Pedro Carpinetti
Nem tudo o que esperamos acontece como o planejado, e é por isso que estou aqui hoje. Para explodir os planos deles e colocar em prática o primeiro passo da minha vingança. E como bônus principal, finalmente deixo de imaginar e passo a olhar para ela.
Os olhos claros me encaram com uma surpresa saborosa e vejo quando ela suspira, se dando conta que estou aqui para impedir essa loucura. Não consigo deixar de sorrir. Esse momento deveria ser filmado.
- O que esse moleque está fazendo aqui, Carlos? - O meu pai urra, saltando da poltrona. Todos me encaram com olhos arregalados, inclusive a linda herdeira que vim salvar.
- Ele vai jantar conosco. - Carlos Mantovani mantém a postura firme, exatamente como se manteve durante toda a nossa negociação, mesmo sendo abertamente ameaçado. - E falaremos de negócios.
Giulia aperta os olhos na minha direção. O rosto dela está vermelho, lutando para se recuperar do choque.
O rubor desse rosto é uma tentação forte demais.
Linda!
- Ele não faz parte disso. - O Fábio responde, crescendo para cima de mim, apoiado pela presença do nosso pai.
- Eu sou um Garcia! Retruco, com calma letal. - Muito mais do que você jamais será. - Ataco e vejo os olhos dele queimando.
- Vamos nos acalmar, todos. - É a mãe alcoólatra dela que fala, parecendo assustada.
Percebo que o Carlos não contou para ela sobre a minha presença. E pela expressão da Giulia, ele seguiu com o combinado e não falou nada para a filha também. Ela ainda luta para entender como eu vim parar no jantar de noivado dela.
- Estou completamente calmo, senhora Mantovani. Respondo. - Fui convidado pelo meu mais novo sócio para me juntar a vocês, para podermos explicar os novos termos da negociação entre os Mantovani e os Garcia Carpinetti.
O meu pai parece prestes a ter um ataque cardíaco e deixo o meu sorriso de triunfo abrir mais.
- Sócio? - A pergunta é direta para o Carlos, mas a fpuria dele segue na minha direção. - Você não responde mais em nome da minha empresa! Desde que me roubou! - Ele acusa.
- Respondo em nome da minha empresa, sim. - Rebato com calma. - E como único herdeiro legítimo do nome Garcia, respondo por qualquer acordo ligado a ele. - Entrego o envelope para ele, que os meus advogados formularam em tempo recorde. - Estou processando você, pai, por falsidade ideológica e apropriação indébita do legado da minha mãe.
- Você não teria coragem! - Ele mexe na gravata, nervoso.
Só então eu foco na figura ao lado dele, me olhando com uma expressão completamente chocada e, talvez, arrependida.
Paola Garcia. Minha atual madrasta. E o grande amor da minha juventude.
A mulher a quem eu entreguei o meu coração e que me apunhalou pelas costas, apenas para casar com o meu pai por dinheiro. Lembro da proposta doentia que ela me fez depois de se casar com ele, de mantermos um caso, e o meu estômago revira violentamente. O ódio antigo se mistura ao novo, virando combustível puro.
Transformo o nojo em frieza e ignoro a presença dela, procurando com os olhos o único motivo real da minha presença aqui. Quando os meus olhos encontram os de Giulia, uma corrente elétrica percorre o meu corpo, quase me fazendo perder a cabeça.
Ela parece aliviada em me ver, mas não sabe o que a aguarda. Lembro das palavras cruëis do pai dela durante a nossa negociação: "Ela precisa de alguém de pulso firme, Pedro. Alguém que a puna por ser tão sonhadora. O casamento é para quebrar esse espírito dela."
Eu olho para ela, tão linda naquele vestido azul, e prometo para mim mesmo que o único que vai ser quebrado aqui é o homem que ousou pensar isso da própria filha.
O Fábio percebe a nossa troca de olhares intensa. Ele se aproxima dela e aperta a mão da Giulia com força, marcando território, enquanto o meu pai continua gritando com o Carlos.
Algo rompe dentro de mim quando vejo a expressão de dor no rosto dela. Ele a está machucando apenas para me provocar.
Meu cérebro desliga. Quando me dou conta, já me movi. Seguro o meu meio-irmão pelo colarinho e o grudo na parede, tirando os seus pés do chão com a força da minha raiva.
- Encoste nela mais uma vez, e você perderá as mãos! - Ameaço, e a minha voz é um rosnado baixo.
- Ela é minha noiva, querido irmãozinho! Toco nela como eu quiser... - Ele responde, meio engasgado, meio que tentando me ameaçar..
- Veremos - Respondo, sorrindo, porque o caos ao nosso redor congelou. O silêncio da sala é absoluto. Todos estão assistindo a minha falta de controle.
Ótimo. Tenho a atenção de todos.
Solto o Fábio com desprezo, como se ele fosse lixo, e ele cambaleia para trás. Arrumo o meu paletó e encaro o grupo.
- O acordo feito entre os Garcias e os Mantovanis, ao qual eu negociei com o Carlos e que já assinamos, determina novos termos. Nenhum de vocês tem direito de negociar em nome da empresa da minha mãe. Eu voltei para recuperar o meu nome e cuidar do que é meu. E isso inclui os investimentos nesta casa. Não é, Carlos?
O homem parece pálido, mas sustenta o meu olhar antes de responder.
- Certo.
O silêncio sufoca o ambiente. Eu já me cansei desse teatro. Viro toda a minha atenção para ela.
Ela parece tonta, confusa, mas os seus olhos ainda buscam os meus como um farol.
Ela precisa de uma salvação. E eu decidi que serei o caminho para a liberdade que esses olhos tanto imploram.
O resto da sala desaparece. Só existe ela.
Dou dois passos na direção dela. Ignoro os arfares de choque da mãe dela e o rosnado do meu pai. Lentamente, com todos olhando, eu me ajoelho diante de Giulia Mantovani.
Tiro do bolso a caixinha de veludo. Abro, revelando o diamante imenso e solitário que brilha quase tanto quanto os olhos dela agora.
Sorrio, um sorriso verdadeiro de quem acabou de dar o xeque-mate, e pergunto diretamente à mulher que vai virar o meu mundo de cabeça para baixo:
- Giulia Mantovani, você aceita se casar comigo?