Giulia
Eu acompanhei pedidos de casamento de todas as formas possíveis nos romances que li durante a minha vida, senti cada nervo do meu corpo se emocionar com palavras doces e declarações apaixonadas. Casais que não deveriam se amar ou ficar juntos e ainda assim ficaram, mesmo contra todas as possibilidades. Eu sonhei com muitos pedidos, com um príncipe se ajoelhando, colocando um anel no meu dedo e depois me levando para o seu castelo.
Eu sonhei, planejei e suspirei por um pedido de casamento com amor verdadeiro.
E depois esqueci completamente essa ideia, porque eu me casaria devido a um acordo que iria salvar o legado da minha família. Não teria amor nem mesmo desejo, apenas um acordo selado entre os nossos pais.
E mesmo assim, nada me preparou para o que o homem diante de mim estava fazendo com o meu coração. Talvez, se misturarmos a minha surpresa com a loucura dele, daria uma excelente história, que arrancaria suspiros.
- O que você está fazendo? - A minha voz sai fraca, trêmula, exatamente como eu me sinto.
O silêncio ao nosso redor, depois da pergunta dele, grita pelos quatro cantos da sala, mas ele está sorrindo e os olhos dele mente muito bem, porque quase consigo acreditar que ele quer isso.
Que ele quer casar comigo.
- Contei ao seu pai sobre nós. - Ele fala, com calma e eu pisco, sentindo o nervoso subir pela minha garganta. - Que nos apaixonamos. - Ele completa e agora sim eu não consigo mais respirar.
- VOCÊ ME TRAIU? - O meu ex-noivo grita o questionamento e eu o encaro, sem saber o que responder. - SUA VAGABUNDÄ! - Ele acusa e a ofensa corre por mim, mas não tenho tempo de falar nada. Em um único movimento, Pedro Carpinetti, que estava ajoelhado aos meus pés, levanta de uma vez, e acerta o rosto do irmão com um soco violento, e isso sim, me obriga a reagir.
Um som assustador ecoa pela sala, saindo da minha garganta, antes do corpo do Fábio desabar no chão de uma vez. Todos estão congelados, encarando a cena, e o Pedro não tem nem mesmo um fio de cabelo fora do lugar, quando arruma o terno e olha ao redor.
O Fábio segue desacordado e ninguém tem coragem de se mover. A minha respiração, que antes parecia ter sumido, volta de uma vez e sinto que estou prestes a hiperventilar.
- Ela não traiu. - Ele declara, com uma calma que não parece sentir. - Mesmo que eu tenha sido muito insistente. - Ele reforça. - Ela não me permitiu tocá-la. - Ele conclui e me olha com uma intensidade gritante. - Mesmo que você não merecesse a fidelidade dela. - Ele respira fundo, se virando na minha direção e antes que possa falar qualquer coisa, o pai dele interrompe.
- Esse teatro que vocês armaram é ridículo. - Ele solta uma risada fina, parecendo um engasgue. - Então ele te convenceu com esse papo de paixão, Mantovanni? - O meu pai parece completamente estático no próprio corpo. - Você é muito mais ingênuo do que eu imaginava. - A risada parece gelar a minha alma, o que acende 200 questões na minha cabeça. - Mudou um acordo milionário por uma mentira deslavada dessas? - Ele ri de novo, cheio de amargura.
- O ingênuo é você, pai. - Ele se posiciona na minha frente, como se quisesse me proteger de uma fúria que eu não conheço. - Achou que levaria tudo mesmo? - Consigo ver o sorriso frio que ele direciona ao pai. - O nome, a empresa e a Paolla, e eu não iria retaliar?
Olho ao redor, buscando a atual esposa do meu futuro sogro, ou ex-sogro, ou… Fodä-se.
Olho para a mulher que é pouca coisa mais velha que eu e vejo a mágoa que brilha nos olhos azuis dela, enquanto encara o discurso do Pedro. Nunca troquei mais do que duas palavras com ela e em algum momento senti um pouco de dó de uma moça tão linda precisar deitar com o nojento do Marcone, mas não consigo elaborar muito sobre isso.
- Você nunca soube perder, Pedro. Sempre foi mimado. A sua mãe te protegeu muito, mas agora, acabou. Você me roubou e eu roubei de volta, simples assim.
- Não sei perder. - O Pedro repete. - Realmente não sei, fui criado para ganhar sempre, não importa quem eu precise derrubar, e isso te inclui. - Ele dá um passo ameaçador na direção do pai, que sustenta a postura, mesmo que as minhas pernas estejam moles apenas vendo a cena de fora. - Eu vou pegar tudo o que é meu de volta. - Ele declara, com a voz baixa. - Tudo, menos… - Ele encara a Paolla, que se encolhe sobre o olhar dele. - Ela. - Ele fala com nojo na voz. - Então, quando você estiver na sarjeta, quero ver se ela se manterá ao seu lado ou se vai procurar o próximo velho rico!
Vejo com clareza o perigo do que pode acontecer aqui. Vejo o Marcone fechar as mãos e a esposa dele se encolher. Vejo os meus país completamente fixados no que acontece. Vejo o Fábio apagado, mas a única urgência que eu sinto é em entender o que esse maluco está fazendo.
Ele está armando toda uma cena para te salvar.
O pensamento me atravessa.
Ele vai partir para cima do próprio pai, que vai revidar, e isso vai virar um verdadeiro escândalo. O nome já prejudicado da minha família vai ficar pior, e vai minar toda a força que os Garcia tem. Já consigo ouvir os comentários maldosos dos jornais, sobre o herdeiro rejeitado que buscou retaliação e tentou roubar a noiva do irmão.
“Preciso que confie em mim e siga conforme a música.”
- Amor… - Chamo, sentindo o desespero subir pela minha alma, ao chamá-lo assim. - Por favor… - Não sei o que estou pedindo. Vejo ele mover os ombros, ainda cheio de uma intenção raivosa. - Não briguem mais. - Sussurro. - Deveria ser um dos dias mais felizes da nossa vida. - A verdade escapa e doe profundamente. - Não permita que ele destrua o nosso sonho… - Suspiro e me aproximo, porque vejo os ombros dele relaxando.
Deixo os meus instintos me guiarem quando apoio a mão no centro das costas dele, contra os músculos firmes por cima do blazer. Ainda não estou pensando quando me aproximo e envolvo a cintura dele com as mãos, colocando o meu tronco nas costas dele e por fim pressionando a testa contra as suas escápulas. Abraço Pedro Carpinetti com o máximo de carinho que consigo, torcendo para que ele se controle e não permita que o pai dele deixe-o mais desgovernado do que já parece estar.
- Você tem razão, princesa. - O apelido queima, porque não é a primeira vez que o ouço nos lábios dele. - Não será o meu pai, um acordo ou qualquer coisa que vai atrapalhar a nossa felicidade.
Parece tanto com a verdade, que chego a amolecer contra o corpo dele.
Sinto o calor por cima da roupa, sinto o coração dele batendo forte contra o meu rosto e por um segundo desejo que esse sentimento que ele declarou fosse real. Que alguém estivesse mesmo brigando por mim, porque me ama.
- Isso é uma palhaçada! - O Marcone acusa, mas a esposa dele também tenta o conter. Ela sussurra algo no ouvido dele e o ar parece congelar. Ainda estou confusa, deixando as sensações me tomarem, quando a mulher se abaixa e tenta acordar o Fábio, que não parece nem mesmo vivo.
Enquanto eles se distraem, o Pedro se vira um pouco, respirando fundo.
- Vou te tirar daqui. - Os olhos estrelados se fixam nos meus e mais uma vez, desejo que seja real.