Giulia
Eu estava amortecida. Nas últimas horas, meu mundo virou de cabeça para baixo. Fui de "noiva por obrigação" a "mercadoria vendida", e o pior é saber que o meu próprio pai assinou o recibo.
Sinto um gosto amargo na boca. Como ele teve coragem?
- Não vou conseguir fingir normalidade… - Falo, deixando a raiva escapar. Olho para o Pedro e ele suspira. - Estou brava demais, Pedro.
- Eu entendo. Mas se você confrontar ele agora, coloca tudo a perder.
Ele não parecia bravo comigo, mas estava furioso. Dava para ver na forma como ele apertava o copo de uísque. Ele parecia mais "putö" com a situação do que eu, e eu nem tinha forças para tentar entender o porquê.
- Quanto tempo eu preciso fingir? - Cruzo os braços, tentando me abraçar, buscando um conforto que não existe.
Os olhos estrelados dele me seguem, descendo pelo meu corpo e voltando para o meu rosto com uma intensidade que me faz perder o fôlego.
- Por pouco tempo. Só mais alguns dias. - Suspiro e me levanto. Preciso sair daqui antes que eu desabe.
- Vou para casa. Talvez dormir ajude a calar a minha cabeça.
Ele se levanta também, enfiando as mãos nos bolsos. Ele parece querer dizer algo, mas o silêncio entre nós é pesado.
O que se diz para uma mulher que acabou de descobrir que foi vendida pelo pai?
- Acha que consegue dirigir? - Ele pergunta, me analisando, com a cabeça levemente inclinada para o lado.
- Tomei duas taças de vinho, Pedro. Estou no controle das minhas decisões. - Ele dá um passo na minha direção. O cheiro dele me atinge em cheio, e o perfume aquece a minha pele e faz os meus nervos vibrarem.
Entro em um estado de alerta imediato.
Será que ele é tão quente quanto parece?
Ignoro o pensamento, porque estou cansada, revoltada e com álcool no sangue.
- Você é uma mulher adulta. - Ele determina, com a voz grave. - Mas vá com cuidado.
Assinto e caminho até a porta, mas a dúvida morde o meu coração. Eu estou entregando o meu futuro nas mãos de um homem que conheci há uma semana. E se ele for como os outros? E se ele só estiver me usando para chegar no pai dele e no fim me manter condenada?
Paro antes de sair e me viro.
- Quero te perguntar uma coisa. - Ele espera, em silêncio. - O que você realmente ganha com isso?
Ele franze a testa, como se a pergunta fosse óbvia.
- Já falamos disso... Dinheiro, vantagem, vingança...
- Não… - Interrompo. - Além disso… Você poderia negociar com o meu pai sem me ajudar. Poderia pegar os portos e me deixar casar com o Fábio. Por que me tirar dessa?
Ele dá um passo lento na minha direção. O deboche surge no canto da boca dele.
- E deixar o Fábio colocar as mãos em alguém inocente? Sair vitorioso com uma mulher que ele não merece nem olhar? - Ele solta uma risada curta. - Me afeiçoei a você, Giulia. E eu sou, no fundo, uma boa pessoa…
Mordo o lábio, ele continua.
- Eu fui traído pela minha família e não desejo isso para ninguém…- Ele fala, chegando mais perto. - Se eu puder evitar que um crápulä como o Fábio, ou que o seu pai e o meu saiam ganhando em cima de alguém, qualquer pessoa, eu vou evitar.
Qualquer pessoa. A frase bate em mim como um tapa.
Não eu.
Qualquer pessoa.
E então me dou conta da minha ilusão. Em algum momento nutri no fundo da minha mente que era por mim, mas não.
Eu não sou especial. Eu sou apenas a “qualquer pessoa” que estava no caminho. Sinto um amargor estranho na garganta, uma pontada de rejeição que eu não deveria sentir. Afinal, fui eu quem disse que não queria flertes. Mas saber que ele faria isso por qualquer uma... dói.
E não deveria doer.
- Certo! - Respondo, sentindo o rosto queimar. - Fico grata pela ajuda. - Me viro, antes que ele veja o rubor subindo para o meu rosto. A comprovação dos meus pensamentos vergonhosos.
- Giulia... - Ele tenta dizer algo, mas eu já estou andando pelo corredor.
Eu quero distância. Distância desse homem que me faz sentir pequena e protegida ao mesmo tempo.
Distância dessa sensação confusa de confiança e perigo.
Ele me acompanha até a porta, com aquele jeito elegante de andar que me irrita de tão perfeito.
Ele abre a porta para mim e os nossos olhos se cruzam de novo.
- Me avise quando chegar! Ele ordena.
Eu solto uma risadinha sem vontade, tentando disfarçar o incômodo.
- Ok, papai. Vai me colocar de castigo também…?. - Desdenho, porque é a forma que consigo me defender em meio a quantidade de coisas que estou sentindo.
Me viro para sair, mas a mão dele fecha no meu braço com firmeza. O toque é quente e possessivo.
Eu congelo.
Olho para os dedos dele na minha pele e depois para os olhos dele.
Ele não está brincando. A expressão dele parece sombria, protetora.
- Você pode ser muitas coisas, mas não é uma adolescente. - Pisco mais uma vez, confusa com a mudança repentina no comportamento dele. - A sua segurança vem em primeiro lugar! - Ele explica, mas não sinto verdade nas palavras. - Você bebeu, está com as emoções bagunçadas e teve um dia de merdä. - Ele respira fundo e completa. - Me avise!
Eu sustento o olhar dele que deveria revirar os meus nervos de medo, mas reviram os meus pensamentos com outras coisas. Passo a língua nos lábios e os olhos dele se concentram no movimento, mas devo ter imaginado, porque ele me solta, mesmo que não se afaste, antes de inclinar na minha direção mais uma vez e falar baixo, com a voz rouca.
- Não me desafie! - O calor da respiração dele contra o meu pescoço me faz arrepiar inteira. O nó na minha garganta aperta. Eu apenas assinto, incapaz de falar, e saio para o frio da noite, sentindo o lugar onde ele me tocou formigar.