Foi questão de uma semana para que aquela foto publicada nos perfis da companhia Bayerisches Tanz-Ensemble e do Münchner Stars FC, ganhasse uma repercussão tecnicamente errada. O burburinho ainda não havia cessado, e quanto maior era o silêncio de ambos, mais força ele ganhava.
Anne encarava a tela de seu celular. A luz azul do aparelho iluminava as olheiras que a maquiagem de palco costumava esconder.
A foto era estática, mas Anne conseguia sentir a pressão fantasmagórica das mãos de Matthias em suas costelas toda vez que olhava para ela. A legenda oficial falava em "A união do talento bávaro", mas os comentários abaixo eram um esgoto de especulações: "Olhem como ele a segura, parece que vai devorá-la", "A química é mais real que o balé", "Weiss parece um segurança sobrando na foto".
Ela bloqueou a tela com um movimento ríspido e jogou o celular sobre o sofá. Weiss ainda tomava café da manhã, o som dos talhares batendo contra a louça parecia uma contagem regressiva para uma explosão. Ele não olhava para o celular, mas o modo como mantinha as costas excessivamente retas e os olhos fixos no jornal dizia a Anne que ele já tinha lido cada comentário, cada piada e cada teoria sobre a "pegada" de Reuter.
— Que cara é essa? — ela questionou, levantando uma sobrancelha.
— Nada, amor...
— Nada? — Anne repetiu, a voz carregada de um ceticismo que cortava o ar matinal. Ela caminhou até a mesa, observando a rigidez dos ombros dele. — Você está segurando esse jornal há dez minutos e não virou uma página sequer, Michael.
Ele finalmente baixou o papel. O rosto estava calmo, mas era aquela calma técnica, a mesma que ele usava para disfarçar um erro de tempo em cena.
— É apenas essa... Repercussão — ele disse, escolhendo as palavras como quem pisa em ovos. — A assessoria da companhia ligou. Estão preocupados que a imagem da "Prima" esteja sendo associada a um comportamento... Rústico. E eu concordo. Aquilo na recepção não foi uma foto, Anneliese. Foi um espetáculo de mau gosto.
Anne sentiu uma pontada de irritação subir pela espinha. Não era a primeira vez que ele falava como se fosse seu porta-voz.
— Michael, use as palavras certas. Você não está diante de um palco e eu não sou a direção da companhia. — ela sibilou, servindo-se de um pouco mais de café enquanto acendia seu primeiro cigarro do dia.
Michael travou o maxilar ao ver a fumaça cinzenta subir. Ele odiava o cigarro matinal dela tanto quanto odiava a falta de controle que a foto com Reuter representava.
— As palavras certas? — ele repetiu, a voz ganhando uma aresta cortante. — Certo. Vamos falar sem ensaio, então. Você parecia uma amadora nas mãos daquele sujeito. Ele te tratou como se você fosse carne, Anneliese. E você ficou lá, parada, deixando que ele te usasse para aparecer nos tabloides.
Anne soltou a fumaça lentamente, observando-o através da névoa.
— Ele não me usou, Michael. Ele me desafiou. — ela deu um sorriso de canto, amargo e letal. — Algo que você não faz há anos, porque está ocupado demais garantindo que eu não me quebre em mil pedaços.
— Eu garanto a sua carreira! Quantos parceiros você teve mesmo até que eu chegasse na companhia e conseguisse acompanhar o seu ritmo e realmente guiar a dança? — ele explodiu, levantando-se com a precisão de um salto, mas com a fúria de um homem acuado. — Aquele animal não sabe a diferença entre uma fibra muscular e um pedaço de grama. Ele te apertou, eu vi as marcas nas suas costelas quando chegamos em casa. Você vai deixar um... Um capitão de time de futebol ditar como a Primeira Bailarina de Munique deve ser vista?
— Michael, isso é tudo insegurança por causa de uma foto? — Anne soprou a fumaça diretamente no rosto dele.
Michael não desviou o rosto. Ele permaneceu imóvel enquanto a fumaça cinzenta o envolvia, os olhos fixos nos dela com uma intensidade que beirava o fanatismo. Ele limpou o ar com um gesto brusco da mão, como se estivesse afastando a própria existência de Matthias Reuter daquela cozinha.
