17 Ruby

2002 Words
Meu corpo está em chamas, eu o quero, por inteiro. Mas meu corpo também sente pudor, medo, estremecimento… homens não são confiáveis e mesmo que eu não o veja como uma ameaça, é r**m meu subconsciente aceitar isso. Encaro meu reflexo no espelho, meus olhos arregalados e o peito dolorido. Seguro meu gloss cheio de glitter nas mãos e o deslizo sobre os lábios em silêncio, vejo algumas das garotas me observando enquanto saem pela porta para começarem seus shows. Toco suavemente meus lábios com os dedos os sujando com um pouco do gloss, ainda conseguindo sentir o beijo de Dean. Me imagino sendo a namorada de alguém tendo apenas um olhar sobre mim, mas essa realidade estava longe da minha atual. Observo meu pescoço no espelho e o seguro com a mão como se ainda pudesse sentir o toque da mão dele, vejo também do outro lado do quarto a camisa de gola alta que lavei e deixei secando. Parece até que ele está aqui, ou seja só eu ansiando que ele estivesse e que estivéssemos em algum lugar melhor. A porta do quarto é aberta com um estrondo, acabo estremecendo com o susto mas finjo não ter sentido enquanto encaro o chão de cabeça baixa. Vejo os pés de Ruth ao meu lado cobertos pelo salto preto elegante. — Por que já não está vestida? — Sua voz soa rude. Noto que já não está nos melhores dias. — Estava me maquiando, queria ficar sozinha… eu ia agora me vestir. — Ter te colocado como principal fez você ficar mesquinha, se achando superior às outras. — Ela chutou a escrivaninha me assustando novamente. — Não fui clara quando disse que todas devem se arrumar juntas no vestiário, e que ele servia para isso? O que te faz pensar que merece um tempo sozinha no quarto? Está se achando dona do quarto também? — Não, senhora. Me desculp… — Você só está me dando prejuízos, e só me dá trabalho. — Ela me cortou. — Sua dívida só cresce, Rubi. Ruth segurou meu queixo erguendo meu rosto para cima, para olhar em seus olhos. A firmeza em meu queixo fazia com que meus olhos se apertassem pelo incômodo, me deixando indefesa e me fazendo sentir uma submissa. — O combinado era você fazer os negócios dispararem, com seu rosto lindo e seu corpo demoníaco. — Sussurrou. — Te dei o privilégio de não precisar se prostituir, mas se continuar só aumentando as suas dívidas vou ter que obrigar você a se prostituir. — Não, por favor… — Balancei a cabeça negativamente em desespero. — O dinheiro das suas roupas, maquiagem, comida, produtos de higiene, material escolar, deixa eu ver o que mais… — Fingiu pensar com uma expressão ameaçadora. — O aluguel da casa para aquela sua amiga com o bebê recém nascido também, não é? Eles gastam muito também, mas você não quer vê-los na rua novamente, não é? Balancei a cabeça negativamente com os olhos marejados encarando seus olhos sentindo o medo tomar conta de mim, a fraqueza de uma garota sem opções e sozinha no mundo. Sinto um ardor no rosto por um tapa que ela me deu. — Não é? Você está me entendendo!? — Gritou balançando meu rosto. — Entendi, senhora. — Muito bem. — Ela sorriu simpática agora. — Agora você vai se arrumar rapidinho, vai até aquele palco e vai dar o seu melhor. Minha paciência está se esgotando com você, e senão me der resultados eu faço você dar. — Ruth soltou meu queixo com um empurrão me fazendo cair para trás. Sentada naquele chão fiquei encarando a porta, as lágrimas começaram a descer e borrar a maquiagem e me senti ridícula. Ajoelhei aos pés da cama e chorei. Chorei sem me preocupar com o depois, porque prometia para mim mesma que quando levantasse iria fazer valer a pena. Lembrei de Deus, não era religiosa mas sempre recorria a ele. Juntei as mãos em cima da cama e fechei os olhos, respirei por alguns segundos e