acordei sentindo um calor de uma luz quente sobre mim, era o calor do sol que me aquecia. Sentia uma leve dormência no corpo e a garganta doía, sintomas de um resfriado. Percebi ali que eu não tinha mais importância, ninguém estava ali para me ajudar. Desmaiei e acordei no mesmo local, na mesma posição é totalmente encharcada exposta a friagem. Quando levanto meu tronco vejo também um bêbado jogado no meio do gramado alguns metros longe de mim, e um frio na espinha percorre quando penso que ele estava chegando perto de mim enquanto eu estava desacordada. Levanto rapidamente e corro até a beira da estrada para longe dele, penso se devia pedir esmola, procurar um lugar para ficar ou um emprego. Mas de uma coisa eu sabia, que estava passando m*l de fome. Vi um dos funcionários de um supermercado jogando caixas de comidas fechadas no lixo, e então esperei que ele saísse para correr até lá, pegar o que eu conseguisse e sair correndo. Acabei conseguindo pegar uma caixa fechada inteira de achocolatado, uma caixa de biscoitos, e aquelas caixas pequenas de pastilhas refrescantes para a minha garganta. Quando sentei em uma calçada e olhei a data de validade, senti um enorme ódio por aquelas coisas nem terem passado da validade. Há tantas pessoas morrendo de fome e eles jogam as coisas no lixo ao invés de doar. Enquanto eu comia vi uma mulher em pé ao lado da placa do ponto do ônibus contando algumas sédulas, ela me olhava dos pés a cabeça parecendo me analisar. Era morena, estava vestida com roupas chamativas e brilhantes demais, usava saltos extravagantes e maquiagem rebocão quase exagerada. Não dei atenção, estava com fome demais para conseguir dar importância para ela. — Ei, garota. — Ele falou de um jeito legal, parecia simpática. — Onde está a sua mãe? A encarei por 2 segundos mas abaixei o olhar sem saber o que dizer, principalmente para uma estranha. Mas a questão é que essa altura do campeonato não fazia diferença, não é como se eu estivesse em segurança. — Entendi. — Pontuou depois de ficar sem resposta. — Quantos anos tem? — Faço 16 semana que vem, moça. — Hum, mas aparentemente não vai ter bolo de aniversário ou união familiar. — Ironizou indignada. Fiquei em silêncio, não sabia o que dizer. Não iria pedir ajuda, ela não ajudaria, não é obrigada e principalmente nem sequer me conhecia. — Onde está a sua família, o que aconteceu com você? — Ela continuou perguntando e eu apenas ignorava. — Roubou essas caixas? — Não sou ladra. Jogaram no lixo e eu só estava com fome. — Retruquei ofendida. — Relaxa, pirralha. Sei bem como é. — Ela abriu a bolsa e pegou novamente nas cédulas que havia guardado depois de contar. — Toma… A mulher olhou em volta e me entregou uma sédula escondida na palma da mão, olhei discretamente vendo ser uma cédula. — Não é muito, mas é o que eu posso te dar. Tenho uma senhora para prestar contas, mas posso fingir que perdi uma cédula no caminho. — Sorriu irônica dando de ombros. — E vê se guarda dentro da meia, uma pirralha no meio de uma rua deserta com dinheiro no bolso não acaba bem. Ela tinha os trejeitos engraçado, agia engraçado e tinha uma maneira meio repentina de fazer as coisas, por exemplo, ter me dado dinheiro assim sem questionar muito. Meus olhos brilharam, não por ela ter me dado dinheiro mas por ter se importado comigo. Fazia tempo que não sentia essa sensação. — Muito obrigada, moça. Sério! Espero que algum dia eu possa retribuir a você. — Acho que até algumas lágrimas me escaparam dos olhos. — Não me enche, garota. Eu sei como é passar fome, também já vivi nas ruas até ser obrigada a me render ao caminho mais “fácil”, a prostituição. — Confessou para si mesma. — Prostituição? — Indaguei com os olhos arregalados. — Em troca de um teto e comida você é capaz de fazer qualquer coisa. — A mulher deu de ombros. — Mas você é bonita, pode conseguir sobreviver por algum outro meio. — Não vou me prostituir. — Pontuei ofendida. — Não falei que ia. Pode usar sua beleza para outras coisas como para conseguir um emprego ou dá um golpe do baú em algum velho. Não sei porque fui falar que era garota de programa. Todos passam a nos ver como uma vagabunda que quer levar outras pessoas para o mesmo caminho. — Ela fechou a bolsa e então se arrumou para subir no ônibus quando ele parasse. — Mas… — Até mais, garota. Espero que tudo dê certo para você. — Ela começou a caminhar até o ônibus que estava parando. — Espera, como se chama? — Gritei. — Tânia. — Gritou ligeiramente de volta. — Me chamo Ruby, obrigada mais uma vez! — Prazer em te conhecer, Ruby. — Foi a última coisa que ela disse antes de subir no ônibus. — Ei, espera! — Gritei mas ela apenas acenou subindo no ônibus, olhei para o dinheiro em minha mão e agradeci mentalmente.
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