Desci as escadas calmamente, como se o mundo fosse meu.
Mulheres de valor não devem correr, principalmente para se exibir em uma sala cheia de homens.
Quando chego no corredor que leva até à passarela, a música muda para uma mais lenta, sensual e convidativa.
Surgi de uma vez na entrada, havia uma luz apontando para mim como se estivesse me esperando há algum tempo e quando finalmente apareço todos aplaudem.
Tento lembrar de tudo o que Ruth diz, me enchendo de autoestima e confiança para conseguir entregar um bom resultado, deixo o corpo relaxado com os braços jogados e deixando meu peso em uma perna só.
Encaro aqueles homens aplaudindo e me comendo com os olhos, ergui o queixo para cima e deixei os aplausos diminuírem para começar a caminhar.
Postura e peito para fora, um pé de cada vez e um na frente do outro. Olho para alguns daqueles homens com um sorriso de canto e em seguida olho para frente com um sorriso desdenhoso, olhar vibrante e cheio de raiva mas que me faz parecer confiante.
Balanço o quadril suavemente, faço a curva da passarela aproveitando para ficar de costas para eles e puxo meu cabelo para o lado deixando as costas amostras por alguns segundos. Os olho mais uma vez e saio caminhando suavemente, enfiando as mãos dentro do cabelo e os segurando no topo da cabeça enquanto vou indo embora.
As ondas do meu cabelo balançam, chamam a atenção.
Quando chego no final viro para trás, beijo a ponta dos dois indicadores e faço um coração no ar ouvindo eles aplaudirem mais uma vez.
Corro de volta para o vestiário, tropeço algumas vezes no salto e me apoio na mesa me encarando no espelho.
— Você precisa aprender a ser mais eficaz, acha que só um rosto bonito, um corpo firme e um conjunto de roupas novas fazem milagres? — Ouvi Ruth reclamar surgindo na porta.
— Eu não estou bem… não sei. — Me engasgo nas palavras.
— Está mais relaxada, não está focada. — Ela caminhou até mim, segurou meu queixo com força e encarou meu rosto com um olhar tão penetrante que chegou a me assustar. — Conheceu algum garoto?
Franzi o cenho assustada, balancei a cabeça negativamente como se a pergunta dela fosse retórica.
— O que? Não!
— Conheço bem quando uma garota está envolvida nessas paixões passageiras, e o meu Rubi está sem aquele calor que tinha. — Ela soltou meu rosto com violência.
— Nem sequer tenho tempo para isso, Ruth. Eu só estou um pouco sobrecarregada, prometo que da próxima vez deixarei todos impactados.
— Hum, está bem. — Me olhou torto. — Agora venha, tem alguém que quero que realmente chame atenção. Se conseguir mexer com ele, deixo que vá descansar. — Apontou o indicador para o meu rosto. — Mas olha, é só por hoje!
— Está bem, muito obrigada, Ruth! — Meu sorriso iluminou.
Ela começou a andar e eu a segui, as garotas estavam sentadas no colo de alguns homens, algumas outras beijavam outros, outras pareciam já estar fazendo programa ali mesmo. Quando chegamos na porta perto do balcão, Ruth olhou fixamente para algum ponto.
— Está vendo aquele homem ali, de roupa social, relógio de ouro no pulso, cabelo bem lambido… está vendo? — Ela questionou gesticulando com a cabeça para um homem bem culto apoiado em uma das mesas.
— Estou.
— É o Senhor Nakashima, quero que vá até lá e o sirva uma bebida, puxe conversa com ele e faça com que ele se encante por você.
— Mas por que? Quem ele é?
— Meu sócio, quanto mais você for adorada, mais recurso teremos. Agora cale a boca e vá. — Ruth empurrou minhas costas rudemente me fazendo correr um pouquinho sobre os saltos.
De longe ele tinha o olhar perdido, encarava algum ponto fixamente. Estava distante, talvez pensava em alguma coisa que o incomodava.
— Oi. — Inclinei a cabeça em sua frente sorrindo gentilmente, puxo uma cadeira em sua frente e sento.
— Oi. — Ele responde franzindo o cenho.
— Aceita um whisky ou alguma outra bebida? — Ofereci.
— Uma limonada, por favor. Sem álcool.
Franzi o cenho mas assenti com um sorriso sem mostrar os dentes, fui até o balcão onde uma das garotas estava preparando as bebidas. Fiz a limonada com bastante gelo rapidinho e voltei para a mesa.
— Aqui está. — O entreguei o copo de vidro enquanto me sentava novamente.
— Obrigado.
Fiquei o observando. Era muito bonito, bem cuidado, muito elegante, expressão gentil e uma energia pesada de homem autoritário.
— Algum problema? — Nakashima questionou.
— Não. — Eu ri abaixando a cabeça.
