Vou te proteger

1422 Words
Pedro Carpinetti Estou no terceiro copo de whisky quando o interfone finalmente toca. Pela câmera vejo que ela chegou e abro o portão, para que entre com o carro o mais rápido possível. Ela foi rápida, imaginei que levaria alguns dias para entrar em contato, mas levou menos de 2 horas. Ela estava desesperada por um plano de fuga, com certeza. Dispensei quase todos os funcionários, mantendo apenas a minha governanta, que é da minha inteira confiança para nos servir alguns aperitivos, e é ela que abre a porta para a minha convidada. Ouço os passos dela pelo corredor e meu corpo inteiro fica em alerta. Quando a Mag abre a porta, eu perco o ar por um segundo. A beleza dela está completamente natural. Ela visivelmente saiu às pressas de casa, para vir até mim e ainda assim, estou impressionado com a beleza diante dos meus olhos. Giulia está completamente natural. Cabelos molhados, rosto limpo, sem uma gota de maquiagem. Os olhos verdes parecem duas esmeraldas brilhando de raiva. Ela usa um moletom escuro, mas o tecido marca as curvas das pernas dela de um jeito que me faz perder o foco. - Você levou a sério a história de não passar despercebida. - Brinco tentando aliviar o peso no meu peitö e ouço a Mag soltar uma risadinha. O rubor sobe pela pele dela tornando tudo melhor. Linda. - Eu estava com pressa. - Ela justifica, antes de passar pela Mag e invadir o meu escritório, como se fosse a dona do lugar. - E a desculpa de ir até a biblioteca do campus não teria colado se eu estivesse com outra roupa. Sinto o sorriso no meu rosto, conforme ela abre o zíper da blusa de frio azul marinho e a tira, ficando apenas de camiseta branca. E a visão fica muito melhor. - Quer beber alguma coisa? - Ofereço e ela suspira fundo. - Mag, nos traga um vinho, por favor. - Tomo a decisão, antes que a princesa da raiva na minha frente perca a cabeça. - Agora mesmo, Carpi. - A Mag responde e se vai. Giulia Mantovani pega o celular do bolso e me entrega nas mãos, com a galeria aberta. Ela fotografou tudo. Começo a ler e sinto meu sangue ferver. Enquanto eu leio, ela anda de um lado para o outro no centro do meu escritório, e tenho a sensação que se não fosse pelo tapete, ela abriria um buraco no chão com os pés de bailarina. Leio cada palavra do acordo entre os nossos pais e me surpreendo. O valor é pífio perto do que a empresa vale, e mesmo que haja investimento posterior, ainda é totalmente abaixo do valor de mercado. Entendo que o casamento é uma ferramenta fundamental para validar o acordo e respiro tranquilo, porque é completamente reversível, e também, o acordo ainda não foi finalizado. Tem marcas óbvias de correções futuras, um detalhe ou outro em termos de prazos e correções de valores. Em algum momento da minha leitura, a Mag volta e nos serve, mas eu continuo absorvendo cada linha. Vejo pelo canto do olho quando a minha convidada vira a própria taça de uma vez. - Dizem que alcoolismo é genético. - Provoco e ela congela, com a taça vazia na mão. - Não serei uma viciada, Pedro! - Ela rebate. Certo, ela está brava e o rubor da raiva dela é o meu favorito. - Essa decisão foi gerada pelo trauma que o seu pai ou a sua mãe causou? - Levanto os olhos para ela, e encaro o fogo selvagem nos seus olhos. - Qual o seu problema? - Sorrio de novo. - A sua inquietação. - Respondo, diretamente. - Sente-se, respire e desfrute do vinho. - Ordeno, mas minha mente está trabalhando a mil por hora. - E você leia logo essa merdä. - Ela serve mais vinho e estou tão chocado com o tom agressivo dela que estou congelado no lugar. Linda demais, PQP! - O que me interessa, eu já descobri. - Ela bebe mais um gole e eu pego a minha taça. - Agora me diga, o que te deixou tão revoltada? Ela finalmente senta no sofá na minha frente, bebe mais um gole de vinho, devagar dessa