Desço do ônibus revirando os olhos pela rotina de todos os dias - esperar um bom tempo para finalmente entrar na escola - Línea e Abby vinham logo atrás.
Observo a pracinha pela milésima vez sinto como se tudo aqui exalasse tédio, não consigo encontrar animação em nada aqui. É tudo tão tedioso, tudo tão parado.
— Que silêncio é esse? — Abby quebrou o silêncio.
Já faz uns 10 minutos que chegamos, e estamos em silêncio desde que descemos do ônibus.
A falta de adrenalina no sangue de alguém é perceptível, Abby já viveu aventuras, não como eu, mas já viveu aventuras familiares. Eu já vivi aventuras rebeldes, e familiares. Somos como alguém maduro diria, "mais para frente". Garotas que zoam, brincam, não sentem vergonha com tanta facilidade, gargalham, conversam em voz alta, tudo isso naturalmente. Línea não consegue, não sente a adrenalina nas veias.
Até porque não tem como eu não ter adrenalina, meu trabalho exige um pouco disso.
— Que silêncio constrangedor. — Ironizei. Era difícil agir como uma adolescente comum.
— Vocês não tem nada para contar? Nenhuma fofoca? — Abby questionou brincalhona.
Olhei para Línea que apenas nos entreolhou e continuou em silêncio. Ela nunca começa uma conversa com absolutamente nenhuma atitude que venha diretamente dela.
É estranho dizer isso mas é perceptível como eu tenho uma parcela de importância nessa amizade.
— A Línea nunca tem nada a falar. — Brinquei. — Eu também não tenho.
Abby gargalhou olhando para Línea que a olhou com desdém por estar rindo dela.
— Eu ouvi aquelas meninas que sentam lá na frente, estavam falando sobre um menino. Parece que a mãe o matriculou, e ele estava mentindo todo esse tempo dizendo que estava indo para a escola, mas estava indo para outro lugar para fazer coisas erradas, vocês entenderam, não é? — Abby disse gesticulando segurar um cigarro nos próprios lábios.
Assenti. Vi Línea arregalar os olhos e em seguida começar a falar, me surpreenderia mas ela sempre conversa quando o assunto é algo que ela entenda. Não que eu esteja querendo dizer que ela fume baseado, mas sim que ela provavelmente estudava na mesma turma que esse garoto ano passado.
— Ano passado ele estudava na mesma turma que eu! Sei quem é! — Línea apontou. — Ele vinha para a escola e não fazia nada, só conversava com os parceiros dele. — Ironizou.
Eu ouvia, mas não me interessava muito na conversa. Sabe quando você está tão desinteressado em algo mas finge estar interessado somente para se manter presente na conversa? Então.
— Dizem que ele ficou assim depois que o pai foi preso por bater na mãe dele. — Línea prosseguiu.
— Eu nunca tinha reparado que chamavam o nome dele na chamada. — Comentei deitando por completo no banco da pracinha e observando o céu agora.
— Até porque os professores já vêem ele como desistente, talvez nem mesmo chamam o nome dele, só colocam infrequência. Ele não veio nenhuma vez esse ano, e já está quase no segundo bimestre. — Abby falou.
Viro a cabeça para o lado vendo Línea voltar a mexer no celular do outro lado do banco.
— Como ele era, Línea? — Questiono tentando trazê-la de volta para a conversa.
— E eu vou saber, não ficava reparando nele. — Línea retruca rude. Burra.
— Estou me referindo a personalidade dele, seu asno. Ele era chato, respondia os funcionários com ignorância, dormia a aula inteira, era brincalhão com todos, era na dele, fumava escondido no banheiro, vinha de ressaca para a escola, era cheio de tatuagens e piercings, como ele era!? — Esbravejei perdendo a paciência em menos de um milésimo de segundo.
— Sei lá. — Deu de ombros. — Ele era amigo daqueles meninos do fundão.
Amei a explicação, achei bem descritiva e super respondeu meu questionamento.
— Arrasou, estou conseguindo visualizar ele na minha imaginação agora. — Abby ironizou fazendo gestos na própria testa me fazendo rir. Sempre acho as ironias dela engraçadas, não sei o porquê.
Línea lança um olhar de desdém para Abby novamente me fazendo rir um pouco mais. Ela olha o relógio de pulso e então levanta, fazendo com que nós entendemos que já é hora de ir. Então quase nos arrastando começamos a caminhar.