— Então por que está me olhando tanto? — Ele questionou sorrindo para mim.
O sorriso dele me desconcertou um pouco, ele estava tão sério há alguns segundos atrás. Por pequeno que fosse aquele sorriso, significava muito.
— É só que você é tão bonito, tão elegante… os homens que vem até aqui geralmente são chefes de famílias disfuncionais que vieram procurar diversão de uma noite e deixaram a esposa em casa esperando com os filhos.
— Não vim aqui para isso, odeio sexo que se precisa pagar por ele. — Ele virou o restante do conteúdo do copo.
— Imaginei. Veio apenas ver como está o ambiente?
— O que vim fazer aqui não interessa, vamos falar de você. — Ele sorriu de canto se acomodando na cadeira.
— De mim? — Eu ri.
— É. O que uma garotinha tão jovem está fazendo aqui?
— Sou garçonete, não sou prostituta.
— Menos m*l, mas não vi você servindo ninguém em nenhum momento.
— Acabei de servir você. — Ele riu com minha frase.
— Ruth que mandou? — Nakashima questionou.
— Sim. Tem filhos?
— Um garoto da sua idade.
— Ele sabe que você é sócio desse lugar? — Questionei tentando irritá-lo de brincadeirinha, roço meu joelho suavemente no dele por baixo da mesa.
— Você é boa, Rubi. — Ele me chamar pelo pseudônimo fez meu corpo estremecer. — Você flutua sobre a passarela, parece um anjo.
— Obrigada. — Me endireitei na cadeira. — Mas hoje não estava muito bem, não fui bem o bastante.
— Parecia boa o bastante para mim. — Ele me lançou aquele olhar de predador.
— Não se aborrece que eu só esteja aqui puxando o seu saco por obrigação?
— Não se preocupe, não me incomoda o fato de estar aqui porque ela mandou. Você faz as coisas parecerem verdadeiras, Rubi.
— Nada do que eu faço parece forçado? — Mordi o lábio estendendo a mão suavemente até encostar na sua descansada sobre a mesa.
— Não. — Ele respondeu em um sussurro rouco encarando nossas mãos encostadas levemente. — Qualquer homem enlouquece com um olhar inocente assim.
— Tenho olhar inocente?
— Ele sabe sim.
— Como é? — Ergui uma sobrancelha.
— Meu filho, ele sabe que sou sócio desse lugar. Não sei o que está achando de mim, mas não sou alguém que mente, principalmente para um filho.
— Ah, entendi. — Assenti tentando não deixá-lo sem uma resposta. — Me conte o que está te incomodando, sei que algo está tirando você do sério.
Ele me olhou por uns segundos mas começou a conversar comigo e contar.
— Meu filho tem estado estranho ultimamente, desde que entrou no ensino médio.
— Deve estar sofrendo bullying ou algo do gênero.
— Não. — Ele riu. — Ele não é do tipo que sofre bullying.
— O que acha que é?
— Não sei. A última vez que vi um homem virar do avesso assim foi por causa de uma mulher, mas não tenho certeza.
— Está pensando em trazê-lo aqui? — Eu comecei a rir.
— É uma ideia r**m, não é? — Nakashima comprimiu os lábios querendo rir.
— Sim, muito r**m. Acho que se ele realmente estiver decepcionado ou apaixonado, não sei, por alguma garota, tentar fazê-lo esquecer ela com uma garota de programa é um tiro no pé. Essas garotas daqui não valem mais que uma garota de família, como a que ele deve estar apaixonado, provavelmente.
— Tem razão. — Nakashima assentiu. — Mais inteligente seria apresentá-lo para a filha de algum amigo, sócio, moça de família.
— Já pensou na possibilidade dele simplesmente não querer conhecer uma garota nova?
— Como é?
— É, Senhor. Talvez ele simplesmente só queira um tempo sozinho, longe de garotas.
— O que sugere?
— Pergunta se ele quer fazer algo antes de levar ele, dá espaço, não o sufoque e nem se meta. Ele vai saber como lidar com os sentimentos sozinho.
— É, talvez um adolescente entenda outro. Quando pedi para Ruth chamar você, achei que você fosse exibida, mordi a língua. — Ele balançou a cabeça querendo rir.
— Achei que você fosse rude. — Dei de ombros.
— E quem disse que não sou? — Ironizou. — Traz um whisky para mim?
— Está bem.
Levantei e caminhei até o balcão, coloquei o whisky no copo com bastante gelo e quando viro vejo Ruth me olhando.
— Não sei o que estão conversando, mas nunca vi ele rindo com uma prostituta. Me satisfez agora, continue se esforçando. — Ela disse com a expressão neutra enquanto saía novamente.
— Não sou prostituta, velha enrugada. — Murmurei.