- Posso te ajudar? - Pergunto, fechando o livro com força e tentando controlar o tremor que sobe pelas minhas pernas, enquanto apoio os dois pés no chão.
- Duvido muito, Gui.lia. - A pausa que ele faz no meu nome evidencia que estou com problemas. - Pelo que me lembro, não tenho nada que te gere vontade de entender.
Só percebo que estou sorrindo para a mágoa do homem um segundo depois.
- Acho que eu feri o seu coraçãozinho. - Brinco e ele cruza os braços junto do corpo, e a minha memória e a distância que ele estava naquele palco, pouco fazem jus ao quanto ele é tentador.
Grande é um adjetivo fraco para o homem diante de mim.
Pedro Carpinetti.
Nunca mais vou esquecer esse nome e nem estes olhos.
- É impossível ferir algo que não existe. - Ele responde a minha provocação com outra.
- Devo chamar uma ambulância então? - Quase como se ele estivesse tentando controlar a própria reação, vejo a boca dele levantar em um quase sorriso. Pisco, forçando a minha expressão inocente que foi muito bem treinada. - Se te falta um órgão vital, não deveria parecer tão… - Levo um momento para encontrar uma palavra que não entregue o quanto estou admirada com ele. - Saudável.
A beleza dele não é comum, e agora, à luz do dia, percebo que ele é dono de um rosto que deve fazer meninas, mulheres e até homens suspirarem.
O cabelo preto está bagunçado de uma forma que parece de propósito e diferente da primeira vez que eu o vi, ele está sem barba. Os olhos são de um castanho escuro, quase pretos e o rosto dele parece uma escultura, de tão simétrico.
O corpo dele é alto, largo e forte e acho que prefiro ele de terno escuro, porque vestido com roupas cinzas, como agora, ele parece ainda mais ameaçador.
- A minha saúde está perfeita, não precisa se preocupar. - Ele dá de ombros e caminha na minha direção, com os olhos fixos nos meus, como se pudesse ler cada pensamento meu. - Começamos com o pé errado e eu confesso, que fiquei ofendido naquela noite. - Estou sorrindo de novo, porque a voz dele, por mais firme que seja, demonstra uma vulnerabilidade que eu não esperava. - Sou o Pedro. - Ele estende a mão na minha direção, agora parado a minha frente e eu preciso levantar a cabeça para continuar a encará-lo. Me coloco de pé e penso por um segundo se devo segurar a mão dele.
Assim que a mão dele toma a minha um choque me atravessa e eu sou obrigada a respirar fundo, o que de novo, se prova um erro.
Ele tem cheiro de péssimas escolhas misturado com alegrias intensas.
Sem dúvidas ele dorme mergulhado em perfume, não é possível.
- Giulia. - Consigo dizer. - Giulia Mantovani. - Ele não parece surpreso com o meu sobrenome, o que me deixa aliviada no mesmo instante. - E depois de uma palestra muito eficiente, posso dizer que a teoria da inovação disruptiva é bastante interessante. - Falo e sinto o meu rosto queimar. - Digamos que a busca constante por processos de melhoria na administração é eficiente.
- Eu penso o mesmo. - Ele ainda não soltou a minha mão e também não tirou os olhos dos meus, e não sei bem como agir ou o que dizer, quando ele fala. - Eu sabia que te veria de novo.
Sinto a surpresa tomar o meu rosto e ele sorri pela primeira vez;
Droga.
Ele deveria ser feio.
Ou fedido.
Ou feio e fedido.
Mas não. Ele é um espetáculo e tudo nele grita sucesso e dinheiro.
Ele é o Mr. Darcy, do livro Orgulho e Preconceito, da vida real.
Droga.
- As chances eram mínimas. - Afirmo, finalmente, tendo forças de soltar a mão dele.
- As chances sempre estão ao meu favor. - Solto um riso pelo nariz e me sento de novo.
- Você é tão convencido quanto me lembro. - Declaro, enquanto ele senta ao meu lado.
- Achei que começar de novo ajudaria, mas você é tão atrevida quanto eu me lembro.
