— Reuter! Ajeita essa postura! — o sotaque russo ecoou pelo campo, a ordem direta, bruta, como só a Dra. Orlova poderia ter.
O riso que escapou de Matthias foi seco, quase como o som das suas chuteiras cravando no barro. Ele não se endireitou imediatamente; em vez disso, permaneceu naquele ângulo invasivo, aproveitando o último segundo em que podia observar a reação de Anne antes que a autoridade russa os alcançasse.
— Viu só? — ele murmurou, a voz vibrando tão perto que o hálito quente dele roçou o rosto de Anne. — No meu mundo, a disciplina não usa sapatilhas de cetim. Ela usa mocassins e não aceita desculpas.
Matthias finalmente se ergueu, recuperando sua estatura total. Os 1,92m pareceram se expandir sob o comando da fisio. Ele girou o pescoço, estalando as vértebras com um som que Anne pôde ouvir nitidamente, e olhou para a Dra. Orlova, que caminhava em direção a eles com uma prancheta na mão e a expressão de quem já estava preparando uma sessão de tortura fisioterápica.
— Estou ajeitando, Carrasca! — Matthias gritou de volta, o tom carregado de um respeito irônico. Ele então voltou o olhar para Anne, as sobrancelhas arqueadas. — Se eu fosse você, Vogel, escondia esses saltos atrás de um banco. A Orlova caça fraquezas por esporte, e a sua panturrilha esquerda está gritando "negligência" daqui de cima.
Ele deu um passo para trás, mas não para longe. Ele a cercou com o olhar, o sorriso de canto indicando que a chegada da fisioterapeuta era apenas um novo elemento no jogo de poder deles.
— Reuter, eu posso saber por quê você ainda não foi para a crioterapia? — Helena disparou quando chegou numa distância suficiente para que não precisasse gritar.
— Francamente, mulher. Eu não sei como o Kova te aguenta em casa nos fins de semana. — ele revirou os olhos. — Estou mostrando o campo para a visita.
Helena Orlova parou a dois metros de distância, ignorando completamente a provocação de Matthias sobre seu marido. Os olhos da russa eram como scanners, movendo-se com uma frieza clínica que faria o diretor da companhia de balé parecer um amador. Ela ignorou o suor de Matthias e focou na única anomalia estética e mecânica daquele campo: Anneliese Vogel.
— Visita? — Helena arqueou uma sobrancelha, o sotaque pesado como uma sentença de morte. — No meu departamento, chamamos isso de "risco ocupacional".
Ela deu um passo à frente, diminuindo o espaço até que pudesse encarar Anne. O olhar de Helena desceu para os pés da bailarina, depois subiu para a camisa segunda pele, mapeando cada ponto de tensão.
— Cuidado, ela já foi bailarina. — Reuter sibilou atrás de Helena e recuou bons passos para evitar uma humilhação pública.
O olhar de Anne foi de cansaço matinal para avaliador no mesmo instante. A postura da fisioterapeuta era um mapa de Ballet por diversão, e não profissão. A barriga proeminente entregava a gestação, mas a linha de sua coluna era tão reta que beirava o desafio ao próprio eixo.
— Não force muito o joelho... Sua panturrilha pode estourar a musculatura. — Helena indicou e se virou para Matthias. — Você tem quinze minutos para encerrar o túrismo e ir para crioterapia. E nem pense em mudar o cronometro! São trinta minutos da cintura pra baixo.
Helena deu as costas com a precisão militar de sempre, deixando para trás um rastro de autoridade que nem mesmo o gigante Matthias ousava desafiar abertamente. Ele soltou um suspiro pesado, mas o brilho de divertimento ainda dançava em seus olhos verdes enquanto ele observava Anne.
— Você ouviu a Carrasca, Vogel. Quinze minutos. — ele murmurou, aproximando-se novamente, mas desta vez mantendo uma distância que permitia que ele a visse por inteiro. — E ela foi gentil. Geralmente, quando a Orlova vê alguém forçando o joelho desse jeito, ela imobiliza a pessoa antes que ela possa dizer "plié".
Ele deu um passo em direção ao banco onde havia jogado o sobretudo dela, mas parou no meio do caminho, virando o tronco para encará-la. O suor em seu rosto estava começando a esfriar, mas a energia predatória permanecia intacta.
— Ela já foi bailarina? — Anne perguntou, finalmente saindo de seu turpor causado por um furacão usando mocassins.
— Uhun. — Matthias deu de ombros, um movimento que fez a musculatura suja de terra dos seus ombros dançar. — Todo mundo sabe, ela estava na Itália antes do Münchner contratar, ela é casada com um antigo jogador do Milano. Tem tudo sobre a vida dela no google.
— Google? — Anne repetiu, arqueando a sobrancelha com um desdém refinado. — Eu não costumo pesquisar a vida de funcionários, Reuter.
