6 - O Lobo

1330 Words
Lá estava ele. Matthias Reuter não era apenas um jogador, era uma muralha em movimento. Anne parou rente à grade, observando-o. Ele estava no meio de um exercício de marcação. Um atacante rápido tentava contorná-lo, mas Matthias se movia com uma economia de espaço predatória. Quando o "adversário" tentou o drible, Matthias executou uma entrada lateral, um carrinho tão preciso quanto destrutivo. O impacto da perna dele contra a bola gerou um som que Anne sentiu no próprio estômago. Ele limpou a jogada com uma facilidade que beirava o desdém. Ao levantar-se, sacudindo a terra do calção, ele girou o tronco e a viu. O leve arquear a sobrancelha direita dele não foi de surpresa, mas de confirmação. Matthias fez um sinal de tempo com as mãos para o técnico e caminhou em direção à grade, limpando os resquícios de grama dos antebraços com um movimento ríspido. Conforme ele se aproximava, o mundo ao redor de Anne parecia encolher. A cada passo de Matthias, a escala de tudo mudava; o portão de ferro parecia mais baixo, o ar parecia mais denso e ela, a solista absoluta do Teatro Nacional, sentia-se subitamente como uma nota de rodapé diante de um texto em negrito. Ele parou exatamente à frente dela. A mureta era a única coisa que impedia que o calor do corpo dele, aquela temperatura de quem está operando em rotação máxima, colidisse com a frieza de seu sobretudo preto. Matthias não disse nada de imediato. Ele apenas a encarou de cima, os olhos verdes mapeando o rosto dela com a mesma intensidade que usara para rastrear a bola segundos antes. — Você veio... — Acho que seu desespero para jogar aquele garoto no chão não deu espaço para que visse a minha resposta. — ela sustentou o olhar, embora a proximidade física dele fosse como enfrentar uma frente de calor. Matthias soltou um riso anasalado, apoiando os braços no topo da grade. De perto, os famosos braços dele pareciam ainda mais imponentes, a pele estava arranhada pela grama e o suor fazia a musculatura dos ombros saltar sob a luz pálida de Munique. Ele exalava uma energia de quem não pedia licença para existir, o oposto exato da polidez ensaiada de Michael. — Ele teria caído de qualquer jeito. — Matthias rebateu, a voz rouca e baixa, vibrando através do metal da grade. — Ele hesitou. E no meu campo, quem hesita acaba com a cara na grama. Ele se inclinou um pouco mais, reduzindo o espaço até que Anne pudesse sentir o cheiro de terra, grama esmagada e o calor brutal que emanava de sua pele. Ele não cheirava a colônia cara e pó de arroz como os camarins do teatro; ele cheirava a esforço e realidade. Matthias a observou com uma curiosidade quase científica, detendo-se nas olheiras que nem a maquiagem conseguira apagar totalmente. — O mastro da bandeira deve estar tendo um colapso técnico agora, Vogel. — Um sorriso de canto, lento e cheio de segundas intenções, surgiu nos lábios dele. — Você fugiu do ensaio para vir ao meu "chiqueiro"? Cuidado, esse seu sobretudo de lã parece caro demais para o ar que a gente respira aqui. Anne deu um passo à frente, encostando a ponta dos dedos na grade gelada, logo abaixo de onde os braços imensos dele repousavam. — Não fugi do meu ensaio. Eu decido a hora que vou subir naquele palco de qualquer forma. — Uma declaração de independência matinal? — Matthias arqueou a sobrancelha, o sorriso de canto se alargando. — Cuidado, Anneliese. No meu mundo, quando alguém se declara dono do próprio destino desse jeito, geralmente é porque está prestes a levar um carrinho por trás. — Você fala demais, Reuter. — E você está aqui me ouvindo falar. — E assistindo. — ela completou, a voz baixa, mas afiada o suficiente para cortar a distância que restava entre eles. — O barulho do impacto lá no meio