- Na verdade… Não costumo ser. - Me calo, porque não posso elaborar os meus pensamentos para ele. De fato, ele me provoca um comportamento quase que real. Os anos de orientação e treino para parecer dócil e controlável somem na presença dele.
Talvez porque agi assim desde o início com ele.
Sendo eu mesma.
- Duvido muito. - Ele rebate, me olhando de canto.
- Você sabe onde estamos, não? - Pergunto. - É completamente inaceitável que uma dama fale o que pensa e o que sente. - Ele sorri de novo.
- Você não parece ter esse problema.
- Acho que não. - Olho em frente e o sol está descendo para o horizonte.
Preciso voltar logo. Os meus pais vão sentir a minha falta.
- O que houve? - Olho ele novo, confusa. - Você suspirou profundamente. - Ele explica, enquanto os olhos dele estudam o meu rosto, marcando cada pedaço de pele, até se fixarem na minha boca.
- Estava pensando que o dia está próximo do fim e que meus pais devem estar me procurando.
- Somente os seus pais? - Ele pergunta como se duvidasse.
- Por enquanto, sim. - Fico de pé. - Bem, senhor palestrante, foi muito legal te conhecer, de novo.
Ele levanta e para na minha frente, tão perto que se eu me mexer meio passo pra frente, nossos corpos vão se encostar.
O calor da proximidade dos nossos corpos passa pelo tecido do meu vestido e tenho certeza que logo estarei com o corpo todo vermelho.
- A conversa está tão desagradável assim? - n**o com a cabeça, sorrindo abertamente agora, porque esse homem lindo está claramente flertando comigo.
- Preciso mesmo ir. - Explico, dando um passo para trás e deixando claro que não tenho interesse.
Ou que, não deveria ter.
- A sua amiga ficará decepcionada por você não esperar por ela. - Mordo a boca e aperto os olhos, porque ele acaba de confirmar as minhas suspeitas.
- Ouvir conversas privadas é uma baita falta de educação. - Acuso, mas não consigo parar de sorrir.
- Então deveriam estar num lugar mais fechado, não acha? - Ele se aproxima de novo e sinto o calor emanando dele de novo, me provocando a questionar todo o meu bom senso.
- O que mais você ouviu? - Pergunto, segurando o livro contra o meu corpo, o que chama a atenção dele.
- O que está lendo? - Ele encara a capa nas minhas mãos e sinto o rosto queimar de vergonha, por um motivo completamente diferente agora.
- Um romance. - Escondo o meu exemplar de O lado feio do amor, da Collen. - Coisas de garotas.
Ele sorri largo e eu estou sorrindo também, sentindo uma emoção completamente nova, na presença desse homem lindo.
Alegria.
Animação.
Excitaçäo.
Vontade de sorrir.
Coisas que não sinto normalmente, sensações que quase me dizem que a vida pode ser leve e feliz.
Por alguns instantes me permito fingir que sou apenas uma garota normal, sendo paquerada por um homem bonito. Que está se esforçando para puxar assunto comigo, porque não quer que eu vá embora. A vida seria deliciosa se fosse fácil assim.
- Você sonha com um romance, Giulia? - A pergunta direta me puxa para a realidade e me ouço suspirar mais uma vez.
- Romances não são para pessoas como nós, Senhor Palestrante. - Ele levanta as duas sobrancelhas;
- Eu deveria argumentar, mas a verdade é que eu concordo. - Ele se aproxima mais e agora estou completamente tomada pelo cheiro e o calor dele. - Por isso costumo ignorar qualquer romance. - Ele se inclina na minha direção e fala ao pé do meu ouvido. - Procuro apenas por prazër.
Ele se afasta um pouco, para me encarar nos olhos, esperando qualquer resposta.
Eu não tenho, porque eu gostaria de sentir prazër. Com ele.
Como se eu pudesse viver um romance cheio de cenas quentes, exatamente como as que eu leio.
Cenas que descrevem como ele me deitaria na grama e me tomaria completamente, com a boca, as mãos e o que mais ele pudesse me oferecer.
Prendo o ar, porque sinto um calor completamente novo subir pelas minhas pernas, e o sorriso cheio de triunfo dele me diz que ele sabe exatamente a reação que está causando no meu corpo.