— Estavam falando que provavelmente ele vá voltar, porque a mãe dele veio conversar com a direção e fez um escândalo. — Abby falou.
— Um macho alfa, o mais perigoso e é mandado pela mãe. Chega a ser irônico, não que eu seja contra isso, mas é que baseado na descrição que fizeram dele, parecia ter jeitão de "perigoso" "temido"... — Falei minha opinião mas fui interrompida por Abby.
— Sim! — Abby deu ênfase com bastante intensidade no "sim". — Esses meninos que dão uma de machões são todos uns franguinhos. Olha! — Apontou para os meninos que sentam no fundão caminhando juntos na nossa frente bem mais distante de nós, indo em direção à escola. — São muito sigmas, as pernas das mulheres ficam até bambas. — Ironizou me fazendo gargalhar alto ao ponto de um deles olhar para trás.
Finjo pegar algo no chão para disfarçar, já que Abby não dá a mínima e nem mesmo repara se eles perceberem que estamos caçoando deles. Lerda.
— Mas será que esse garoto volta mesmo? — Abby volta ao assunto. — Se voltar espero que não seja barulhento e inquieto como aqueles alfas alí. — Gesticulou para os garotos com o queixo.
— Se voltar, não mudando nada na minha vida está ótimo. — Falei impaciente.
Caminhamos pelo corredor do colégio indo em direção à nossa turma, vendo os outros alunos alí nos encarando com desdém como sempre. Isso é tão irritante, eu não sei explicar, é irritante ver alguém se achando melhor que as outras pessoas.
O dia estava completamente normal, apenas um dia comum. Nada de extraordinário, e nem nada suficiente para me animar. Tudo alí exalava escuridão, desânimo profundo. Normal de uma segunda-feira.
Sento na quarta cadeira da quinta fileira como todos os outros dias, então abaixo a cabeça sobre a mesa.
Línea e Abby sentam nas suas cadeiras em silêncio, mas ouço conversarem sobre algo. Talvez Abby esteja pedindo ajuda com algum trabalho escolar.
O sinal toca, ouço os alunos entraram na sala e alguns se baterem nas cadeiras ao entrar. Garotas gritando para chamar atenção, e homens reclamando de algo. Tudo normal como todos os dias.
Levanto a cabeça olhando para a janela, vejo como o céu está assustadoramente nublado. O tempo completamente fechado como se fosse cair uma tempestade como nunca havia caído antes, chegava até mesmo a assustar.
Não era comum que meio-dia parecesse com o anoitecer de 18:00, estava errado.
— Boa tarde, turma! — O professor chato de matemática entra, pesando ainda mais o ambiente. A primeira aula de uma segunda-feira sendo de matemática.
— Boa tarde! — Alguns responderam.
— Passarei alguns exercícios relacionado ao nosso conteúdo mensal, então preciso que todos participem para que eu consiga identificar as dificuldades de cada um. — Ele já começa indo direto ao ponto.
Alunos reclamam e bufam. Discutem, mas não dou atenção.
Minha atenção está direcionada a esse céu tenebroso, que me assusta e parece me sugar. O frio que se instala não parece normal, vai aumentando cada vez mais.
Olho para meu braço e vejo meus pelos completamente arrepiados, minhas unhas roxas, e meu queixo treme.
Merda! Não trouxe casaco.
Mas olho em volta e vejo os outros normalmente, não que não estejam sentindo frio. Mas parecem sentir frio normalmente, não como se estivessem nus dentro de uma casa feita de gelo na antártica, como eu estou me sentindo.
Esfrego os braços com as palmas das mãos, tenho a impressão de que quando respiro pela boca sai aquela fumacinha como nos filmes.
— Ruby? — Abby me chama me fazendo a encarar. — Está tudo bem? — Ela questiona quando fico vários segundos em silêncio.
— Eu... — Começo a falar, mas sou interrompida pelo barulho da porta.
Viro meu corpo ligeiramente para a porta, prendendo toda a minha atenção alí. Tudo passa em câmera lenta, a diretora na qual eu não via desde o primeiro dia de aula em que estava no portão entregando mini papéis com "Seja bem-vindo" impressos nele, estava entrando pela porta devagar. Pelo menos ao meu ver.