Matthias soltou uma risada curta e anasalada, finalmente alcançando o banco de reservas. Ele pegou o sobretudo preto e, em vez de entregá-lo na mão dela, estendeu-o aberto, como se estivesse oferecendo uma armadura de volta a um cavaleiro. O gesto era quase cavalheiresco, se não fosse pelo fato de ele estar coberto de lama e suor, fazendo o contraste com a lã pura parecer um crime contra a moda.
— Pois deveria. — ele inclinou a cabeça, os olhos verdes brilhando com uma malícia inteligente. — A Orlova sabe exatamente onde dói porque ela sustentou o peso de uma lenda nas costas quando ele caiu.
Anne começou a andar ao lado dele. Cada passo na grama úmida parecia um desafio à gravidade sobre aqueles saltos finíssimos.
Matthias acompanhou o ritmo dela, as chuteiras fazendo um som surdo e rítmico no barro, um contraponto bruto à cadência precisa dos saltos de Anne. Ele a observava pelo canto do olho, apreciando como ela ignorava o solo irregular com uma teimosia elegante.
— Você anda como se estivesse desafiando o campo a te derrubar. — ele comentou, a voz agora mais baixa, quase abafada pelo vento frio. — Mas a Orlova tem razão. Essa sua perna esquerda está tão tensionada que parece uma corda de piano prestes a estourar. O "mastro da bandeira" pode ser um mestre em estética, Vogel, mas ele está sendo negligente com...
— Por que me chamou aqui, Reuter? — ela o cortou antes que ele continuasse seu discurso.
Matthias parou subitamente na linha de cal branca que delimitava o campo, a centímetros de onde o asfalto começava. Ele se virou para ela, o corpo imenso bloqueando a visão do centro de treinamento, os braços cruzados sobre o peito sujo de grama.
— A direção do clube acha que a foto foi... Maior do que o necessário. O chefe do departamento de relações públicas quer publicar uma nota oficial para conter os danos de imagem por causa de alguns contratos. — ele explicou, o tom arrogante da voz foi substituido por algo mais sério. — Só que eles precisam de uma autorização da sua academia.
— Entendo. — Anne parou diante dele, a ponta do salto afundando na linha branca de cal, manchando o couro n***o com o pó do campo. — Então o "obstáculo que ninguém consegue contornar" foi devidamente contornado pelo departamento de marketing?
Matthias soltou um riso seco, mas não havia humor real ali. Ele descruzou os braços e deu um passo à frente.
— Eu não recebo ordens de burocratas de terno, Vogel. Mas eu sei ler um contrato. O clube está preocupado com o "tom" da foto. — ele se inclinou um pouco, a voz descendo uma oitava, tornando-se perigosamente privada. — Eles acham que eu fui agressivo demais. A mídia está adorando o circo montado pelo silêncio e criando uma narrativa de relacionamento.
— É... Eu vi.
— Alguns puxaram para um lado menos... Diplomático. — ele murmurou, revirando os olhos antes de continuar. — Alguns perfis estão dizendo que eu apertei propositalmente, porque já que eu sou um zagueiro, sou incapaz de me controlar.
Anne revirou os olhos azuis por dois segundos a mais que o necessário.
— E parece que a direção da sua academia comprou essa narrativa. — Matthias completou, a voz ficando ainda mais áspera. — Provavelmente está usando isso como munição para garantir que você nunca mais chegue perto de um "selvagem" como eu. Ele quer proteger a boneca de porcelana da má influência do gramado.
Ele deu mais um passo, forçando Anne a recuar um centímetro para o asfalto, mas ele permaneceu no limite da grama, como se aquela linha branca fosse a fronteira entre dois reinos que não deveriam se misturar.
— Isso é ridículo. A ideia de trazer os Schloss para dentro do teatro como bem da companhia foi da própria direção e agora eles querem proteger? — ela murmurou, enfiando as mãos nos bolsos do sobretudo.
— Eles querem que eu assine um pedido de desculpas público, Vogel. — ele soltou um riso sem nenhum rastro de diversão. — Querem que eu admita que minha "natureza física" foi longe demais e que eu lamento ter tratado a Primeira Bailarina como se ela fosse um centroavante da Croácia.
Matthias inclinou o corpo, o rosto agora tão próximo que Anne conseguia sentir o calor da respiração dele. O cheiro de grama esmagada e suor era quase opressor, uma realidade tátil que o teatro jamais permitiria.
— Mas aqui está o problema... — ele sibilou, os olhos verdes fixos nos dela, brilhando com uma honestidade que beirava a insolência. — Eu não assino mentiras. E eu não peço desculpas por algo que você não sentiu.
Ele fez uma pausa deliberada, deixando que o som do vento e os gritos distantes de outros jogadores preenchessem o silêncio entre eles.
— Você se sentiu intimidada, Anneliese? — ele não usou o sobrenome dessa vez. A voz dele era um rastro de eletricidade. — Porque... Se você em algum segundo se sentiu intimidada por mim, fale agora e eu assino o maldito pedido de desculpas.