Familia Mantovani

1249 Words
Pedro Carpinetti O relatório na minha frente é um soco no estômago. Boston está lá fora, com as luzes do porto brilhando, esperando o dia nascer, mas tudo o que eu consigo ver é a sujeira que a família Mantovani esconde debaixo do tapete. E que o meu querido pai pretende controlar. O Alex está sentado na minha frente, balançando o copo de uísque. Ele parece tão enjoado quanto eu. - Eles são podres, Carpi. De cima a baixo. - Ele diz, jogando a pasta na mesa. - Eu achei que o pai da Giulia era só um empresário rüim, mas o cara é um desastre completo. Pego o papel e começo a ler. Carlos Mantovani não é apenas um homem perdido nos negócios. Ele é um viciado. As dívidas dele em cassinos são enormes. Ele está perdendo tudo o que tem nas mesas de jogo. - Ele está tirando dinheiro da empresa para pagar apostas que nunca vence… - Comento, sentindo um asco profundo. - Enquanto o porto cai aos pedaços, ele joga o futuro da família no lixo. Os Mantovani são “donos” dos principais portos de Boston, controlando tudo o que sai e entra por toda a costa leste. - E a mãe não fica atrás… - Ele aponta para os papéis da fundação de caridade da Elza Mantovani. - Ela se finge de santa, mas o dinheiro que as pessoas doam para ajudar os pobres, ela usa para comprar joias e vinho caro. Ela rouba de quem não tem nada para manter a pose de madame. - Fecho os olhos por um segundo. Eles são uma mentira completa. Uma fachada bonita para esconder pessoas horríveis. - E o vício parece ser uma tradição de família, porque ela tem problemas claros com álcool. - E o avô, Alex? - Pergunto, vendo que o fundador de tudo continua vivo, mas sem condições de controlar os negócios. - De onde veio o dinheiro para ele sair do subúrbio para o topo da gerência portuária? - Na página 6 achei uma coisa bastante interessante. Parece que o dinheiro veio de um crime. - Ele aponta. - O velho Lorenzo, avô da Giulia, mandou queimar o galpão do único concorrente que ele tinha na época, além de um galpão próprio. Pessoas morreram no incêndio, Pedro. Ele recebeu o dinheiro do seguro e comprou o que sobrou dos outros por uma miséria. Foi assim que os Mantovani ficaram ricos. - Filho da putä. - Murmuro. Olho para os guindastes do porto lá fora e sinto raiva. Toda aquela fortuna foi construída em cima da desgraça dos outros. E agora o Carlos está terminando de destruir tudo porque não consegue parar de jogar. Viro as páginas procurando o nome dela. Não tem nada. Nenhum crime, nenhuma mentira, nenhuma conta escondida. No relatório dela só tem faculdade, aulas de dança e uma vida vigiada pela mãe. Ela é a única coisa limpa no meio de todo esse pântano. - Ela é a única que presta naquela família, não é? - Pergunto, mais para mim mesmo. - Parece que sim.- Ele responde sério. - Ela vive numa bolha. Faz duas faculdades, fora vários cursos e uma rotina dedicada à própria vida. Acho que ela não tem a menor ideia de que o pai está vendendo ela para o seu pai, para pagar as dívidas e não passar vergonha na sociedade. Sinto o meu maxilar travar. Os meus dentes chegam a doer de tanta raiva. Ela está sendo vendida como se fosse um objeto. Carlos está entregando a filha para um cara nojento, como o meu irmão, só para não perder o título de "rico" e não ser preso. - Qual seria a vantagem para o meu pai, além é claro, de controlar a costa leste? - A família Galvão atua com navios cargueiros, o negócio será muito lucrativo, se ele conseguir assumir as duas empresas. - Ele ficaria maior que você. - O Alex explica, direto. - Você controla o rastreio e cargas nas Américas, mas ele poderia impedir que você atue na parte dele. - Sinto o veneno ferver no meu estômago. - É esperto, temos que admitir. Um casamento por contrato, simples, e o homem controlará tudo. - Não me surpreende que ele ainda tente me impedir de prosperar. - Comento. - Ele nunca engoliu que em dois anos eu ganhei mais dinheiro do que ele durante toda a vida carregando o sobrenome Galvão. - Ele não receber a fama por isso, e também, o dinheiro, sempre foi um problema, - Nem a fama, nem o dinheiro, nem mesmo o sobrenome, são dele. - Respiro fundo, porque toda a vez que penso nisso um ódio mortal sobe pelos meus ossos. - Vamos manter o plano, de minar pouco a pouco o poder dele como Galvão. Na hora certa ele será punido por tudo o que fez… E… - Analiso de novo o nome dela no papel que seguro com força, uma ideia muito arriscada se formando. - Marque uma reunião com o pai dela. - O Alex pisca, uma, duas, três vezes. - Quero dobrar a aposta para o desgraçado. - Meu amigo… O que você está pensando? - Ele pergunta, agora com uma feição preocupada. - O Carlos quer o dinheiro do meu pai, e o meu pai quer os portos dele. A Giulia é só o selo do contrato. - Declaro, sentindo o ódio borbulhar. - Vou resolver isso, se possível, sem envolver a moça. - Determino, com o plano brilhando na minha mente. - Posso matar dois coelhos com um tiro apenas. Levanto e vou até a janela. O ódio que eu sinto pelo legado apodrecido dos Galvão agora tem um alvo novo. Eu quero acabar com todos eles. Quero ver o nome deles na lama e pegar de volta o que é meu. - Vou marcar a reunião, mas isso é apenas uma jogada a mais no plano ou tem algo mais? - Ele me conhece a tempo o suficiente para ver que os meus planos vão além de atrapalhar os negócios do meu pai. Lembro do rosto dela no labirinto... Lembro do jeito triste e, ao mesmo tempo, atrevido que ela tem… Reforço que o plano é bom. Tomar a frente na negociação e dar mais vantagem para o cretinö do pai dela, tirando o trunfo das mãos do meu pai. Evitar que ela se case com o meu irmão seria apenas um favor que eu faria a ela. Um favor que ela me deveria… - É uma jogada… - Respondo, sentindo um sorriso nascer no meu rosto. - Com uma vantagem de olhos cor de mel. - Encaro o meu amigo e ele suspira. - O que você vai fazer? - Ele pergunta, lendo no meu rosto todas as intenções que eu carrego. - Vou deixar o Carlos se enterrar sozinho. Ele quer dinheiro? Terá dinheiro… E vou deixar a mãe continuar bebendo o dinheiro dos outros, até ser descoberta… Mas a Giulia não vai casar com o Fábio. - Determino, com a certeza fervendo dentro da minha alma. Caminho até a mesa e pego o meu celular. - Descubra onde é o estúdio de dança dela, Alex. Quero o horário que ela treina. - Isso vai dar merdä! - Ele me alerta, mas está sorrindo. - Eu voltei para pegar o que é meu por direito. - Reforço, sorrindo largo. - E a primeira coisa que eu vou tirar deles é a Giulia Mantovani.
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