08 Ruby

1117 Words
Tentando dá conta, volto da escola e corro para o chuveiro. As outras me olham torto, murmuram e se mordem de ódio de mim. Sentem raiva por eu ser a preferida, e talvez mais jovem e mais bonita, benefícios da adolescência. — Onde está a minha Rubi? — Ouvi a voz de Ruth vindo do quarto. — Está no banho. — Alguém respondeu. — Escuta aqui, Ruth… Fechei o chuveiro, me envolvi na toalha e caminhei até o quarto. — Por que ela sempre ganha roupas novas, toma banho primeiro, é maquiada primeiro… ela só desfila de um lado para o outro, se quem faz o serviço somos nós? Ruth ergueu o tronco e encarou a mulher, caminhou até ela e o temor dela se tornou perceptível. — Ela chama atenção, atrai os clientes e faz com que vocês tenham mais serviços ainda. Não percebe o sucesso que tem sido esses desfiles? surgiram muito mais clientes. — Ruth a repreendeu. — Estava me procurando? — Questionei com a voz firme fazendo todas notarem minha presença. Ruth me olhou e sorriu, caminhou até mim tocando meu rosto. — Estava. Hoje haverá alguém muito especial para ver seu show, você tem que ficar impecável. — Ela comentou animada enquanto corria até os armários e procurava por alguma roupa. — De quem se trata? — Questionei franzindo o cenho. — Senhor Nakashima. — Quando Ruth disse, todas as garotas ficaram em silêncio me olhando. — O Senhor Nakashima estará presente essa noite só para vê-lá? — Uma delas apertou o maxilar com força, o ódio era tão visível em seus olhos que chegou a me assustar mesmo sabendo que nenhuma delas poderia fazer algo contra mim. Ruth jamais deixaria. — Não é da sua conta, mas estará sim. — Ela pegou um corset rosa claro, caminhou até mim e o colocou em minha frente como se analisasse como ele ficaria em mim. — Lindo, como eu imaginei. — Vai ficar bom em você, ainda tem tudo no lugar. — Tânia elogiou neutra e voltou a se maquiar. — Obrigada. — Murmurei baixando a cabeça. — Ei! — Ruth me chamou erguendo meu queixo para cima para olhá-la. — Você vai lá, e vai fazer aqueles homens enlouquecerem. Eles precisam ficar de bolas ardendo, entendeu? Nada de ficar acanhada ou abaixar a cabeça. Balancei a cabeça positivamente. — Entendeu? — Seu tom de voz soou rude. — Entendi. — Ergui o queixo para o alto fazendo com que a garota que eu preciso ser, saia e tome o controle. — Tem que ser confiante, abaixar a cabeça ou balançar a cabeça é sinal de acanhamento e não é isso que eu procuro. — Ruth resmungou. — Agora vá vestir sua roupa. Era engraçado esse tom, “vá vestir sua roupa”, só um corset, uma calcinha e uma meia arrastão branca. Quando saio do vestiário ela está me esperando na porta, me olha da cabeça aos pés e entorta o pescoço. — Que p***a de volume é esse na sua calcinha? A depilação não está em dia? — Ironizou. — É que eu estou menstruada, é só meu absorvente. — Menstruada? — Ruth questionou como se eu estivesse dizendo que estava com Aids. — Você não pode entrar lá assim. — Eu posso colocar um short, ou talve… — Não. Eu escolhi o corset e vai ser o corset. — Sua insistência me assustou. — Tive uma ideia. Ela caminhou até umas gavetas e pegou uma caixa, quando reparo bem moto ser uma caixa de coletor menstrual. — Não, não, não, não, não… eu não posso usar isso, Ruth. Eu sou virgem, nunca usei… vai incomodar e doer muito. — Estendi a mão a balançando como uma expressão de repulsa. — É um coletor menstrual para uma mulher adulta de 30 anos que já teve filhos, mas não é tão grande assim. Vai ficar tudo bem e você vai entrar maravilhosa naquela passarela, sem riscos de vazamentos ou de marcas na roupa. — Ruth, não! — Balancei a cabeça quase chorando. — Vá até o banheiro… — Estendeu a caixa para mim. — … e coloque, não me faça colocar a força. Encarei a caixa com os olhos cheios de lágrimas mas a peguei. Caminhei até o banheiro e tentei colocar. Era insuportável, a pior parte era para conferir se havia posicionado o coletor certo dentro de mim, parecia que estava me rasgando. Me sentia violada, meu corpo não era mais meu e até eu própria o violava. Estava me causando dor, e tudo por um teto e um prato de comida. Mas eu fazia, porque precisava disso. Tinha a sensação que cada vez mais que o tempo passava, mais minhas dívidas aumentavam. Não conseguia nem mesmo culpar a Ruth porque essas dividias pareciam plausíveis, como materiais escolares, passagens de ônibus, roupas, produtos de higiene… entre outras coisas. Parecia que eu estava puxando água do mar com um rodo. Sem perceber, fiquei cada vez mais louca por cédulas. Quando voltei ao vestiário, maioria das garotas já haviam terminado de se arrumar e já estavam quase todas dentro do closet conversando. Sozinha ali de frente para a penteadeira eu me olhei no espelho preparando a maquiagem, sentindo a dor que não me assustava tanto quanto outra dor, a que me fazia sentir nojo de estar ali. Me encaro no espelho e uma lágrima escorre sozinha. Até onde eu iria por dinheiro é um questionamento interessante, porque eu realmente não sei, pois cada vez mais consigo me surpreender mais um pouco. — Vocês tem 5 minutos para entrar, meninas. — Ruth grita da porta. Fiz um olho bem esfumado com preto, nada exagerado e um batom vermelho. Gostava do meu olhar mais torneado com preto, parecia que destacava mais o verde dos meus olhos. Coloquei meu salto brilhante e me encharquei de perfume, fiquei me encarando no reflexo imóvel tentando me reconhecer. Pouco tempo depois e as garotas saíram na frente, ouvi gritos lá fora de empolgação. Todas elas desfilaram uma atrás da outra, eu consegui ver pela janela dos cômodos de cima. Morávamos em andares acima, e tinha uma janela no vestiário que dava para ver a boate. Era um espaço grande, elas faziam um percurso bem bacana. Os homens as olhavam dos pés a cabeça, as engoliam com os olhos. Era como um açougue, chegavam vários homens para escolher a carne que queriam comprar. Mas o que eles realmente queriam ver ainda não havia chegado, Ruth me fazia pensar assim e me dava cada vez mais gás para fazer esses homens visitarem cada vez mais essa boate. Então as luzes apagaram, e eu soube que aquele era o meu momento.
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