Curiosidades

1177 Words
Fico em completo silêncio durante metade do caminho. Eu sabia que não conseguiria me manter calada o trajeto todo, mas o esforço era necessário; afinal, ao meu lado, as mãos que apertavam o volante pertenciam a um macho escrotö e profundamente inseguro. - Bebê, ele é um homem aproveitador. Ele viu em você apenas uma oportunidade para me atingir, entende? - Fábio afirma do nada, com uma convicção que beira o ridículo. Ele parece estar ruminando isso há algum tempo, remoendo o fato de Pedro ter respirado o mesmo ar que eu. - Ou ele foi apenas educado. - Rebato, mantendo a voz suave, fingindo uma inocência que não existe. Vejo quando os nós dos seus dedos ficam brancos de tanto apertar o couro do volante. - Ele me reconheceu da palestra e veio me cumprimentar. Ele nem parecia saber que eu era sua... noiva. - Até porque eu nunca faço questão de divulgar essa informação para desconhecidos, completo mentalmente, sentindo um gosto amargo na boca. - Ele não presta, Giulia. Saiu escorraçado da minha casa depois que deu um golpe no meu pai. - A certeza das palavras dele tenta plantar uma dúvida na minha cabeça, mas eu a arranco pela raiz. - Ele é perigoso e oportunista. Fique longe dele. Se eu souber que você trocou mais uma palavra com aquele sujeito, teremos problemas. Aperto os lábios com força. O "comportamento esperado de uma dama" é o que me impede de rir na cara dele. Eu não acredito, nem por um segundo, que um homem como aquele precisaria se aproveitar de uma mulher para atingir o irmão. Meio-irmão. O Pedro parece ser muito mais inteligente do que o Fábio jamais será. Não discordo do perigo que ele emana, mas não senti desconforto quando ele se aproximou. O que senti no labirinto tem outro nome, e é muito mais perturbador do que o medo. Perigoso, perturbador e proibido. - Que tipo de golpe? - Pergunto, porque a curiosidade lateja nas minhas veias. - Coisas de negócios, você não entenderia os detalhes… - O desdém na voz dele confirma, mais uma vez, que para ele sou menos que uma porta. - Mas, em resumo, ele usou o dinheiro do meu pai para um investimento que deu certo e fez fortuna sozinho. - Absorvo a informação. - Ingratidão pura. Ele não dividiu os lucros com quem acreditou nele. - Vejo a inveja rodopiar na voz dele. Um milhão de argumentos fervilham na minha cabeça. Eu gostaria, por apenas um minuto, de poder sair do personagem e esfregar as conclusões lógicas na cara dele. - ... Ingratidão é uma facada nas costas… - Ele continua falando, alheio à enxurrada de pensamentos que me dominam. Eu conheço a história por trás dos Galvão. Sei que o sobrenome é forte há gerações, mas quem detinha a fortuna e o sangue legitimo era Amélia Galvão, que deve ser a mãe do Pedro, a primeira esposa do meu futuro sogro. De forma lógica, o dinheiro sempre foi dela e, por consequência, do Pedro. Não foi um "investimento" de Marconi Galvão, o pai do Fábio. Marconi foi apenas o homem que assumiu o sobrenome da esposa para subir na vida. E o manteve mesmo no segundo e no terceiro casamento. Lembro da minha mãe contando essa história com nojo por um homem herdar o sobrenome da esposa, mas o meu pai, na ocasião, disse sabiamente que Marconi Galvão foi um gênio. Porque, depois que Amélia adoeceu, ele assumiu tudo. Herdou um legado que não era dele e o transformou no seu império pessoal. - Ele enganou investidores da empresa… - Fábio continua o monólogo e eu já não absorvo mais nada, até que uma dúvida surge. Em uma pausa que ele faz para respirar, eu pergunto: - Ele se apresentou com outro sobrenome. Carpinetti. A risada do Fábio é tão cruël que gela a minha alma por um segundo. - Ele usa o segundo sobrenome da mãe dele. - Explica, ainda rindo com deboche. - O mais fraco dos dois. Ele perdeu o direito de usar o Galvão quando nos traiu. Observo o perfil do meu noivo. A síndrome de inferioridade é clara. Ele foi ofuscado pelo irmão mais velho, que provavelmente apenas tomou o que era seu por direito de sangue. - Mas… o sobrenome Galvão era originalmente da mãe dele também, certo? - Pergunto, usando o meu tom mais doce e ignorante. - Não entendo como alguém perde o direito a um sobrenome que herdou da própria mãe. Na minha cabeça, não faz sentido. Concluo, fazendo-me de "burrinha", e espero o veneno vir. - O sobrenome é do meu pai, ele ganhou o direito sobre ele quando casou com a Amélia. - Continuo a manter a expressão de confusão. - Ele deu sequência ao legado dos Galvão, mesmo depois da morte dela. - Ainda aperto o cenho, demonstrando uma confusão clara, porque o Fábio herdou o sobrenome Galvão do pai, visto que ele é fruto do segundo casamento. Ele não é um Galvão legitimo, ele que não deveria usar o sobrenome. Vejo quando ele decide que não vai tentar me explicar mais. - Como eu disse, você não entende nada de negócios, Giulia. - Ele muda o tom para algo cheio de incômodo. - É por isso que, quando casarmos, eu vou tocar os negócios da sua família. Ele pisca para mim, como se estivesse me fazendo um favor. Respiro fundo, as unhas cravadas na palma da mão para manter a fachada. Eu não sou burra. Estou cursando Administração justamente para assumir a empresa, por mais que o meu coração pertença à dança. E não, ele não vai tocar nada. O acordo foi claro: ele será acionista, mas a maior fatia ainda será minha. O cargo de CEO me pertence por contrato. O dinheiro dos Galvão será um empréstimo, não uma compra. Faço uma nota mental: Conversar com meu pai. E, talvez, procurar o meu próprio advogado. - Quando casarmos, não pretendo parar de trabalhar, Fábio. - Deixo a máscara de boa moça escorregar um pouco, apenas o suficiente para plantar uma dúvida na mente limitada dele. - Sim, você terá o trabalho mais importante: cuidar da mansão e criar os nossos herdeiros. - Ele suspira, ignorando o meu tom. - E cuidar da sua pele, evitar rugas… você precisa se manter esse troféu lindo para desfilar de braços dados comigo. Sinto o meu estômago dar um solavanco. Por sorte, as folhagens da entrada da minha casa surgem no campo de visão. Não rebato. Não vale a pena gastar saliva com quem já se acha dono da verdade. Salto do carro antes mesmo que ele termine de estacionar completamente. Não me despeço. Não olho para trás. Tenho uma lista de prioridades para as próximas horas: Entender cada linha do acordo entre as famílias. Confrontar o meu pai sobre a gestão dos negócios pós-casamento. Tomar um vinho bem gelado para esquecer o cheiro da prepotência do Fábio. E, mais importante de tudo: pesquisar cada detalhe sobre Pedro Galvão Carpinetti.
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