— Insegurança? — ele soltou um riso curto, desprovido de qualquer humor. — Não seja ridícula, Anneliese. Eu sou o homem que te levanta todas as noites. Eu sou o único que conhece o som das suas articulações quando elas estão prestes a falhar. O que eu sinto não é insegurança, é nojo. Nojo de ver você ser reduzida a um acessório de marketing para um brutamontes que provavelmente nem consegue soletrar "Tchaikovsky".
Ele deu um passo à frente, estreitando o espaço entre eles até que Anne pudesse sentir o cheiro do café e da colônia cara dele.
— Então eu posso ser um acessório para você, mas numa foto para o bem da companhia, ai que está o erro? — ela concluiu, dando um passo a frente. — Sabe, Michael, isso é um sintoma e tem nome: Ciúmes.
— E só pelo bem da companhia eu sou obrigado a me sentir calmo com o fato de que você pareceu confortável com aquela... Falta de precisão?
— Michael... Você tem noção do quão ridículo está soando para mim? — ela perguntou, dando a última tragada no cigarro antes de apagá-lo no cinzeiro de cristal.
— Anne...
— Basta. — ela levantou a mão, fechando os olhos por um segundo.
A mão de Anne pairou entre eles, um comando silencioso que tinha mais autoridade do que qualquer grito. Michael parou no lugar, a respiração ainda pesada, mas os lábios selados.
— Eu não sou uma coreografia que você pode consertar, Michael. E eu certamente não sou uma criança que precisa ser ensinada a distinguir o toque de um parceiro de uma "agressão". — ela disse, a voz gélida, pegando o celular sobre o sofá com uma agilidade que desmentia seu cansaço. — Se o diretor quer uma foto nossa para "limpar a barra", ele que espere. Hoje, eu ensaio sozinha.
— Você não pode... — Michael começou, mas ela já estava na porta.
— Eu sou a solista, lembra? Eu posso o que eu quiser.
Anne saiu do apartamento sem olhar para trás, sentindo o ar frio do corredor como um alívio imediato. No elevador, ela desbloqueou a tela. A foto ainda estava lá, um lembrete silencioso da pressão das mãos dele antes do ajuste correto.
O brilho da tela revelava o momento exato em que a geometria dos corpos deles se chocou. Anne ampliou a imagem, focando não no rosto de Matthias, mas naquelas mãos largas que Michael tanto desprezava. Havia ali uma honestidade que a assustava: ele não a segurava como se ela fosse um objeto de arte sacro, mas como se fosse uma força da natureza que ele pretendia domar.
Ao chegar ao térreo, ela ignorou o motorista da companhia que a esperava.
— Pode ir, Hans. Vou pegar um táxi. — disse ela, sem dar espaço para contestações.
Dentro do carro, o som abafado do trânsito de Munique servia de trilha sonora para a sua insubordinação. O motorista do táxi a olhou pelo retrovisor, reconhecendo vagamente o rosto que estampava os cartazes do Teatro Nacional, mas Anne não deu espaço para cortesias.
— Para qualquer lugar que o senhor gostaria de entrar, por favor.
O motorista franziu o cenho, confuso com o pedido enigmático, mas o tom de Anne não aceitava perguntas. Ela precisava de um lugar que não tivesse o cheiro de resina do teatro, nem a ordem sufocante do seu apartamento. Precisava de algo que tivesse a mesma honestidade daquela pegada bruta que ainda parecia queimar em suas costelas.
— Deixe-me na Säbener Strasse. — ela ordenou, o olhar fixo na mensagem que acabara de receber de um número desconhecido.
"Portão 4. Se quiser ver como é segurar algo sem medo de quebrar..."
Foram 20 minutos até que o táxi estacionasse em frente ao Centro de Treinamento do clube da cidade. Anne pagou o motorista e desceu, sentindo o vento gelado de Munique chicotear seu rosto, mas o frio não era páreo para a adrenalina que corria sob sua pele. Ela caminhou em direção ao Portão 4, uma entrada lateral mais discreta, longe dos paparazzi que costumavam cercar a fachada principal.
Ao cruzar o acesso, o silêncio do teatro foi substituído por uma sinfonia de brutalidade: o som metálico de pesos sendo erguidos, o apito estridente dos treinadores e, no campo principal, o impacto seco de chuteiras contra a grama.