Centros de cidades, tudo o que sempre procuro. Afinal, qual homem gosta de passar o dia inteiro mofando dentro de casa?
Gosto da liberdade, da sensação de ser alguém livre para viver e conhecer a vida.
Um garoto aos 19 anos, o que se espera dele? Eu ainda tenho um futuro? Me pergunto muito sobre quem sou.
Talvez eu esteja brisando de tanta erva que acabei de fumar. O que pode ser melhor do que isso? Ir a escola?
— Por que diabos todos os dias você vem vestido assim? — Jason questionou divertido.
— Não é da sua conta. — Respondi soltando a fumaça de meus pulmões no ar vendo ela ir embora.
— Está vestindo uniforme, está indo para a escola? — Jason insistiu irônico.
— Já falei que não é da sua conta. — Retruquei novamente.
— Qual foi, Dean?
— Qual foi o que? Quer que eu fale mais o que? — O encarei já perdendo a paciência.
— Você precisa fumar mais uns 3 baseados para ver se esse seu estresse vai embora. — Jason resmungou levantando da calçada e indo embora.
Fiquei alí sentado enquanto esperava o relógio marcar 17h30m, essa tem sido minha rotina nos últimos dias.
Deitado na calçada as garotinhas do fundamental passavam pela rua, todas que passavam me olhavam com um olhar curioso. Eu sorria e piscava para elas por pura diversão, era engraçado ver como elas coravam.
As horas parecem nunca passar.
17h20m e eu coloco as mãos no rosto tentando manter a paciência, mas é claro que não ajuda. E a aula acabar todos os dias cedo não cola, mães não são idiotas.
Viro para o lado vendo uma garotinha que aparentava ter mais ou menos uns 14 anos. Ela estava vindo conversar comigo. Sempre nesse grupinho de pré-adolescentes pelo menos uma tem coragem de vir falar com a "presa" delas, o mais famoso "crush mais velho".
— Sua aula já acabou? O ensino médio geralmente demora mais que o fundamental, ou você ainda estuda no fundamental? — A garotinha me encara sorrindo radiante.
A encaro novamente tentando fazê-la se tocar que não preciso de companhia.
— Sou do ensino médio. — Respondi seco acendendo um cigarro normal.
— Não estou interessado em conversar. — Respondi seco.
— Co-como é...
— Vaza daqui. — Ordenei tentando não parecer tão rude.
A garotinha assentiu, levantou e foi embora.
Continuei sugando a fumaça de meu cigarro enquanto observava a garota pela visão periférica ir de encontro as amigas.
Travo o maxilar enquanto jogo o cigarro ao chão, piso em cima para apagar a chama. Então saio caminhando para longe enquanto me desfaço do restante da fumaça.
Garotas jovens se atraem pelos caras mais velhos acreditando serem maduras, e é óbvio que esses merdas se aproveitam, já que elas são presas fáceis. Mas eu não faço parte disso, porque tenho caráter, por mais que soe irônico.
Caminho pelas ruas já escuras por conta da noite que se aproxima, o céu já está em um tom azul escuro misturado com roxo e a meia-lua já está aparente junto com as estrelas.
Voltar para casa no final da tarde é agoniante, tudo exala solidão. Você passou a tarde inteira se "divertindo" e agora está voltando para casa com a expressão séria já imaginando a sensação de dormir o restante da noite.
Limpo os pés no tapete, giro a maçaneta da porta e caminho para dentro de casa.
Fui convencido de que passaria despercebido como um estudante que vai todos os dias para a escola, como tenho passado todos os outros dias.
— Dean! — Raquel grita da sala.
Tento correr para o quarto, mas não adianta. Ela me alcançou aparecendo na frente do meu quarto magicamente antes que eu entre.
— Qual foi?
— "Qual foi?" — Raquel repetiu com seu tom de indignação. — Não use esse tipo de linguagem comigo como se eu fosse um dos seus amigos, eu sou a sua mãe, Dean!
— Está bem, já entendi. Agora posso ir para o meu quarto? Acabei de chegar.
— Hoje eu fui até a escola em que supostamente você estuda, falei com professores e seus colegas de turma que nem ao menos lembram de você. — Ela disse tentando manter a voz baixa.
A encaro sério, fingindo plenitude e calma. Esse tem sido meu talento nos últimos dias, fingimento.
— Você falou meu sobrenome? Tem outro Dean na minha turm...
— Você não está mais indo para a escola há meses, Dean! — Raquel gritou me interrompendo.
— Claro que estou indo, você me vê saindo de casa com o uniforme todos os dias! — Gritei de volta.
— Não, você não está! O que quer fazer com a sua vida? O que acha que está fazendo? — Ela chacoalhou meus ombros. — E esses olhos vermelhos? O que pensa que está fazendo com você, meu filho?
— Seja o que for, isso não é da sua conta! — Gritei com raiva e senti meu rosto arder logo em seguida. Olhei para ela, e a vi com a mão estendida me encarando de volta. — Você me bateu?
Raquel ficou me encarando sem reação nenhuma, não esboçava nenhuma expressão.
— Eu já tenho 19 anos, não preciso que fique se metendo na minha vida. — Falei em um tom mais instável.
— Enquanto você morar embaixo do meu tet...
— Então eu vou embora, quis ter ido antes, mas você fez um drama e não me deixou ir. Então saia da minha frente e eu vou. — Ordenei a interrompendo.
— Dean...
— Saia da minha frente e eu vou embora agora mesmo!
— Faltam apenas alguns meses para você concluir o ensino médio, por favor... É só isso que eu peço a você... Você está acabando consigo mesmo, Dean… — Sua voz pareceu chorosa.
— Eu não quero mais ir para a escola, já falei! — Resmunguei.
— Dean! Eu já estou cansada de você, quer ser um menino rebelde? Você quer acabar como aqueles viciados mendigos da rua de baixo? Aqueles que tinham tudo mas perderam por causa das drogas? — Raquel gritou aparentemente com raiva.
— O que você quer que eu faça, p***a!? — Gritei de volta.
— Eu não criei você assim! Eu criei você para se tornar um bom homem, e eu não consigo assistir meu filho se desfazendo aos poucos e não saber nem mesmo o motivo ou sem poder fazer nada!
Raquel caminhou para frente me fazendo recuar para trás até encostar na outra parede.
— Antes de querer me tornar um bom homem, você deveria se certificar se eu realmente tenho vocação para ser um!
— Você tem, Dean. Você só precisa que alguém te mostre isso. — Raquel forçou um sorriso.
— E quem seria esse alguém? Você? — Ironizei.
Raquel saiu andando demorando para me responder.
— Eu não sei mais. — Sua voz vinha de longe já que ela estava em outro cômodo. — Você vai voltar para a escola amanhã, você querendo ou não.
— Nem pensar. — Retruquei.
— Você vai, Dean. Não estou sugerindo, estou mandando.