Pedro Carpinetti
Giulia Mantovani:
Já estou em segurança na minha cama, como ordenado.
Leio pelo que parece ser a milésima vez a mesma mensagem de dois dias atrás, quando eu precisei dar tudo de mim para não a seguir até em casa. Ela parecia fragilizada demais para andar pelas ruas sozinha, conduzindo um carro e com zero controle da própria vida.
- Pronto para ir? - O Alex pergunta da porta do escritório, me tirando pela milésima vez dos meus pensamentos que insistem em ir em direção a uma certa herdeira.
- Sim. - Respiro fundo, levanto e fecho o paletó.
Depois de muito procurar, finalmente encontrei um possível caminho para confrontar Carlos Mantovani. Ele gosta de jogar e eu de ganhar, e é por isso que estou indo essa noite ao cassino que ele costuma ir todos os dias e onde deixou muito mais do que dinheiro. Pelo que descobrimos, a dignidade é a próxima coisa que ele está prestes a apostar.
As ruas de Boston estão vazias e frias e não me forço a parecer feliz quando passo pelas portas do lugar, em direção à mesa de cash que o homem está jogando. Me sento ao lado dele e não espero que me reconheça, porque ele parece completamente alucinado nas próprias cartas, com o semblante completamente fora de si.
Ele passa a energia de que tem boas cartas e deve fazer o mesmo quando não as tem, e é por isso que ele perde constantemente.
Poker não é considerado um jogo de azar e acho vergonhoso que o jogo tenha uma fama tão baixa, devido a homens como que está ao meu lado. A verdade é que poderia ser qualquer tipo de aposta, todas são doentias e amarguradas quando saem do campo da diversão.
Quando ganhar se torna tudo o que se é.
- Eu dobro. - Ele declara e eu suspiro enquanto espero que ele caia igual um pato na armadilha do senhor a frente dele. Vejo Alex sentado no bar, tomando uma taça de alguma coisa, e espero.
Assim que o Senhor Mantovani perde, eu abro o meu melhor sorriso.
- Nem todas as mãos são para se ganhar. - Brinco, agora, sim, mostrando uma simpatia que não sinto.
Os olhos claros que tem constantemente ocupado a minha cabeça me encaram e eu sinto repulsa do homem diante de mim.
Esse homem está colocando a única filha à venda.
- Sempre é um dia para ganhar. - Ele abre um sorriso de lado. - Eu te conheço?
- Talvez? - Sugiro. - Sou um grande admirador do seu trabalho, senhor Mantovani. - Vejo diante dos meus olhos o ego do homem inflar. - E estou aqui exclusivamente para te fazer uma proposta irrecusável.
- Gosto de propostas assim. - Ele responde, enquanto bate as mãos no bolso, buscando a carteira, talvez? Me adianto e jogo duas fichas diante dele, uma isca, para provar que tenho poder e dinheiro, garantindo a atenção dele. - Não precisa garoto.
- Preciso de você sorrindo para me ouvir. - Brinco e arrumo a gravata e essa é a minha deixa para o Alex se sentar conosco. O jogo recomeça, e mesmo que todos os meus instintos gritem para blefar e ganhar, visto que ele dá sinais claros das próprias cartas, eu miro nos outros 3 desconhecidos na mesa. Eu e o Alex eliminamos todos, antes mesmo que o Mantovani consiga pensar, e num acaso do destino, aposto tudo e o Alex me elimina, ficamos apenas ele e o homem que vou negociar em breve.
O jogo corre normalmente, se estende e sei o que o Alex está fazendo. Ele perde, mas não aposta tudo, para aumentar a energia e a adrenalina do nosso alvo, até que o momento chega e ele perde de Carlos Mantovani, exatamente como planejamos.
O rubor no rosto dele queima assustadoramente, enquanto comemora uma vitória que nem imagina que foi dada de mãos beijadas e assim que fica de pé, com o sorriso no rosto, me diz.
- Agora quero ouvir a sua proposta garoto. - Ele me segue até um canto mais reservado, observo o Alex sentar novamente no bar, com uma expressão frustrada.
Meu amigo odeia perder, mesmo quando o faz de propósito para me ajudar em algum plano.
- Aceita uma bebida? - Ofereço e ele aceita, com os olhos fixos na mesa que acabamos de deixar.
