05 Ruby

1461 Words
Dois anos depois… Sozinha no único banco vago do ônibus faço uma longa viagem muito divertida. Estou indo para a escola, o lugar onde ou você faz ser a melhor época da sua vida, ou a mais traumática. Ou os dois. Existe pessoas - como eu - que conseguem fazer os dois. A escola pode ser o lugar onde você encontra o amor da sua vida, ou a amizade da sua vida. Eu nunca consegui nenhum dos dois, mas já acreditei que tivesse. E adivinha... Eu não tinha! Tenho a capacidade de fazer todos me odiarem, é como se eu tivesse uma tatuagem escrita “me odeie, me faça sofrer”. — Posso sentar aqui com você? — Uma garota com miopia e astigmatismo - usa óculos - pediu para sentar ao meu lado. — Não. — Respondi com a expressão e tom de voz neutros. Ela sorriu e sentou ao meu lado. Olhando a janela eu podia ver uma linda paisagem, carros passando e bastante trânsito, como sempre. Minha vida não é um exemplo de coisas mais belas do mundo, percebe-se. Pego um ônibus todos os dias para a escola, por mais que minha vida não seja fácil para incluir os estudos, eu tento. Todos os dias arrumo a boate duas horas mais cedo, corro o máximo que posso para pegar o ônibus a tempo antes do meio-dia. Estudo em outra cidade, é… longa história. Parece ser angustiante mas não é tanto. É, é um pouco. — Você fez o trabalho de matemática? — A garota de óculos questionou com seu semblante pálido, sua expressão estava assustado como se estivesse visto um cadáver. Línea é uma das únicas duas amigas que consegui fazer nesse lugar em um mês nesse bendito lugar. Mas é legal, afinal… no outro colégio eu fiz um número bem maior de inimigos. Então entre um e o outro, prefiro as duas amigas. Abby não veio hoje. Não me surpreende que ela tenha faltado na segunda-feira, isso é muito coisa de Abby. Vem um dia para a escola e falta 3. — O professor havia pedido um trabalho? — Minha expressão deve estar igualmente a dela agora. — Ruby! — Línea me encara com reprovação. — Eu estava dormindo, não tenho culpa. Línea me olhou como se dissesse "fala sério, eu preciso responder?". Mais uma vez vou ter que dar o meu jeito para conseguir dá conta da escola e da boate ao mesmo tempo. É difícil ter uma vida dupla, a noite inteira trabalhando na boate como garçonete, apesar de ter mais garçonetes, mas acredito que como eu sou a “principal”, Ruth inventou uma nova vaga para me contratar para os interesses dela. Pela manhã organizar algumas coisas domésticas, cada uma das meninas fazem algo, uma lava, a outra passa, outra cozinha… enfim. Me arrumo para a escola apressada, passo a tarde inteira na escola e quando chego na boate já tenho que me arrumar para trabalhar à noite. Só posso dormir quando o dia está quase amanhecendo, quando todos os homens estão nos quartos com as garotas. É claro que é difícil, mas não consigo me interessar com a escola. Já fui uma garota que levava os estudos a sério, e conseguia ver um futuro para si mesma. Mas não consigo mais, sinto que a vida não me reserva mais nada. Então atualmente estou assim, da boate para a escola e da escola para boate. Na boate fico o tempo inteiro pensando na escola, e na escola durante a aula toda pensando em voltar para a boate. Quando me tornei isso? Esse assunto ainda é delicado para mim. Estou cansada de vender o dia para ganhar a noite, e vender a noite para ganhar o dia. Parece que estou constantemente pagando uma dívida sem fim. — Ruby! — Línea gritou comigo. A olhei sem entender, uma raiva fervia o meu sangue por ela me chacoalhar sem necessidade mas tentei ignorar. Ergui a sobrancelha rapidamente como se pedisse para ela dizer o que queria falar. — O ônibus já está quase indo embora, não vai descer? Vai ficar na garagem presa dentro do ônibus até a aula acabar? — Línea resmungou me dando "bronca". — Por que você não pode encostar em nada e já dorme? Tenta dormir mais a noite, pelo amor de Deus. O que faz tanto a noite que não dorme? É óbvio que ela não sabe. Nunca vou contar, na última escola que estudei, não deu muito certo quando souberam. Por isso