do campo... Você gosta de sentir o osso do adversário rangendo tanto quanto gosta de ouvir a própria voz? Matthias soltou uma risada curta, um som gutural que parecia vir direto daquele peito imenso. Ele se desencostou da mureta por um segundo, apenas para girar o corpo e abrir o portão lateral com um solavanco metálico. Ele não usou as mãos; apenas empurrou a trava com o ombro, mantendo o olhar fixo nela. — Eu não gosto do barulho. — ele disse, a voz descendo uma oitava, tornando-se perigosamente grave. — Eu gosto da certeza. A certeza de que eu sou o obstáculo que ninguém consegue contornar. Ele deu um passo para o lado, liberando a passagem para o gramado. O contraste era gritante: a bota de couro fino de Anne contra a terra revirada; o silêncio altivo dela contra o caos físico dele. — Entre, Vogel. Deixe o mastro da bandeira esperando no teatro. — ele indicou a imensidão verde com a cabeça. — Vamos ver se você consegue manter essa coluna reta em um lugar onde o chão não foi encerado para você. Ou vai me dizer que a Primeira Bailarina tem medo de sujar a barra do casaco? Anne olhou para o portão aberto. Se Michael estivesse ali, estaria falando sobre o risco de lesões no tornozelo e a umidade do ar. Mas Michael não estava. Ela empurrou a gola do sobretudo para baixo, enquanto dava um passo para dentro do gramado. Ela retirou o sobretudo antes de entrar completamente no gramado, e estendeu o tecido para Matthias, como se ele fosse um mero cabideiro. Matthias aceitou o sobretudo com um movimento instintivo, mas o contraste foi imediato. O tecido de lã nobre e cara parecia uma pluma de seda nas mãos dele, uma peça que m*l cobria a largura de um de seus antebraços. Ele segurou o casaco com um desdém divertido, os dedos calejados e sujos de grama contrastando com a textura macia da peça. Sem o sobretudo, Anne revelou a armadura que escondia: uma camisa de mangas longas como uma segunda pele,que denunciavam cada linha de sua musculatura tonificada e o contorno afiado de suas clavículas. A calça jeans tão justa que parecia feita para realçar a contratura de suas panturrilhas a cada passo sobre aquele salto. — Minha fisioterapeuta teria um infarto ao ver sua panturrilha. — ele disse, sem desviar o olhar. — Por que? — ela já sabia a resposta, mas queria ver que tipo de explicação dele daria. Matthias soltou o ar pelo nariz, um riso mudo, enquanto seus olhos faziam um caminho lento e deliberado da linha do tendão dela até o topo da panturrilha, que pulsava a cada ajuste de equilíbrio no solo irregular. Ele jogou o sobretudo caro sobre o banco de reservas com uma mão, sem tirar o foco dela. — Porque ela veria que você não é feita de vento, Vogel. — ele sibilou, dando um passo à frente. Agora, sem a mureta, a presença dele era um eclipse. — No teatro, vocês fingem que a gravidade é uma sugestão. Mas esse músculo aí? Isso é potência acumulada. É o tipo de fibra que foi feita para explosão, não só para desenhar círculos bonitinhos no ar. Ele parou a uma distância onde Anne conseguia sentir o vapor que subia da pele dele, um calor úmido que contrastava com o ar gélido do CT. Matthias inclinou o tronco imenso, reduzindo a diferença de altura até que o rosto dele estivesse no nível do dela, o cheiro de grama e adrenalina invadindo os sentidos da bailarina. — A primeira coisa que ela diria é que você está forçando demais a passada, e depois te mandaria pra liberação miofascial só como castigo por entrar no gramado com esse salto. — ele continuou, pendendo a cabeça para o lado. — Como tem tanta certeza disso? — ela perguntou, cruzando os braços. — Porque ela já tá olhando pra cá. — ele apontou com o queixo para a linha lateral do campo.
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