Aos poucos a silhueta de alguém, um garoto, um garoto com fisionomia bem mais de homem feito aparece na porta. Ele vai entrando devagar, olhando para o chão com o maxilar travado como se estivesse odiando estar alí.
É bem alto, curtos cabelos perfeitamente lisos e caídos sobre o rosto, fios amarelados que batem em seus olhos.
Quando ele mantém sua postura perfeitamente ereta ao lado da diretora que se posicionou em frente ao quadro, ele finalmente gira o olhar pela sala.
Seus olhos são intensos, neutros, não esboçam emoções, não esboçam sentimentos, não esboçam nada, só esboçam intensidade. Isso tem demais. Intensidade.
Não demora muito para que ele encontre meus olhos, já que olhou nos olhos de todos daquela sala. Mas não sei se ao meu ver está tudo em câmera lenta, mas tenho a sensação de que ele está me olhando bem mais do olhou para os outros, ou talvez tudo esteja em câmera lenta e dê essa sensação.
Ele está sim me encarando, pois sem conseguir desviar meus olhos dos dele vi pela minha visão periférica alguém arremessar uma bola de papel na lixeira, e ela vôou em velocidade normal, o que quer dizer que o ambiente não está em câmera lenta.
Este garoto me encara com seu olhar neutro, e por algum motivo não consigo desviar.
Quando se olha para alguém, você consegue criar uma opinião sobre ela. Você consegue decifrar algo nessa pessoa. Ele não.
Tudo nele exala mistério. Não consigo entender o que está pensando, não sei se me encara por raiva, por curiosidade, ou porquê estou o encarando de volta, mas nada é claro. Porque seu rosto é neutro.
Desvio meu olhar rapidamente para o céu lá fora, vendo gotas grossas de chuva caírem. Só então percebo que está chovendo muito forte, e eu nem mesmo notei.
Volto a olhar para o garoto, e ele estava encarando o chão entre as fileiras a sua frente.
— Olá, turma. — A diretora começa. — Vim aqui somente trazer nosso aluno, e colega de vocês novamente para a sala. Todos aqui devem conhecê-lo, já que ele estudou aqui junto com vocês. Deixe-me ver... — A diretora gira seu olhar pela classe até chegar em Abby. — Você era do turno da manhã, certo?
— Sim. — Abby respondeu.
A diretora me olhou. Então apontou para mim.
— Você é nova aqui, não é? — Questionou, eu apenas assenti. — Então, para vocês duas. Este é Dean, se ausentou por um tempo, mas irá retornar novamente. Dean, espero que não aja mais problemas, você voltou para ficar dessa vez. Se precisar de algo pode me consultar, ok? — A diretora alisou as costas dele. — Tem alguma carteira vaga, pessoal?
A mulher girou o olhar pela turma, e então parou na carteira ao meu lado.
— Tem uma alí ao lado da Ruby, Dean. Vá, seja bem-vindo, viu? — A diretora disse enquanto brincava com os cabelos dele e saía. Ele deu um meio sorriso para ela antes dela ir.
Ele não parece ser tão i****a como pensei que seria, seu sorriso forçado pareceu até mesmo simpático. De alguém que não queria estar ali, mas que não queria descontar sua raiva em ninguém.
Dean encarou a cadeira que a diretora sugeriu, seu olhar ficou neutro novamente. Ele então caminhou para outra direção, sentou em outra no fundão da sala, bem longe da cadeira sugerida.
Franzi o cenho encarando o teto. Ele sentou lá atrás para ficar perto dos amigos, Ruby. Não foi implicância com você, acho que você está muito traumatizada, mocinha.
— Aé, Dean. Está de volta! — Pude ouvir seus amigos gritaram animados enquanto ouvi sons de palmas se baterem, provavelmente fizeram um aperto de mãos.
Olho para Abby que está com o rosto direcionado para o fundão da sala, sua expressão é de julgamento. Provavelmente, conhecendo bem como a conheço, deve estar julgando o garoto "novo".
Abby sempre firma esse olhar nas pessoas, um olhar que julga até a alma do indivíduo. Não sou assim, não gosto de pessoas que agem assim, mas gosto dela porque ela é do bem.
— Estou, mesmo não querendo. — Dean riu irônico.
Ele riu. Ele ri. Te olhou como um psicopata mas foi apenas impressão sua, Ruby, é o jeitinho dele, ele é legal.