decidi estudar o mais distante possível da boate, assim provavelmente ninguém saberia sobre ela. Revirei os olhos e levantei do banco indo em direção à porta. O motorista sorriu para mim, creio que sorri para todas as meninas do ônibus. Velho enxerido. A pior parte de estudar em outra cidade, é chegar na escola uns 45 minutos antes do portão abrir e não ter um lugar fixo para ficar. Todos os dias, maioria dos alunos do turno da tarde sentam nos bancos da pracinha. Línea, Abby e eu fazemos parte dessa maioria. O turno da tarde é um pouco mais injusto, digo isso porque o turno da tarde é mais desvalorizado. Geralmente, ou pelo menos nessa escola, no turno da tarde estudam apenas as pessoas "excluídas". E com excluídas me refiro a pessoas que moram fora da cidade, que não vem de boa família, não é super extrovertido, não é rico... Ah! E não é dono de uma beleza e desumildade alarmante. Escolhi estudar em uma escola pública e nesse turno para tentar pelo menos ser melhor aceita já que geralmente nesse turno tem muito menos alunos, e acho que funcionou. Todos parecem não saber da minha vida. Os alunos do turno da tarde são vistos como os "sem futuros", "bandidos, criminosos e marginais". Se a vida fosse um filme, diriam que são "Sem classe". Enfim, vêem os alunos do turno da tarde como a "perdição do colégio", e por mais indignante que possa parecer... A quantidade de alunos do turno da manhã sola a quantidade de alunos do turno da tarde, isso é realmente algo que nem se discute. Chega a ser humilhante. É claro que por esse motivo de quantidade de alunos, que os alunos do turno da manhã são mais "queridos" pelos funcionários. Quer um exemplo? Ficamos no lado de fora da escola esperando o portão abrir, faça chuva ou faça sol, o problema é inteiramente seu. Se você se molhar na chuva ou desidratar no calor, a escola não é responsável já que você não estava na escola. É... Indignante, injusto... O que mais me deixa com raiva, é que eu fazia parte desses alunos "privilegiados" só que em outra escola. Mas como alguém oprimida que nasceu para ser do turno da tarde, assumi a minha realidade. Me transferi de escola no começo desse ano. — Que horas são? — Questionei para Línea me abanando com um leque de papel improvisado que fiz por conta do calor. Lina que estava com as bochechas vermelhas igual tomate tirou o celular da mochila, e então virou a tela para mim. 12h40m — Eu só queria aquele ar-condicionado agora. — Resmunguei derretendo no banco da pracinha. — Queremos. — Línea complementou tirando força de não sei onde para falar. A vida de paz depois de tanto tumulto era chata demais, eu não estava mais normalizada a levar essa vida de uma simples estudante na pracinha há uns 100 metros do colégio, derretendo de calor a espera do portão abrir. Estava acostumada com palavrões, drogas, bebidas alcoólicas, homens e mulheres seminus se esfregando pelos cantos. Eu estaria agora, na boate fumando um cigarro que um velho de 50 anos me deu e bebendo enquanto dançava fingindo realmente ser a garçonete. A verdade era que eu era avulsa naquela boate, não tinha trabalho para mim, tinha garçonetes/garotas de programa demais. Meu trabalho era apenas ser um enfeite que ninguém podia tocar, a daminha para ser admirada. Línea levantou do banco sacudindo a poeira e caminhando, eu só a seguia. Não conversamos muito, eu apenas a sigo. Geralmente quando Abby está aqui costuma conversar comigo, mas ela está sempre faltando. Sempre que Lina sai andando assim quer dizer que já deu a hora. Atravessamos a rua olhando sem muita atenção para os dois lados, um carro passou buzinando como se nos desse sermão por atravessar sem olhar. Atravessar a rua sem olhar é o mais legal que tenho feito esse ano. Mais uma vez caminhamos pelo portão, passamos por aquele corredor de testosterona - cheio de garotos - e seguimos até a sala. Desde que cheguei, desde tudo o que aconteceu sinto como se todos me olhassem com olhares negativos. É como uma marca que ficou em mim.
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