O pensamento do viciado em jogo funciona de uma forma quase burra. Basta uma vitória para que ele se sinta imparável, e ele de fato, se torna. Perde quantas vezes for necessário, até ganhar de novo, o que acontece em média uma vez a cada 50.
Por isso ele está vendendo a empresa, a filha e o nome dele ao meu pai. Ou melhor, agora, a mim.
- Tinha razão quando perguntou se me conhecia. - Admito de cara. - Sou o Pedro. - Os olhos claros, quase verdes me encararam, com a testa franzida, e odeio ver a mesma expressão de dúvida que fica linda na Giulia no rosto desse homem. - Pedro Garcia Carpinetti. - Me revelo e ele leva poucos segundos para juntar o nome a pessoa. Ele pisca algumas vezes, absorvendo, mas não espero que pense muito. Preciso aproveitar a euforia dele. - Sei do acordo com o meu pai e o meu irmão. - Agora ele está estático. - E quero propor algo melhor.
- O acordo já está fechado. - Ele responde sorrindo.
- Não até a sua filha se casar. - Ele se surpreende. - Ou consumar o casamento. - Ele bebe um gole de whisky.
- Como sabe disso?
- Tenho os meus contatos. - Nesse caso, a sua própria filha, penso comigo. - E a minha proposta é imensamente mais atrativa e a empresa seguiria na sua família. - Vejo a surpresa cintilar nos olhos dele mais uma vez. - No acordo atual, você a perde assim que o primeiro herdeiro nascer, dando fim a sua história e ao seu sobrenome. - Ele continua congelado. - Estou disposto a cobrir todo e qualquer investimento prometido pelo meu pai e mais… Não precisa de casamentos, quero apenas uma parceria de 3 anos entre a sua empresa e a minha. - Ele pisca de novo. - Vou investir em estrutura e parcerias e juntos tomaremos toda a costa oeste. Depois, saio do jogo e a empresa segue nas mãos da sua única herdeira, que vai escolher com quem dividirá a vida. - Acredito no meu discurso. Claro que os detalhes precisam ser explorados, mas falei sobre dinheiro e sobre a libertação da Giulia, sobre a empresa se manter na família dele. Acho que fui convincente o suficiente.
- Não aceito. - Ele responde e sinto o meu sangue gelar. - O objetivo desse acordo também inclui o futuro da minha filha. - Ele admite. - Ela acha que será uma estrela da Broadway, coitada. - Ele solta uma risadinha e preciso me controlar, fechando os punhos. - Demos liberdade demais a ela e agora está na hora de colocar ela no rumo da vida. Manter o nosso nome é importante? - Ele meneia a cabeça. - Claro que sim, mas juntar ele com os Garcia? - Ele levanta o copo e sorri antes de responder. - Nos fará únicos. - Levo menos de um segundo para me recuperar, partindo imediatamente para o plano B.
- Ela ficar a frente da empresa é negociável. - Isso, deixe que ele ache que a decisão é dele.
- Ahá! E ver ela afundar aquele barco mais ainda? - Ele bebe um longo gole do copo. - Nem morto! - Prendo o ar, porque estou diante de um homem que não imagina o brilhantismo da própria filha.
Não apoia os sonhos dela e a está tratando como uma mercadoria.
- Agora me diz, o que você ganha atrapalhando os planos do seu pai garoto? - Odeio a forma íntima que ele me chama, como se fosse respeitável.
- Meu nome de volta. - O plano C surge na minha cabeça, de forma brilhante, algo que nem mesmo cogitei, porque tinha certeza que ele apenas estava desesperado e só tinha visto uma saída. Vender a filha. Mas, agora, vejo que ele quer fazer isso.
É doentio.
- Você foi deserdado garoto. - Ele declara, rindo. - O nome não é mais seu.
- Foi isso que o meu pai falou para você? - Deixo toda a tensão e a raiva transparecer na minha expressão, mudo completamente a postura leve e brincalhona de antes, porque agora, sou o caçador e o homem à minha frente a presa que vou fazer sangrar. - O nome é meu e apenas meu, foi usurpado por ele e por outros e eu vou tomar tudo de volta. - Me coloco de pé, deixando a ameaça tingir as minhas próximas palavras. - Você tem duas opções: Negocia comigo e nós dois chegamos a um acordo, ou você vai afundar junto com ele e o nome falso que ele carrega.