Pedro Carpinetti
Ódio.
Ódio puro e mortal. Isso é tudo o que consigo sentir enquanto encaro a família feliz à minha frente.
A minha família, da forma mais torta possível.
O meu pai nem mesmo pisca quando me vê, como se soubesse que eu escolheria esse dia para finalmente voltar.
Você foi criado para o pecado, Pedro. Qualquer coisa diferente disso, eu te descarto igual a lixo.
Ignoro a memória e desvio o olhar, e ao lado dele, sorrindo como a esposa perfeita, está a mulher que me iludiu e destruiu o meu coração, apenas para conseguir conquistar o meu pai.
E por fim, o meu irmãozinho de merdä.
Apenas Marconi Galvão percebe a minha presença, e assim é melhor.
Eu não quero alarde do meu retorno, pelo menos não ainda. Os meus planos de vingança são longos e calmos, milimetricamente planejados ao longo do tempo, e não posso deixar essa sensação de ódio me tomar antes da hora.
- Carpi, você está encarando. - Alex me alerta e isso me faz desviar os olhos. - Se não quer chamar atenção, deveria controlar a sua expressão de assassino. - Acabo sorrindo, porque o meu amigo tem esse poder. De me trazer para a realidade com algum comentário ridículo.
- Estou apenas observando o ambiente. - Minto.
- Eu também. Inclusive, nada mudou. - Ele olha ao redor. - As mulheres ainda são de plástico e os homens, tem a mesma cara de brochas. - Dessa vez não consigo controlar e dou uma risada alta.
Ele faz mais dois ou três comentários, sobre como tudo parece igual depois de 5 anos longe, quando um movimento chama a minha atenção ao lado do bostinhä do Fábio.
Não consigo mais absorver nem mesmo uma palavra ou movimento ao redor, porque é impossível que a mulher que levantou daquela mesa seja a mesma que desdenhou do meu trabalho faz dois dias.
"Estou aqui apenas porque preciso estar."
Garota atrevida e linda.
Ela sai quase flutuando pelo salão com sua amiga e os meus olhos seguem fixos nela, absorvendo cada traço delicado que esconde um gênio afrontoso.
Sim, é ela. Sem dúvidas.
"Giulia…"- A voz dela ecoa na minha memória.
- Já volto. - Aviso ao Alex, enquanto sigo disfarçadamente pelo caminho que a garota seguiu.
O vento frio no meu rosto não faz nada para me parar, quando saio do salão cheio e vejo as duas entrando no labirinto.
Safadas. Fugindo no meio do evento.
Mantenho o mínimo de distância, mas as sigo, mesmo sem saber muito bem porque estou fazendo isso. Daqui eu consigo ouvir o que as duas estão falando, algo sobre fugir.
São amantes?
O pensamento nem mesmo tem tempo de firmar na minha cabeça, quando a geniosa fala:
- Terminei com o Fábio ontem. - O meu sangue congela no mesmo instante.
Ela é a noiva do meu irmão?
- Poderíamos mesmo fugir. - A amiga responde.
- Klarinha… - Sinto repreensão na voz dela?
- Estou falando sério. É injusto demais você ser obrigada a viver a vida inteira com um homem escroto como ele, apenas por dinheiro.
- O legado da família Mantovani ou a minha felicidade? - Acabo sorrindo, reconhecendo o tom cheio de sarcasmo da garota. - Os meus pais adorariam.
- Eu estou falando sério. Assim que você se formar, eu me comprometo a patrocinar a sua fuga para qualquer lugar no mundo, e você pode começar do zero…
- Klarinha, eu gostaria que fosse simples assim. - Ela faz uma pausa, como se estivesse considerando. - São apenas 10 anos e dois filhos. - O amontoado de pensamentos me faz esquecer de respirar. - Depois posso separar.
Meu pai nunca escondeu o tipo de canalhä que era, e saber que o meu irmão estava seguindo pelo mesmo caminho, não deveria me surpreender, mas ainda assim, surpreende. - Nem vamos perceber o tempo passar.
Eu não penso muito sobre o tipo de revolta que estou sentindo, enquanto repasso a conversa que ouvi nos meus pensamentos e é vergonhoso como eu tenho facilidade de entender o que será do futuro dessa menina.
Giulia.
Ela está condenada a casar com o herdeiro de um império, dê certo, por alguma relação comercial, e será obrigada a gerar herdeiros. E é possível sentir nas palavras dela a tristeza que sente por isso.
Pior que a tristeza é a aceitação, como se esse fosse o único caminho.
Chantagem, talvez?
É um excelente motivo para vender a filha para alguém como a merdinhä do meu irmão.
- Vá logo. - A voz da Giulia me arranca dos meus pensamentos. - Ela não vai te esperar para sempre. -
Certo…
- Ela é uma delícia. - Ouço a amiga responder. - Mas, você precisa muito de mim.
- Eu ainda estarei aqui quando você terminar de gözar.
Ficou evidente que a amiga tinha coisas mais interessantes para fazer e imediatamente caminhei até a próxima volta, evitando ser visto caso elas resolvessem voltar.
- Eu prometo não demorar. - A atmosfera na voz da amiga mudou completamente.
- Não prometa. - Ouvi um sorriso na voz dela e de repente senti o impulso de ver ela sorrindo.
Você foi criado para o pecado, Pedro.
A amiga está correndo e leva apenas um segundo para passar pelo canto que estou, com um sorriso largo e brilhante.
Ela ficou sozinha.
No centro do labirinto.
Em completo silêncio. De onde eu estou não consigo ver onde ela está, então me aproximo devagar, tentando espiar pelas roseiras.
Um suspiro profundo e doloroso me encontra e antes que eu possa pensar, dou a última volta entrando no centro do amontoado de flores. É como se uma força magnética me puxasse, mesmo que eu saiba que isso não passa de curiosidade.
Ela não está no centro do labirinto, está num canto, com as pernas juntas do corpo, sentada em um banco e encostada e uma grande árvore, completamente envolvida num livro.
Ela suspira mais uma vez e quase sinto o ar que ela solta me atingir. Dou mais um passo, enquanto olho mais uma vez para a menina atrevida que me fez ferver de raiva, quando debochou do meu trabalho.
Ela tem a pele clara e as maçãs do rosto altas, está com a testa franzida, um sinal claro de concentração e a boca fechada em uma linha fina, absorta na leitura; e o vestido rosa claro, que cobre boa parte do corpo dela, me faz pensar em morangos.
Um morango lindo e saboroso, que eu lamberia inteiro.
No meu próximo passo, ela finalmente se dá conta que não estava mais sozinha, e assim que colocou os olhos em mim, eu soube que estava födido.