comecei a rogar. — Senhor, me ajude. Estou implorando para que você me ajude, pois sei que não te agrado, mas preciso muito de dinheiro e não sei que rumo a minha vida está tomando mas… as coisas estão desmoronando… por favor, me ajuda. — Minhas bochechas estão úmidas e meu coração dói. Levanto do chão e então me visto. Quando chego na porta do quarto, vejo que as garotas já estão saindo para o palco. Minha cabeça não consegue mais focar e nem mesmo pensar em mais nada que não envolva dinheiro, tento desejar e querer Dean, mas tudo o que eu só consigo pensar agora são em números. Me olho no espelho pela última vez, encarando meus olhos como se ali estivesse uma chave e que dali sairia outra pessoa. A Rubi. E que ela desse o show que essas pessoas querem. Caminho devagar com o som dos meus saltos colidindo contra o chão, passos firmes e confiantes cheios de sensualidade. A boate inteira está em silêncio, como se o som dos meus saltos fossem tão impactantes dessa vez, que os tomaram toda a atenção. A luz gigante apontava para a parede como se me esperasse, vejo enquanto estou parada no final do corredor e então continuo caminhando devagar porque mulheres com presença forte são calmas. Quando chego na mira daquela luz gigante vejo a boate inteira escura, a luz somente em mim porque eu sou a estrela, e a minha luz ilumina tanto, ao ponto de me permitir vê-los mesmo no escuro. Meu cabelo está murcho, minha maquiagem meio borrada pelas lágrimas salgadas e visto um sobretudo de cetim. Visivelmente desajeitada, meu olhar cruza com o de Ruth e ela me lança um olhar com ódio que me estremece. Todos nos olhamos, com um silêncio ensurdecedor que parecia estar ali por tamanho choque. Então desamarro meu sobretudo, o deixo cair sobre o chão e jogo o cabelo para o lado. Os homens gritam, e começo a caminhar como se tivesse um segredo. Jogo os quadris para os lados e lanço meu olhar mortal para aquelas pessoas, mas elas devem acreditar ser olhar de luxúria. Visto um sutiã prateado, glitter que me ilumina mais do que o holofote e minha mini saia cintura baixa jeans. O som dos meus saltos batendo sobre o chão ecoa naquele lugar, e eu sei que todos ali irão sonhar com esse som. Olho novamente para Ruth e a vejo com a expressão mais suave. Quando chego no meio da passarela, viro levemente de lado deslizando as mãos sobre as nádegas, sorria para um daqueles homens de terno enquanto isso. Viro para frente novamente deslizando as mãos também sobre os s***s, brincando com alças ameaçando tirá-las. Sorria como se amasse fazer isso e como se amasse ver aqueles homens comemorando como animais. Continuo meu percurso, e agora que as coisas foram minimamente aceitáveis, preciso deixar ela perfeita. As garotas voltam fazendo duas filas, uma de cada lado meu. Puxo uma delas para minha frente, seguro seu queixo e a beijo. Como uma telepatia, as outras garotas também se espalham em volta aproveitando a ideia. Alisam a b***a da garota, brincam com a minha saia como se fossem baixá-la. Alisam nossos corpos, sinto mãos em meus s***s e dentro do meu cabelo os puxando e deixando minha cabeça firme ali como se me obrigassem a beijar aquela garota. De repente, não sou mais eu ali. Todos aquelas pessoas mantém seus olhos em mim, e eu mantenho meus olhos neles. Eles cheiram pó, se embriagam, pagam por sexo, jogam truco, jogam sinuca e entre outras coisas, e eu apenas julgava, porém agora sem perceber, eu era um deles. Puxo um pouco da blusa daquela garota para baixo revelando seus s***s, separo o beijo encarando seus m*****s descobertos e sem pensar no que estava fazendo abocanho um o puxando entre os lábios. Mais uma vez aqueles homens assobiam e gritam. É maluco pensar que eu sou a favorita