vez. A minha provocação sobre o alcoolismo causou efeito então? - O contrato que o meu pai me mostrou não era esse. - Pisco, confuso. - Era outra coisa, muito menor, com determinações diferentes. - Da elaboração até o firmamento do contrato, eles mudam, Giulia. - Explico. - Não. - Ela suspira. - Procure pela Garantia de Sucessão. - Faço o que ela diz e encontro rápido. Passo os olhos e trinco os dentes. O pai dela não estava fazendo uma parceria, ele estava vendendo a filha e a empresa ao meu pai. Assim que o primeiro herdeiro nascesse, todas as ações que são dos Mantovani seriam direcionadas ao Fábio. Leio mais uma vez, buscando algo nas entrelinhas, mas realmente é isso. Sinto uma vontade intensa de quebrar a mesa. - O seu pai está escondendo alguma coisa. - Cheguei à mesma conclusão. - Ela bebe mais um gole, se encosta no sofá e fecha os olhos. - O valor desse contrato é ridículo, e porque ele passaria tudo o que seria meu para eles? - Para garantir que você gere herdeiros? - Sugiro, mas ainda parece muito pouco. - Ou, ele tem outras dívidas que não estão descritas aqui. - Ela respira fundo de novo. - Não sei o tamanho do problema. - Ela confirma o que eu já desconfiava. - Sei que ele está endividado, que é viciado em jogos, que a empresa vai de m*l a pior e que devemos impostos até a alma. - Assinto. - Mas nada justifica ele entregar as duas coisas. A empresa e a mim. - Entendo o motivo da raiva dela. Ela está sendo vendida pelo próprio pai para um crápula. - O meu pai tem algum trunfo contra ele. - Sugiro. - Ou a insegurança do meu irmão é tão grande, que ele quer te amarrar a ele para sempre. - Justamente! - Ela levanta de novo, e volta a andar de um lado para o outro. - O acordo inicial, consistia em 10 anos de casamento e dois herdeiros. - A amargura da raiva ferve na minha garganta. - Eles liquidariam as dívidas e passariam a ter participação de 10% nas ações, o que em comparação com o que temos, é quase nada. - Ela continua andando. - Depois eu poderia me separar e nada do que é meu ou dos meus filhos hipotéticos seria mexido. - Ela para, bebe o restante do vinho e suspira mais uma vez. - Só que isso faz quase 4 anos, e meu pai continua jogando, ou seja.... - A dívida aumentou. Tento, desesperadamente, não sentir revolta pela situação dela, mas eu falho miseravelmente. Dois velhos ricos estão brincando com o futuro da mulher na minha frente, que poderia ser brilhante. Vinculando ela para sempre ao imprestável do Fábio e condenando ela a se manter em um casamento infeliz ou a perder tudo. É repulsivo. Doloroso. Revoltante. - Giulia. - Ela me encara, com os olhos cheios de lágrimas, a respiração acelerada e o rosto vermelho, vejo que o vinho começou a fazer efeito e ela perdeu um pouco do controle da máscara fria que carrega normalmente. - Isso aqui já me ajuda a entender onde estou pisando, mas vou precisar de algum tempo para descobrir o que mais o seu pai esconde. - Ela assente. - Quero ir até ele cobrindo tudo o que o meu pai ofereceu, e sem saber a dimensão do que seja… - Eu sei. - Ela responde, com os olhos fixos em mim. - Enquanto isso, você precisa fingir que não sabe de nada. Não podemos ser vistos juntos, para que nenhum deles desconfie e acelere as coisas. - Certo. - Levanto a garrafa, oferecendo mais vinho e ela aceita. - Agora, preciso que você se acalme, antes de voltar para casa. - Ela se senta novamente e bebe mais um gole de vinho. Devolvo o celular e me sento ao seu lado. - Me envie as fotos, por favor. Ela assente e começa a mexer no celular. Reparo nas mãos trêmulas, as pernas cruzadas que ela move sem parar e na respiração profunda que exala o cheiro de morangos e vinho. Nesse momento, olhando para ela tão vulnerável no meu sofá, eu decido. Eu vou proteger Giulia Mantovani.
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