03 Ruby

1162 Words
Naquela noite as coisas conseguiram ficar um pouco mais difícil, estava fazendo frio até demais. Não conseguia mais aguentar ficar nas ruas, era absurdamente torturante. Caminhei pelas calçadas vendo moradores de rua “agasalhados” com papelão, uns ao lado dos outros como se fosse realmente funcional. Esfregando os braços em busca de calor, notei que nem sentia mais minha pele, estava totalmente dormente e congelada. Então sem opção, procurei pedaços de papelão no lixo. Posicionei os papelões ao lado das pessoas que dormiam na calçada, fiz a mochila de travesseiro, me acomodei e me cobri com uma coberta que trazia na mochila. Eu chorei. Chorei muito. Chorei por causa da minha mãe, por ter deixado aquele homem me expulsar de casa e me colocar na rua, sabendo que uma garota de 17 anos poderia não conseguir sobreviver sozinha. Me senti insignificante no meio daquelas pessoas, eu só parecia um copo descartável que ninguém olhava, sujo e fedorento. Ninguém nos olhava, ninguém se importava, vez ou outra alguém dava alguma moeda mas parecia ainda mais humilhante. Aquilo era tão humilhante, não só dormir na rua em específico. Mas sim, tudo. Desde eu ter uma casa na qual não posso voltar, até não poder voltar por causa de um homem que não é nem mesmo meu pai e que tem o apoio da minha mãe. Fiquei me sentindo um grande ninguém, sem opiniões ou voz, sem um nome, sem uma certidão de nascimento e sem alguém que se importe. Só alguém, desconhecido. Mas eu não voltaria, isso não. Jamais voltaria para aquela casa. Já estou nessa situação há quase uma semana, e até agora não fiz nada, não me rebelei e nem tentei evoluir. Eu não poderia continuar assim, não era isso que deveria estar fazendo. Não deveria estar apenas aceitando e fingindo estar tudo bem. Precisava fazer algo. Refletindo e me enchendo de esperanças para conseguir fazer alguma coisa por mim mesma, chorei até dormir. Meus olhos estavam pesados por ter chorado tanto noite passada, e nessa não foi diferente. A única coisa que me restou fazer foi ter esperança. No meio da madrugada, acordei sentindo algo sendo puxado de cima de mim. Por impulso puxei a coberta de volta sem abrir os olhos, mas senti ela sendo puxada de volta. Acreditei que estivesse sonhando, mas quanto mais eu puxava mais algo a puxava de volta. Era real demais para ser sonho, então quando abri os olhos vi uma mulher de pé em minha frente puxando minha coberta. — O que diabos você está fazendo?! — Meu tom de voz saiu rude enquanto eu puxava a coberta com força de volta, fazendo ela soltar sem querer. A mulher me encarava com a expressão tão neutra, que fiquei assustada. Parecia uma maluca, ou talvez fosse o efeito de estar há muito tempo nas ruas. Ela estava suja, com roupas rasgadas e cabelos que pareciam não ver pente há muito tempo. Com força grosseira, senti a coberta ser puxada novamente para longe de mim. — Não! O qu… — Gritei puxando a coberta com tanta força ao ponto de me bater contra o chão novamente com força, o movimento me fez olhar para o lado e então vi um minúsculo bebê enrolada em pedaços de papelão e tiras de sacola plástica. Fiquei horrorizada com aquela cena, em como ele tremia com calafrios e por alguns milésimos de segundos julguei a mãe daquela criança, mas então entendi ela. — É seu filho? — Questionei um pouco baixo pelo choque, ou talvez pelo sono. E então ela não disse nada, apenas levou a coberta que cedi e enrolou o bebê. A mulher balançava a criança em seus braços enrolado na coberta, e enquanto balançava cantava algum tipo de canção de ninar inventada. Fiquei sentada ao lado da sua “cama”, apenas observando sem saber o que dizer. Mas na verdade, minha vida andava assim ultimamente. Eu não sabia mais o que fazer ou dizer, estava tudo perdido, pelo menos para mim estava. — Desculpa… — Ela começou a falar baixo envergonhada e parecia que tinha mais coisas a dizer, porém se calou. — Tudo bem. — A confortei. — Se meu filho não se aquecer logo, ele pode morrer. Ele… está quase morrendo. — Seu tom de voz continha dor e eu conseguia sentir a sua preocupação. — É um recém-nascido? — Questionei pausadamente mais questionando a mim do que a ela. A mulher apenas assentiu e baixou a cabeça para olhá-lo, aconchegando-o na coberta. E então o frio não me importou mais tanto como importava antes, pelo contrário. Senti raiva. — Por que mora nas ruas? — Questionei. — Meu marido me colocou para fora de casa para colocar a namorada. — O modo como ela falava parecia algo tão natural, e o fato dela chamar “namorada” ao invés de “amante” me indignava mais ainda. — Amante, você quis dizer. — Não. Eu que era a amante, ele já era casado e tinha família, eu não sabia. — A mulher balançava o filho nos braços. — Expulsou você grávida? — É. Um longo silêncio se formou por um tempinho até que eu falasse novamente. — Você não tinha nenhum lugar para ir? — Não. — Seu tom de voz seco pareceu óbvio. — Ninguém fez nada, nem mesmo as autoridades. A encarei sentindo a indignação me consumir, sabendo agora ainda de uma forma mais intensa que a justiça não existe para pessoas como ela, e no momento, como eu. — Tudo bem. — Levantei do chão. — Pode ficar com a coberta. — E você? — Seu tom de voz saiu mais alto como se estivesse preocupada. — Fica com a gente. Podemos nos virar juntas, não precisa ir embora. — Eu vou embora. Ficarei bem, prometo. Vou atrás de alguma melhora, estou cansada de viver no frio e comer comida jogada dos supermercados e restaurantes. — Para onde você vai? — Eu não sei, mas eu volto. Dei uma última olhada no bebê e então com minha mochila caminhei mais uma vez pela estrada sem rumo e sem a menor ideia de para onde iria. Mas desse jeito eu não viveria mais, disso eu tinha certeza. Eu tinha um sonho antes, estudar e fazer faculdade. Ser alguém, ter um nome, trabalhar de carteira assinada ou até mesmo apenas ser uma ricassa solitária. Queria ter dinheiro, a vida que eu nunca tive. Não queria ser essa garota que vaga pelas ruas, ou ser para sempre uma mulher como a minha mãe. Não que eu me envergonhasse dela, mas eu tinha sonhos diferentes dos que ela me mostrava. Então vendo aquela mulher, eu decidi. Decidi que iria sair daquele lugar a qualquer custo, sem me preocupar com nada. Eu já estava ferrada mesmo, não existia mais nada pior que não pudesse piorar, então se eu ia viver um inferno de qualquer forma, eu o viveria lutando por algo em troca.
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