não só pela beleza, ou por sensualidade, toda mulher tem. Mas eu era a favorita por causa da idade. Dou um tapinha em sua bochecha e sorrimos uma para outra cheias de luxúria, volto a desfilar fazendo meu percurso enquanto balançava a cabeça e sorria me fazendo de descolada. Quando cheguei ao final da passarela sorri cheia de luxúria uma última vez e fiz o desfile de retorno. Quando cheguei no corredor saí correndo até o vestiário, me joguei no chão sentindo meu coração corroer, me sentia suja ou só normal, era confuso. — Que p***a foi aquela? — Ouvi a garota que beijei questionar tirando satisfação. Me arrastei até o canto da parede me encostando nela, enquanto uma roda de mulheres ficavam paradas em minha frente. — Eu não sei… não pensei direito. — Respondi colocando o rosto entre as mãos. — Pensou sim, porque foi perfeito. — Ruth surgiu no vestiário. — Perfeito!? — Gracy repetiu incrédula. — Achei que o combinado era não expor ela, não mostrar muito do corpo de uma menor de idade e nem mesmo encostar! — Quem tocou primeiro foi ela mesma! — Outra garota pontuou. — Você não pretende aprovar essa ideia, não é? — Gracy questionou a Ruth. Quando aceitei esse “emprego”, ela sempre prometeu, não aceito prostituição de menores no meu estabelecimento, ninguém irá encostar em você. Chega até a ser piada, porque era óbvio que isso seria mentira. Até porque ela não poderia controlar isso, não tem como controlar centenas de homens excitados. — Homens amam paradas lésbicas. Eles estão ali fora pedindo valores cada vez mais altos pela nossa Rubi, e como nossa Rubi é só uma peça no nosso jogo, vão se conformar com a garota que ela beijou. — Ruth anuncia. Levanto meu rosto olhando para aquela garota, que agora me olha diferente, sem mais tanta raiva. — Ela aumentou a clientela para mim? — Questionou desacreditada. — Estão apostando valores cada vez mais altos. — Ruth assentiu sorrindo. — Fez um ótimo trabalho, Rubi. Elas comemoraram, saíram caminhando e me deixaram ali. Parecia mentira, era algo tão chocante para mim mesma me vendo nessa situação que era difícil digerir. Ergui o olhar vendo Tânia ali parada me olhando, foi a única que ainda não voltou atrás dos clientes. — Ali fora tem pelo menos o dobro dos homens que tinham há alguns meses atrás. — Disse ela do nada. — Que bom, não é? Significa que minha dívida com a Ruth vai ser paga rápido. — Acorda, Ruby. — Ela me chamou pelo nome me fazendo encará-la com um olhar mais sério, pois aqui ninguém me chama pelo nome. — Ela não está fazendo isso para atrair clientela para nós. — Como? — Ergui uma sobrancelha. — Então está atraindo clientela para quem? — Para você! — Mas… — Quando você estiver maior de idade, vão ter centenas de homens querendo pagar fortunas por você depois de esperar por anos já que você era menor de idade, e esse era o problema que já vai ter sido “solucionado”. — Me cortou. Fiquei encarando seu rosto pensativa, me sentindo em um jogo e notando que realmente eu estava em um ninho de cobras. Estava em uma poça de lama movediça e só afundava cada vez mais. — Tânia, você não vem, que merda! — Ruth surgiu na porta chamando sua atenção. Tânia saiu para a boate e eu fiquei ali. — Agora você pode ficar sozinha, não queria um tempo sozinha? Aproveita que as meninas vão estar trabalhando hoje e o quarto está vazio. — Ela falou com o tom de voz de cachorro abandonado, provavelmente depois de me tratar como mais cedo e agora eu ter dado resultado. — Acho que é até melhor para você, para a sua segurança. Eles estão agitados hoje. Ruth ficou me olhando esperando por uma resposta, como não falei nada ela saiu. Fiquei sozinha novamente, com meus pensamentos.
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